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28 março 2022

94 Oscars - Violentos

Vi os Oscars com muito pouca atenção. Depois das alterações do ano passado, as que não foram directamente motivadas pela pandemia, os Oscars perderam a pouca piada que lhes restava. Basicamente ainda vejo porque não me custa, costumo estar acordada a essa hora.

Como também não tive disponibilidade nenhuma para acompanhar os filmes nomeados e dos nomeados acho que só vi o Dune, os Oscars este ano foram vistos com zero antecipação, quase que me esquecia.

Dito isto, como tenho andado bastante ocupada, acabei por estar a fazer outras coisas durante a cerimónia e, como não tinha um plano de fazer algo com as mãos, fiz uma série de tarefas, que me fizeram prestar pouca atenção à TV.

Isto resultou que nem dei pelo tabefe do Will Smith ao Chris Rock e só percebi que se tinha passado algo pelos comentários da Catarina Furtado no intervalo. Para agravar mais a coisa, a box resolveu fazer restart a meio do discurso de aceitação de Will Smith, que não tinha terminado quando o programa voltou. Só hoje vi o que se passou, que só me lembrou o meme do Batman acima.

A propósito de Catarina Furtado, os apresentadores portugueses são completamente obsoletos no directo dos Oscars. Pior então quando colocam dois palermas como a Catarina Furtado e o Mário Augusto a apresentar. Este ano reparei que os intervalos eram longos, ninguém disse nada de jeito, e, para variar, o conceito de Red Carpet continua a ser desconhecido a quem produz estas emissões. Calem-se de uma vez e deixem as pessoas ver os vestidos bonitos e a cerimónia apenas com as interrupções de origem (devidamente preenchidas com publicidade local)!

Maya Rudolph

As fatiotas andam mais exóticas! Não havendo vestidos que me chamassem a atenção por aí além, adorei a Maya Rudolph de diva anos 70! Rita Moreno arrasou como sempre e gostei da fatiota da Zendaya.

Os moços também andam mais exóticos, sobretudo os mais novinhos. Pessoalmente a minha preferência continua num bom smoking de veludo!

Bom, será que para o ano ainda blogo sobre os Oscars? Este ano estive quase para não o fazer.

31 dezembro 2021

Porque só devia haver um Matrix

Nesta última entrada na Matrix, alguém diz que "The Matrix is brain porn" (sic). Pois é, concordo, pena que, tendo inteiramente consciência disso, as manas Wachovski não nos tenham dado brain porn em 3 dos 4 filmes, mas se tenham entregue a devaneios com orçamento hollywoodesco. 

Atenção, eu até gosto dos devaneios das manas, mas eu tenho um gosto esquisito, talvez exceptuando o Speed Racer, mas por razões que se prendem com a falha completa das adaptações de anime ou manga a live-action pelos americanos. Mas os devaneios das manas são basicamente filmes de autor com orçamentos nível Disney, que ganhavam mais com um orçamento espartano e um produtor à maneira, que as faria concentrar-se naquelas duas palavrinhas-chave, que lhes deram o seu único e verdadeiro êxito: brain porn.

Para além das inovações tecnológicas (até hoje alguém vive com o arrependimento mortal de não ter registado a patente do bullet-time), da estilização visual e sonora completamente inovadora, o The Matrix tem uma base filosófica e de ficção científica pura e dura, que se vê em muito poucos filmes, sobretudo de género, mas também independentes. Ainda se podem ler no site original, através da Wayback Machine, os textos que foram escritos à volta das várias teorias que são expostas no The Matrix, por alturas da estreia das sequelas, e por pensadores modernos. Vão lá lê-los, se gostam de ficção científica e de brain porn. Vale a pena! Já agora que lá estão, naveguem um bocadinho no site, que é uma obra prima da infância da internet. Mesmo quem não faz questão do brain porn, ou nem sabe o que isso é, é exposto de forma muito inteligente a questões filosóficas que, acredito, passam pela cabeça de qualquer pessoa, mais cedo ou mais tarde nas suas vidas. São questões básicas, sem resposta, provavelmente nunca terão resposta. É aí que entra a ficção científica e a criatividade de quem a concebe (não importa o formato), está na concretização ou alguma hipotética resolução para essas questões que nos assolam em maior ou menor grau. O The Matrix também é um sinal do tempo em que foi criado, e aí é, como toda a ficção científica, datado. Quando digo "datado", não é envelhecido. Sempre achei, principalmente desde que comecei a ler ficção científica na adolescência, que a f-c espelha a realidade em que foi escrita, e é um exercício que gosto de fazer sempre que leio um livro novo, tentar identificar a sua época. Em geral acerto. Acerto não porque seja especialmente perspicaz, mas porque a ficção científica, o eterno menosprezado género literário, é o que sempre melhor nos mostrou a época em que foi criado e tem quase sempre por base conceitos filosóficos e humanistas. Digamos que é filosofia em formato pulp. E também é uma das grandes razões porque adoro a ficção científica em todos os seus formatos.

Então afinal porque não fazem falta os outros filmes? Primeiro porque, apesar do final em aberto, o The Matrix encerra ali todas as questões levantadas: A Alice no País das Maravilhas, o Brain in a Vat, as realidades manipuladas, a formatação das massas, o mito do escolhido, o messias, etc., etc., etc. Não eram necessárias mais explicações. Mais explicações são tomar o espectador por burro, é mansplaining, é bater no ceguinho. Mais, toda a elegância "estilosa" do primeiro, mesmo na "realidade", foi gradualmente sendo substituída pelos devaneios de mud wrestling e afins das manas. Basicamente elas complicaram o que já estava muito bem exposto, acrescentaram informação redundante. Deviam, como o George Lucas e o Spielberg, ter lido o Hero's Journey,  do "amigo" Joe Campbell e K.I.S.S., Keep It Simple, Stupid. Mas esses dois também não aprenderam bem a lição, ou já se esqueceram.

Se o Reloaded e o Revolutions não faziam falta, o Resurrections menos ainda, mas por razões um bocadinho diferentes. A redundância está nos três, mas no Resurrections o grande problema é outro: a história é muito fraca, com mais buracos que um queijo suíço e parece que quiseram fazer do Matrix um filme da Marvel, com opções estilísticas muito questionáveis. Infelizmente Lana Wachovski entrou na moda dos filmes de acção com uma narrativa quase inexistente, personagens com pouca ou nenhuma densidade e cenas de acção atrás de cenas de acção, reforçadas por aqueles efeitos sonoros mega irritantes dos graves com doppler, que compõem a banda sonora inteira de uma porcaria chamada Aquaman. Pior, estas cenas de acção à Marvel, são daquelas em que está TODA a  gente envolvida vestida da mesma cor, são pelo menos 3 ou 4 envolvidos, na maioria das vezes mais, e não se percebe patavina do que está a acontecer. Terem essas cenas ou uma descrição escrita das mesmas no ecrã, seria para mim a mesma coisa. Talvez a versão em texto até fosse melhor, pois ao menos assim deveria perceber melhor o que está a acontecer (pontos para os artistas de storyboard que, de alguma forma, terão conseguido interpretar aquela salgalhada em imagens).

Depois há a questão da estética visual. Na cena do átrio em The Matrix (sim, eu sei, baseada em Ghost in the Shell - continuo a preferir a cópia ao original), entre câmaras lentas e efeitos acrobáticos, percebe-se sempre o que se está a passar. Há um ritmo musical no modo como essa e as outras cenas de acção foram coreografadas, entre actores e câmaras, que é maravilhoso de ver e rever. As dos outros filmes foram-se tornando cada vez mais confusas. Os figurinos e cenários, com a predominância dos pretos e verdes, algum branco para os Agents (o Neo e os amigos nunca usam branco - nos filmes seguintes esse código de cores não é respeitado), dá-nos simultaneamente a sensação de insólito e a certeza que não estamos na realidade. Mesmo a "realidade", em cinzento e azul, é codificada cromaticamente, com Neo e Trinity a vestirem praticamente a mesma coisa, as mesmas camisolas cinzento mesclado com malhas puxadas, os mesmos jeans cinzentos gastos. Os outros, com variantes noutros materiais "orgânicos" e com a mesma paleta de cores. Esses códigos de cores, mais ou menos assumidos, são fundamentais sobretudo para narrativas distópicas, reforçando emocionalmente a suspensão da descrença, oferecendo ao espectador uma coerência visual que nos deixa confortáveis no universo em questão. Tornar uma narrativa que não é naturalista e realista, visualmente realista, não a torna mais "real" para o espectador e até faz com que se perca essa suspensão da descrença, pois começamos a avaliá-la com os nossos valores da realidade, que quase nunca correspondem realmente aos valores do universo no ecrã e acabam por distrair-nos. Mesmo em filmes mais realistas, há um controlo visual cuidado, que só é bem feito quando não se dá por ele enquanto se está  a ver o filme. No início de The Matrix, não percebemos logo que a paleta de cores é limitada, pois pessoas vestidas de preto e luz esverdeada, é bastante credível na nossa realidade, a luz fluorescente fotografa naquele tom, se não usarmos um filtro corrector. Portanto, essa paleta é familiar. Só damos realmente pela limitação, quando nos é dado o termo de comparação, primeiro com o tom âmbar das cápsulas das Machines e depois com a "realidade" cinzenta e azul.

Porque, não achando eu que as 3 sequelas fazem falta, fui vê-las na mesma ao cinema? Os Reloaded e Revolutions foi na esperança de ainda haver um coelhinho branco para seguir, este Resurrections foi por desporto, por querer ver novamente o Neo e amigos (e o eye candy do Keanu Reeves) no grande ecrã e porque a pandemia deu-me mais vontade ainda de ir ao cinema, apesar de o orçamento nem sempre o permitir. Ah, mas o Resurrections tem uma coisa de que gostei muito, foi ter como base não a Alice no País das Maravilhas, mas a Alice do Outro Lado do Espelho. Não fosse ter tido que enfiar voluntariamente uma zaragatoa no meu próprio nariz, teria valido a pena só por isso. Mas o filme não é responsável por a cultura ser a culpada de todos os focos da pandemia. NOT!

O The Matrix, como franchising, ou fandom, ou o que lhe quiserem chamar, está tão velho e partido, como infelizmente também estão os meus óculos da Trinity, uma das minhas primeiras compras na internet. Ah sim, os óculos deste filme são normalérrimos... O DVD do The Matrix foi o primeiro DVD que comprei, e nunca tive grande vontade de comprar os outros dois filmes ou a box que saiu mais tarde com os três. Este não quero mesmo comprar. Para além disso, o Matrix como franchising, será sempre de segunda, a não ser que a Disney lhe meta as patas em cima. Isso significa, que daqui a um ano, ano e meio, temos os 4 filmes a passar em maratona num qualquer canal de cabo, como já temos volta e meia os três anteriores.

The Matrix

The Matrix Resurrections 

14 dezembro 2021

Vilão que é Vilão, tem Contas Offshore na Ilha da Culatra

Quando assisti ao painel do Pôr do Sol, na ComicCon Portugal este fim de semana, é que percebi que me esqueci de terminar e publicar este post sobre a novela, escrito originalmente em Setembro. 

***

No início, ignorei, já perdi a paciência para novelas portuguesas há imenso tempo. Depois vieram os memes, "mmm... o que é isto?" E depois os posts dos amigos, em cujo gosto confio. Mesmo assim tive de confirmar. Rendi-me ao primeiro episódio! 

Pôr do Sol, O Amor Vem de Noite (sim, tem que ter a tagline!) é a lufada de ar fresco que a televisão portuguesa precisava. Há muito!

Inspirada em antigas sátiras novelescas, como O Diário de Marilú (in O Tal Canal) ou Moita Carrasco, Pôr do Sol é uma "telenovela" a gozar com as telenovelas, um desfilar de todos e mais algum clichés que se podem ver em novelas, desde DallasVale Tudo. O vilão com o copo de whisky na mão, as gémeas separadas à nascença, o bairro popular, cheio de aldrabões e pequenos criminosos, ginginha, pastéis de bacalhau, casas de fados, incesto, raptos, crime, corrupção, assassinato, várias estadias no hospital, um padre muito pouco celibatário, nomeiem o cliché, ele está em Pôr do Sol! Isto tudo aliado aos diálogos mais disparatados, ditos por um elenco impecável. Tenho de destacar Gabriela Barros, que interpreta as gémeas, que faz um trabalho genial! Como alguém disse numa rede social, é um trabalho impressionante, conseguir dizer aqueles dialogos daquela forma tão séria, sem se esbardalharem a rir! Gostava de ter assistido a um dia de gravação, hehe!

Desde os anos 80 que nunca mais se fez nada do estilo e é uma pena. Nicolau Breyner, uma das grandes inspirações dos autores, Manuel Pureza, Henrique Dias e Rui Melo (que também interpreta o vilão, Simão), foi um dos criadores do género, chamemos-lhe, o nonsense à portuguesa. Todas as séries acima a mencionadas, mais Duarte e Cª., tiveram bastante sucesso nos anos 80, mesmo que com meios de produção reduzidos e muito pouco polimento técnico. Eram os meios que existiam e, tipicamente, também foram produzidas com um orçamento muito reduzido, pois não foram levadas a sério. Eram verdadeiras Séries B, feitas com os restos de produções "mais nobres", com os técnicos a contrato pela RTP. Com o sucesso que tiveram, e teriam muito mais hoje, com uma boa campanha nas redes sociais, foi uma pena nunca terem feito "escola" e não terem continuado a ser produzidas coisas dentro do género.

Há uma grande resistência de quem decide, determina, programa as nossas TVs, a sátiras mordazes, que não se levem demasiado a sério. Mesmo Pôr do Sol é curtinha, com apenas 16 episódios, que comprova essa resistência. Espero que o claro sucesso mostre, pelo menos à RTP, que vale a pena apostar em conteúdos nonsense à portuguesa. 

Entretanto a segunda temporada já foi confirmada, vamos continuar a acompanhar a vida dos Bourbon de Linhaça, do Testículo, etc. e a banda Jesus Quisto já é sensação fora do contexto da novela. Tanto, que o amigo que me acompanhou ao painel e ainda não tinha visto a novela, não sabia da relação entre ambas.

O painel na ComicCon Portugal começou com os Jesus Quisto a tocar, Diogo Amaral, vestido de Joker e Madalena Almeida, vestida de Harley Quinn, em honra da ComicCon. Seguiu-se uma entrevista, entre a apresentadora, os autores e actores de Pôr do Sol e o público, onde se falou das inspirações, de detalhes técnicos (os copos para partir custam €35 cada!) e de piadas de bastidores (a maldição de Manuel Cavaco). Foi bem conduzida, de forma leve e divertida, estimulando a participação do público. 

Pôr do Sol (RTP Play)

09 dezembro 2021

Para Sempre... Interminável

 


Uma destas manhãs, enquanto tomava o pequeno almoço, começou a dar a Neverending Story (História Interminável), e pela primeira vez reparei num pormenor na equipa técnica.

Mas primeiro vou falar da minha relação muito pessoal com este filme e, sobretudo, este livro. Quando a adaptação para cinema da Unendlische Geschichte foi anunciada, em 1983, eu vivia na Alemanha, concretamente na RDA. Uma amiga tinha recebido de presente o livro e, desdenhando um bocado uma produção cinematográfica da RFA, com um pezinho em Hollywood, disse-me que o livro era excelente e que eu devia ler. Apesar de falar alemão e andar numa escola alemã, eu nunca tinha lido mais que revistas, artigos, banda desenhada ou instruções para fazer coisas. Enchi-me de coragem, pois o livro (naquela edição) é um tijolinho, e aceitei o desafio. É, até hoje, um dos meus livros preferidos e, apesar de ser para um público juvenil, é um livro que não tem idade e deveria constar muito mais nas listas de literatura fantástica. Este e os outros livros de Michael Ende, que teve o azar de morrer muito novo. Mas Die Unendlische Geschichte tem um problema grave, é um livro que, pelos seus subterfúgios gráficos e literários, perde com a tradução. Em inglês (que nunca li) é capaz de se safar, um bocado como do francês para português, mas em português esses subterfúgios perdem-se quase todos (um deles são os inícios de capítulo, com a primeira letra em iluminura, onde em português pode ficar forçado com facilidade) por causa das grandes diferenças entre ambas as línguas. Para além disso, Ende é um escritor brilhante, com um estilo maravilhosamente surreal.

O filme não passou nos cinemas da minha cidade na RDA, tal como o livro não tinha sido publicado por lá - o da minha amiga tinha sido oferecido, uma edição da RFA - não enquanto eu lá vivi. Por isso já só vi o filme, depois do meu regresso a Portugal, não me lembro quando, mas acho que não foi logo em 1984. Neverending Story é um daqueles casos de uma adaptação problemática. O que aparentemente parecia mais complicado, a recriação de Phantásien e dos seus seres exóticos, foi extremamente bem resolvido, com efeitos práticos inéditos num filme alemão, e uma réplica muito fiel às descrições do livro. No entanto, a história foi hollywoodizada, e focou-se menos na narrativa de amadurecimento que em pormenores secundários, sem importância maior, que foram distorcidos para servir o 'lobby' moralista de Hollywood.

Portanto, o que temos de bom em The Neverending Story? Uma excelente escolha de elenco, segundo as descrições do livro, excepto, talvez, o Atreju com pele verde, um design de produção impecável, muito fiel ao livro, e efeitos especiais de primeira! É lamentável a narrativa não estar à altura. Por isso, apesar de no geral ser um filme bem feitinho, espalhou-se ao comprido, ao tentar hollywoodizar o que é caracteristicamente não-Hollywood.

Tanto relambório por causa de um pormenor?  É um pormenor importante, importantíssimo! A razão é porque os efeitos especiais foram supervisionados por nada mais que Brian Johnson. E com uma mãozinha de Carlo Rambaldi. Mas afinal quem é Brian Johnson? Nada mais que o tipo que fez os efeitos especiais, nomeadamente os Águias de Space: 1999, voar! Johnson trabalhou durante vários anos para Gerry Anderson, foi ele e a sua equipa que fizeram os Thunderbirds voar, o Stingray mergulhar e basicamente ajudou a criar a Supermarionation. Quando Gerry Anderson resolveu aventurar-se em produções live-action, naturalmente a equipa de efeitos práticos, criativa e eficiente, manteve-se. Pouco tempo depois, Johnson e os outros técnicos, que filmavam o Space: 1999 nos estúdios Pinewood, perto de Londres, foram contratados para trabalhar no que viria a ser um gigante da ficção científica: Star Wars, também filmado em Pinewood. 

Portanto, foi uma surpresa agradável ver que os intercâmbios de técnicos de cinema europeus, deram frutos tão bons e explica porque Neverending Story não tem falhas a nível de efeitos práticos. Para além de o filme ser realizado por, o então desconhecido, Wolfgang Petersen, outro nome que figura na equipa técnica é David Fincher, como assistente de fotografia mate, e a Industrial Light & Magic esteve envolvida nos efeitos visuais do filme.

Eis uma razão para rever este filme e observar atentamente os seus efeitos especiais.

The Neverending Story 

05 novembro 2021

Nas Dunas

as duas Reverend Mothers em Dune:
Siân Philips e Charlotte Rampling

Dentro dos filmes adiados por causa da pandemia, Dune era um dos mais aguardados por toda a gente. Para além de ter lido o livro, é verdade que no século passado, sou grande fã do filme do Lynch, de 1984, mesmo com todos os defeitos que lhe são associados. Para não me desiludir muito, fui ver esta nova adaptação com as expectativas muito baixas, mas mesmo assim fiquei um bocadinho desiludida. Não sou purista quanto ao livro, mas sempre achei o final do filme do Lynch apressado. Li o livro pouco depois de ver o filme pela primeira vez, e, em vez de achar que a adaptação falhou, achei que o livro acrescentou informação pertinente mas difícil de incluir numa adaptação cinematográfica, correndo um enorme risco de tornar o filme chatérrimo. O pequeno resumo da situação socio-política, pela voz da Princesa Irulan, para mim, para um filme, foi um estratagema diferente e que não me chateia em absoluto, pois visualmente é intrigante. Naturalmente irei comparar ambos os filmes, é-me impossível não o fazer, exactamente por o novo Dune ser o filme que é.

Vamos por partes.

Vou já despachar o que realmente me irrita: porque mudaram a fonética de dois nomes vitais no universo de Dune? HarkOnnen passou a Hark'nen e Bene Gesserit passou a Bene Jesserit no filme de Villeneuve. Harkonnen, como parece um nome de etimologia nórdica, soa esquisito sem o ênfase no O. Soa tão estranho na nova versão! Já a mudança em Bene Gesserit é mais estranha. Em geral, em inglês, ao contrario do português, o G lê-se G, e muito raramente J, por isso não percebo o "Jesserit". Qual seria a intenção original de Frank Herbert? No IMDB dizem que Villeneuve o fez à francesa, mas que Herbert determinou a pronúncia à inglesa como correcta. É uma pergunta que este filme nos deixa.

A estética.

Uma das coisas de que sou fã no filme do Lynch é a estética muito barroca, que veio quebrar o estilo minimalista ou space age dos filmes de ficção científica até à data. Achei bem mais plausível que houvesse estilos bem distintos tanto no guarda-roupa, como nos cenários de cada planeta, povo ou grupo religioso. Também adoro o traje das Bene Gesserit, com um belo piscar de olho a vários elementos da história do traje e elas têm um ar super sinistro e assustador, com o cabelo e as sobrancelhas rapados. A predominância do laranja em Arrakis, também reforça a presença da spice e o calor insuportável do planeta. Só tenho pena dos efeitos ópticos ficarem aquém até do que se fazia na altura, tornando todas as cenas no espaço um bocado de fazer dó e que quebram a magia do que está tecnicamente muito bom no resto do filme.

No novo Dune, é tudo muito lavado a beige ou cinzento, pendendo os planetas húmidos para os cinzentos e os planetas quentes e secos para o beige. Os tecidos parece que foram todos comprados na mesma tecelagem, ou nas duas tecelagens do universo, uma focada em fibras naturais, lãs e linhos, e outra nas sintéticas, vinis e borrachas. As cores parece que foram eliminadas, senti-me daltónica a ver o filme, não há contraste. Apenas gostei dos fatos de astronauta dos enviados do Império, com os capacetes cheios de fumo laranja, mas não têm o mesmo impacto insólito que têm os do Lynch, vestidos de saco do lixo e com apêndices por todo o lado. Não fiquei minimamente fascinada com os stillsuits, mas gostei de se ver mais vezes a protecção da cabeça, uma das falhas mais imperdoáveis no filme do Lynch. Pelo contrário, as cenas no espaço, os portais, são visualmente muito interessantes, apesar de eu ainda preferir as molduras-portais do Lynch, só é pena o efeito especial estar mal feito. Neste, gostei de algumas naves espaciais, mas são pouco insólitas, excepto os Tópteros, esses são lindos! Acho o filme um grande empastelado visual, onde não se distinguem as várias facções, povos, tribos, uns dos outros.

Até a música parece empastelada. Várias vezes, nos poucos e pequenos crescendos da banda sonora, estava à espera do Prophecy Theme do filme de 1984 surgir, mas depois regressava aos mesmos acordes. Não existe um leitmotiv, uma marcha, nada que distinga as peças musicais umas das outras, a banda sonora é um contínuo com poucas variantes e por outro lado também não é minimalista.

Os actores.

Não tenho grandes criticas a fazer quanto à escolha dos actores em nenhum dos dois filmes, prefiro alguns em vez de outros, mas mais por razões externas aos filmes, por preferências pessoais. Apesar de um bom desempenho, achei a nova Lady Jessica com um ar muito novo (tem mais 12 anos que Timothée Chalamet) e que chorava imenso no filme. Gosto mais da altivez desafiante de Francesca Annis.

A narrativa e realização. 

Não consegui desligar-me do filme do Lynch enquanto via o filme do Villeneuve. Isso, a meu ver, já coloca o filme novo em desvantagem, não se conseguiu distanciar o suficiente e ter um impacto novo na minha cabeça. Mas o não conseguir desligar-me do filme do Lynch também não foi mau, de certa forma fez-me gostar mais deste filme, pois como sabia o que se ia passar a seguir, antecipava os acontecimentos com algum entusiasmo. O velho truque do suspense de Hitchcock, aqui funcionou entre filmes. Mas senti imensa falta da montanha-russa de emoções que o filme do Lynch ainda me provoca, o entusiasmo com que vejo certas coisas a acontecer pela primeira vez, entusiasmo esse que esteve quase ausente neste filme. Achei-o emocionalmente bastante insípido e que terá havido alguma insistência em incluir pequenos eventos que no filme do Lynch ou foram eliminados ou aglutinados por uma questão de economia narrativa. É certo que para fazer uma adaptação equilibrada do livro, um só filme não chega, mas terão sido realmente importantes as cenas a mais no filme de Villeneuve? O compasso do filme ainda por cima é lento e apressa certas cenas importantes, como a do Gom Jabbar. A deste filme não me assustou nada e a do Lynch, ao fim de o ver já não sei quantas vezes, ainda me dá arrepios. Siân Philips mete MEDO! Shadout Mapes foi um bocado relegada a figurante especial e não se percebeu bem o que estava lá a fazer. Para quê mais metragem de película (eu sei, eu sei, o filme é digital) para desdobrar a cena de Paul e Jessica em Arrakis, que até pode estar assim no livro (já não me lembro), mas que bastava ter sido aglutinada como em 1984? E, por fim, se não tivesse lido o livro e visto o filme do Lynch, não ia perceber nada das politiquices daquele universo. De lá só saem duas coisas: os Fremen são explorados e oprimidos (versão de 1984: check!), os Atreides foram levados para uma armadilha em Arrakis (versão de 1984: check! e com menos exposição verbal).

Ah, já me esquecia das visões de Paul. Pontos para o Lynch, que as manteve sobretudo visuais, mas marcantes e que as repete tantas vezes ao longo da primeira parte do filme, que ficamos a sabê-las de cor antes de se concretizarem. Especiaria, Chani, o rato, a Lua, a gota de água, a mão.

E falta o cãozinho! É uma das minhas diversões preferidas no Dune de 1984, ir acompanhando o cãozinho que sobrevive o filme inteiro! Reparem da próxima vez que o virem.

Naturalmente irei ver a parte 2 deste Dune, estou curiosa para saber quem fará de Feyd e de Alia, mas não espero muito mais que um filme tecnicamente bem feito, interpretado por gente competente e já sem o eye candy do Oscar Isaac nuzinho em pêlo!

Dune (IMDB)

22 agosto 2021

Bem Bom


Continuo em Portugal dos anos 80, mas uns aninhos para trás. Tarde e a más horas, finalmente consigo escrever sobre Bem Bom, o biopic sobre as Doce, a mais épica girlsband portuguesa.
Eu, que raramente fixo letras de música, preciso das canções a tocar para me lembrar até das minhas preferidas, ao longo da vida fixei duas ou três, excepto das Doce, onde sei as letras inteiras, das canções mais populares. Está tudo dito, sempre fui fã das Doce, desde os 11, 12 anos, pelo que a escandaleira à volta delas me passou um pouco ao lado, e ainda bem. Lembro-me só de se dizer muito mal da "loira das Doce", que era uma badalhoca ou coisas piores, mas não me lembro da difamação abordada no filme em concreto, mas que terá sido o que gerou tal má língua dirigida a ela e à banda em geral.

As Doce foram uma conjugação inusitada e mágica de boas ideias, a maioria muito arrojada para o Portugal cinzento, e acabaram por ser pioneiras em muitas coisas que, um pouco depois e lá fora, tiveram o dobro ou o triplo do sucesso que elas tiveram. Foi demasiado cedo? Talvez. No país errado? Definitivamente! Mas uma coisa eu digo desde o esmorecer e depois fim da banda, elas mereciam mais, sobretudo respeito!

O filme de Patrícia Sequeira consegue mostrar-nos tudo o que nós, pré-adolescentes e adolescentes da época nos lembramos e aquilo que nos era vedado. Conta a história da banda, desde a sua construção até vencerem o Festival da Canção, de forma linear, clássica e realista. É um filme muito competente, que poderia estar ao lado de outros biopics semelhantes, mas com uma produção hollywoodesca. Assim de repente, lembro-me de uma série deles, uns melhores que os outros, mas muito poucos passados nos anos 80. Gostei muito da mise-en-scéne, gostei da montagem ágil, tem pormenores muito bonitos e bem feitos. O argumento é sólido e aborda muito bem os preconceitos e escândalos que rodearam as Doce. A única coisa que me pareceu, desde o início do filme, muito fora do contexto, foi a secretária, sempre tímida e submissa, para no fim ter um discurso motivacional um bocado forçado. Mesmo a interpretação da actriz foi, dos papéis mais recorrentes, a que menos gostei. Forçado é a única palavra que encontro para a descrever.

O elenco é quase perfeito! Quase todos os actores principais partilham grandes semelhanças físicas com as pessoas que retratam e o resto foram cabelos e maquilhagem. Nem sei como conseguiram encontrar alguém tão parecido com o Tozé Brito, que tem uma fisionomia muito invulgar. Só o Mike Sargeant era mais magro e mais bonito que o actor que o retrata. Até fiquei, "ah pois, é ruivo, tem de ser o Mike Sargeant", mas a figura dele era mais vistosa que no filme.
As interpretações, sobretudo das quatro actrizes, Bárbara Branco (Fátima Padinha), Lia Carvalho (Teresa Miguel - a "ruiva"), Carolina Carvalho (Lena Coelho) e finalmente, Ana Marta Ferreira (Laura Diogo), são impecáveis, sobretudo quando penso que a maioria tem navegado, mais ou menos anonimamente, pelas águas estagnadas das telenovelas em grande parte das suas carreiras. Reconheço as caras de todas, mas concretamente só me lembro do trabalho de Ana Marta Ferreira, que provavelmente vi pela primeira vez, miúda, na Floribella. Já não acompanho novelas portuguesas há imenso tempo, mas cheguei a ver algumas séries juvenis. O restante elenco também tem um bom desempenho, fora a já mencionada secretária. 

Em termos visuais, destaco uma direcção de fotografia muito bonita, com cores de pedras preciosas e uma luz que lembra os bares à antiga de Lisboa, como o Snob ou o Procópio.
Divido os figurinos em duas partes, os figurinos à civil e os dos espectáculos. Os dos espectáculos estão perfeitos, executados magistralmente pela Miss Suzie, com quem me cruzei no secundário. Com certeza que ela teve imenso gozo em recriá-los, e isso nota-se! Os figurinos à civil têm um pequeno desfasamento, mas creio que foi uma decisão criativa, para gerar coerência visual. O filme começa em 1979, mas Fátima Padinha já veste blusões e camisolas que só se popularizaram cerca de 1982. Mas como é uma sequência relativamente curta e introdutória, não me chateia, pois estabelece a caracterização visual de Fátima. Fora essa pequena incoerência, as peças usadas parecem todas genuínas, mesmo que não o sejam, e estão consistentes com o que raparigas de 20 anos vestiam na altura e com as próprias Doce. Os figurinos dos homens, mais conservadores, também estão consistentes com a época, mas é bem mais fácil, já que mudou relativamente pouco desde então. Depois foi engraçado ver as manobras mirabolantes que José Carlos teve de fazer para trazer tecidos de espectáculo, na candonga, para Portugal. Não foi pormenor que pudesse deixar passar, pois era mesmo assim. Nos anos 80, em Lisboa, havia 5 vezes mais lojas de tecidos que agora, os tecidos eram de boa qualidade, mas a variedade era pouca. Lembro-me bem, quando comecei a comprar tecidos, de haver muito pouca coisa com brilhos ou malhas além da lycra, era quase tudo na base dos algodões, linhos e fazendas, e coisas como boás de penas ou tecido de lantejoulas eram caras e raras. Ainda hoje é difícil encontrar alguns desses materiais mais exóticos nas lojas mais antigas que sobreviveram. E depois havia a questão da importação. A malta hoje queixa-se da alfândega, mas naquela época era pior. Numa viagem a Inglaterra em 1983, eu vi uma meloa a ser confiscada no aeroporto inglês, pois era proibido levar comida fresca para o Reino Unido. Tinha a ver com o facto de não haver raiva nas ilhas britânicas, ou assim me disseram.

Antes de ir ver o filme, estava receosa de ter aquela visão feminista moderna, de #metoos e afins (nada contra, mas não queria que um filme sobre uma girlsband se tornasse num instrumento militante), mas achei a abordagem aos problemas que as meninas tiveram de enfrentar justa e elegante. Também gostei de vir a saber melhor o que se passou com Laura Diogo, o ser humano é realmente mesquinho! Espero sinceramente que ela esteja em paz com a vida e que aquele evento nojento tenha deixado de pesar. Ninguém merece!

No geral, também foi emocionante e muito divertido fazer esta viagem ao passado tão bem feitinha e cantar as músicas sempre que surgiram no filme. O filme merece todo e mais algum destaque que tenha tido e espero que este modesto post, leve mais alguém a ver o filme.

Bem Bom (imdb)

08 agosto 2021

Duarte & C.ª

Duarte & C.ª é provavelmente a série de televisão portuguesa mais icónica de sempre. Com meios de produção reduzidíssimos, mas boas ideias e bons desempenhos dos actores, conseguiu-se um equilíbrio de dois géneros que os portugueses raramente abordam de forma satisfatória, a comédia e o policial. Temos bons actores de comédia, mas a comédia, como género televisivo, é quase sempre abordada de forma boçal e medíocre e raramente em ficção. Com o orçamento de uma carica e um cordel, mas graças ao empenho de todos os envolvidos, onde muitos elementos da equipa técnica também participavam como actores secundários, um produtor/realizador extremamente inventivo e uma escrita genial, criou-se uma série que ficou na memória e no coração de quem a viu nos anos 80 e também de quem a viu depois. Qual é a outra série portuguesa, com mais de 30 anos, que permaneceu assim no imaginário nacional?

Infelizmente, tanto a RTP, como exibidora, ou a Castello Lopes, como editora dos DVDs, nunca deram o tratamento merecido a uma série tão popular e querida do público. Restou-nos a RTP Memória, cuja programação é de louvar, que voltou a exibir a série, do primeiro ao último episódio, no início deste ano. Mesmo assim, o que custa às televisões respeitarem o formato original, 3:4, e emitirem os episódios assim? Felizmente podemos mudar o formato na maioria das televisões modernas, mas não deixa de ser uma seca. A RTP Memória não é a única, a Globo, que também transmite muitos programas ainda no formato 3:4, também raramente os emite correctamente. 

Que gozo me deu rever a série! Provavelmente foi a primeira vez que a vi inteira, aliás, lembrava-me melhor da primeira série que da segunda, que já devo ter visto com muito pouca regularidade. A quantidade de ideias brilhantes por episódio é extraordinária, a começar com os bandidos/mafiosos a fazer terapia, anos valentes antes dos Sopranos! Mas há mais, o 2CV a andar sozinho, as mulheres violentas, os bandidos adoráveis, o cientista louco...

Também foi tão bom rever excelentes actores que já nos deixaram, a começar pelo excelente António Assunção, o Tó, o Canto e Castro, o Carlos Daniel, numa participação já no final da série, o Tino Guimarães, que conheci uns anos depois e com quem trabalhei. E outros que felizmente ainda estão connosco, como a Ana Nave, ou a Helena Isabel, ainda umas bebés, ou o Carlos Alberto Moniz, que foi uma espécie de ídolo musical na minha infância. 

É de lamentar a fraca qualidade técnica, sobretudo no som e imagem, mas que acrescentam ao carisma anos 80 de Duarte & C.ª e tornam a série única. Se tivesse um som e imagem impecáveis, já não era a mesma coisa e talvez não tivesse tanta piada. Aliás, a dada altura resolveram assumir o baixo orçamento e qualidade técnica, passando a fazer parte da narrativa cómica. 

Também foi giro rever Telheiras e Alvalade, os bairros de Lisboa mais reconhecíveis na série, como eram nos anos 80. Telheiras, para onde fui viver mais ou menos nessa época,  mas que vi nascer, ainda novinho em folha, os prédios com a pintura original, as árvores novas, as ruas sem trânsito e sem ninguém; Alvalade é o meu bairro do coração e que conheço como a palma da minha mão, e que foi filmado principalmente na minha zona preferida, na Avenida do Brasil e ao pé dos Bombeiros. 

Como em qualquer outra obra que tenha algum tipo de crítica social, em Duarte & C.ª são os salários em atraso, a falta de dinheiro geral, a entrada de Portugal na CEE, é sempre desconcertante constatar como tão pouco mudou, sobretudo na mentalidade das pessoas... Portugal ainda está na mesma.

Duarte & C.ª (IMDB)

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