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15 fevereiro 2026

Arthuriana Televisiva

Há mais de um ano que ando com desejos de consumo de Arthuriana que não satisfiz. Cheguei a comprar parte dos livros The Mists of Avalon em inglês, que tenho e já li em português, mas faltava o 1º volume e portanto ainda não reli.

Mas eis que o SyFy repôs a série Merlin, que não vi quando estreou, tanto quanto me lembro porque não apanhei a série do início e porque andava a ver imensas séries criminais e Doctor Who (que aliás tenho de ver se consigo ver as duas últimas temporadas, ando uma Whovian desleal).

Ora bem, a série envelheceu um bocadinho mal, principalmente depois de ver Game of Thrones, apesar de ser uma das pioneiras no estilo. Resumidamente, não sou fã de Game of Thrones, mas acho a série estupidamente bem produzida, com valores de produção altos e um excelente elenco. Em Merlin, que na altura era bastante bom, ainda vi um ou outro episódio, vêem-se demasiado as costuras, é duplamente anacrónica e os efeitos especiais não são os mais convincentes (a cabeça do dragão, por exemplo, é desproporcional ao corpo). Portanto requer distanciamento e esforçar a suspensão da descrença. Mas, se a primeira temporada é pouco convincente, à medida que vamos avançando na história parece que se começaram a levar mais a sério e o desempenho dos actores melhorou consideravelmente, sobretudo o de Merlin (Colin Morgan) e Arthur (Bradley James).

O elenco em geral não é mau, mas a caracterização física e os figurinos são por vezes demasiado modernos, o que não ajuda à imersão na narrativa. Mas tenho de falar sobretudo de Guinevere... Para começar a personagem é demasiado boazinha e pãozinho sem sal já de origem, portanto requer uma actriz com arcaboiço para sustentar a subtileza da coisa. Acontece que Angel Coulby é muito fraquinha, tem demasiados trejeitos e tem uma postura demasiado moderna. Melhora um bocadinho na fase Evil Guinevere, mas foi perdendo algum protagonismo, talvez exactamente por isso. Se ao menos a actriz fosse bonitinha o suficiente para compensar, mas nem isso. Tem os olhos demasiado juntos e os trejeitos enervam-me horrores! Com certeza que a equity dos actores britânicos tem imensas actrizes mais capazes, mesmo negras ou mulatas, se essa foi a razão da sua escolha.

Certos elementos dos figurinos ou adereços também me arrancam frequentemente da fantasia, como botas com solas novas ou de borracha ou frascos industriais, com as marcas de fabrico no fundo. A armadura assimétrica de Arthur também me enerva, até parece que não tinha orçamento para arranjar protecção para ambos os braços e para o coração. 

500-800 d.C.
1200 d.C.

Como não se sabe ao certo qual a época de Rei Artur e os seus Cavaleiros da Távola Redonda, as fontes variam entre o séc. VI e o séc. XII, e os trajes dos séculos 6 a 8 têm uma aparência mais romana, constituídos por togas e vestes largas, é comum optar-se por uma imagética do período medieval, do séc. XII, quando as lendas Arturianas se tornaram populares. Merlin acerta e falha nesse aspecto, as armaduras e alguns trajes masculinos são convincentes, mas depois temos o Merlin e o Arthur com vestimentas para ir à feira medieval local, botas de cavaleiro modernas e as mulheres a 100% feira medieval mais capas com carpuço, muitas capas com carapuço. Morgana traja imensa organza, veludo e rendas de poliéster, Guinevere vai mais para os algodões e cores pastel.

Mas vamos ao que realmente importa, a história. A acção passa-se principalmente antes de Arthur ser rei e ele não cresceu órfão num reino em caos sem monarca. A narrativa foi reformulada de modo a esticar a história, o que faz sentido, mas a precipitação ou atraso de certos elementos-chave da narrativa, como a morte de Uther ou a traição de Lancelote, deixam-me um bocado baralhada. Os episódios individuais são bem escritos e cativam o suficiente para uma pessoa continuar a querer ver, nem que seja para ver como vão resolver certos elementos da história. Cada episódio é bem estruturado, levando-nos a aventuras mais ou menos empolgantes e com uns cliffhangers jeitosos. À medida que as temporadas avançam, a escrita dos episódios melhora, embora tenha muitos episódios de encher chouriços, onde algo acontece no bosque ou numa aldeia vizinha, Arthur e Cª. vão ver o que se passa, lutam, passam dificuldades com algo sobrenatural, mas salvam-se graças a Merlin e às vezes Gaius, o médico/mentor de Merlin em Camelot. Contudo a última temporada pareceu apressada, talvez porque tenha sido escrita sabendo que a série não iria continuar.

Mas tenho pena que a história se foque na proibição da magia por Uther, pois é o oposto das lendas Arturianas, que falam da transição do paganismo para a "nova" religião, trazida anteriormente pelos romanos. Não se menciona nem os romanos, nem o cristianismo pelo nome ou por si só e o tema das religiões foca-se essencialmente no paganismo. Morgana é mais motivada pela sede de poder e a vingança, o que torna uma personagem extremamente complexa numa personagem demasiado plana. Resumindo, quase todas as ligações entre personagens foram alteradas, Avalon raramente é mencionada, são introduzidos uma série de reinos e personagens novos e a morte de Arthur é um pouco decepcionante, eliminando a busca pelo Santo Graal. Todo o panteão lendário de Avalon não é explicado, é somente mencionado ao longo da série como magia antiga.

Mesmo assim, soube bem ver Merlin como série de aventura, baseada livremente na Arthuriana, que cutou um pouco a assimilar ao início, mas que acabei por ver em modo mini-maratona (dois ou três episódios de cada vez) e deixou saudades. Creio que ainda não foi desta que satisfiz a minha fome de Arthuriana, preciso de mais.

Merlin (BBC)

17 janeiro 2026

Ari Aster Não É Para Mim

E quem diz Ari Aster, diz Greta Gerwig ou a recém-descoberta (por mim) Emerald Fennel.

Em relação ao Aster, já tinha visto o Hereditary no MOTELx há pouco tempo e tinha chegado à conclusão que não é para mim. Da Gerwig vi o Barbie e da Fennel vi recentemente o Saltburn.

Acho os três cineastas extremamente pretensiosos e que se escondem por trás de uma estética exótica muito estilizada que chama a atenção sobre si. Mas os filmes, espremidinhos, não deitam grande sumo.

Como disse, cheguei a Ari Aster pela porta do Hereditary e acabei de ver o Midsommar. Já tinha achado o Hereditary muito vazio, salpicado de uns quantos jump scares e algum gore. Já Midsommar é mais limpinho, o gore minimizado ou à distância e o conteúdo: zero. Sim, joga com uma estética solar e poético-pastoril para chocar com o ambiente soturno habitual dos filmes de terror, mas não me cativou o interesse, nem assustou, nem encandeou. Serviu como veículo para a ribalta de Florence Pugh, que é uma excelente actriz, mas de quem já vi performances bem melhores.

Greta Gerwig e o seu feminismo delicodoce irritam-me. Little Women é anacrónico e pouco interessante. Hão-de viver sempre na minha cabeça as adaptações de George Cuckor (com Katherine Hepburn) ou Gillian Armstrong (com Winona Ryder). Ou até mesmo o anime da NHK. Barbie não me aqueceu nem arrefeceu. Nunca fui fã da boneca e quando começou aquele Oscar clip (sic. Wayne's World) feminista final só me apetecia arrancar os olhos... credo, que coisa mais cliché! Para além disso detesto cor-de-rosa!

Cheguei a Emerald Fennel através da adaptação, ainda por estrear, do meu livro preferido, Wuthering Heights. Nesse trailer vejo coisas visualmente interessantes, mas que não remetem, nem remotamente, para o livro, para o Yorkshire lúgubre e muito menos para a época em que se passa a história (séc. XVIII) ou em que viveram as Brontës (séc. XIX - a grande maioria das adaptações oscila por essas épocas). O filme parece uma fantasia estilo fanfiction/Cinquenta Sombras, vagamente inspirada no livro... Nem as idades dos actores batem certo. Recentemente vi Saltburn para ver o que a casa gasta e tirou-me TODA a vontade de ver Wuthering Heights no cinema. Primeiro pensava, enganada, que o título era uma metáfora a como "queimaduras de sal" ardem para caraças. Não, é o nome da propriedade onde se passa a história. E depois a história deixou-me a mesma sensação de vazio que os filmes dos cineastas anteriores, talvez com uma pequena excepção para Gerwig, que gosta de puxar uma lagriminha de vez em quando.

O que me irrita é que todos estes realizadores "vendem" emoções profundas, intensidade de cortar à faca, desejos proibidos, que depois resultam numa linha do coração plana ________

Não vou pagar para ver este novo Wuthering Heights, só vejo num sábado à tarde de ressaca, na TV. Os outros realizadores, vou evitá-los.

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