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11 março 2019

Portais Estrelares - Parte I

No seguimento da reposição de Stargate Atlantis, o SY FY está a repor desde o início a série Stargate SG-1. Na altura em que vi a série pela primeira vez, no AXN aos fins de semana, por razões várias não vi a série a eito, apesar de a querer ver, portanto agora estou a aproveitar a nova oportunidade.

Pensava que tinha visto episódios aleatórios de todas as temporadas menos as últimas, mas afinal tinha visto o primeirissimo episódio, mais um ou outro da primeira temporada, não vi nenhum da segunda, vi mais um ou outro da terceira e agora que cheguei à quarta percebi que foi a partir daqui que consegui acompanhar com alguma regularidade, lembrando-me de quase todos os episódios.

Stargate SG-1 foi uma série muito bem estruturada, que conseguiu suplantar o filme que lhe deu origem. Fora o facto de todo o extraterrestre falar inglês, no início não era tão flagrante, mas até isso foi bem feito ao ser gradual, ainda me faz alguma comichão. Nas suas primeiras temporadas, a série conseguiu não cair na rotina: equipa visita um novo planeta; equipa depara-se com um conflito no planeta, em geral provocado pelo seu grande inimigo, os Goa'uld; equipa resolve o problema, não sem algum tipo de perda; equipa volta à SGC (Stargate Command) relativamente ilesa. Esta fórmula, embora sempre presente, é intercalada com episódios divergentes a vários níveis, seja com saltos temporais, a problemática da implementação de novas tecnologias, relações diplomáticas com outros planetas, o conflito das boas intenções da SG-1 e do General Hammond contra a burocracia e os interesses menos éticos militares, espionagem industrial e até conflitos pessoais das personagens principais. Portanto não temos apenas uma narrativa aborrecida de um David (a SG-1) contra um Golias (os Goa'uld), o que explica facilmente a durabilidade da série.

O que gosto mais? O pseudo-ateísmo da série, onde a grande maioria dos deuses das culturas pagãs da Terra teriam sido invasores extraterrestres com intenções menos boas. Pena que, sendo americanos, não conseguiram confrontar a sua cultura judaico-cristã-presbitana e essa acaba por ser a única religião menos posta em causa por esse ateísmo, daí o "pseudo". Mais tarde virão os Ori, mas quando lá chegar hei-de pronunciar-me em relação ao modo como lidaram com a coisa. Lembro-me razoavelmente bem dessas temporadas, mas prefiro manifestar-me depois de ver tudo como deve ser, sem soluços.

Tenho de falar dos protagonistas, que não seguem os clássicos cânones maniqueístas de elencos de grupo à risca:
Coronel O'Neill de Richard Dean Anderson, é um militar algo insolente, bastante distante do rígido e traumatizado O'Neill de Kurt Russel, contorna frequentemente as regras em prol da equipa e dos amigos.
Daniel Jackson peca por Michael Shanks não ser tão bom actor como James Spader, portanto não sustenta tão bem a personagem, e rapidamente passou de um arqueólogo trapalhão a um homem de acção que até fica com o papel de pegar em armas, em detrimento da Major Carter, ela sim, militar.
Major Carter, militar disciplinada e cientista (essencialmente astrofísica), que começa um bocado deslumbrada, mas é quem resolve a grande maioria dos problemas com a sua inteligência.
Teal'C, o extraterrestre obrigatório, rebelde no seu povo, muitas vezes irritante, a força bruta, mas que tem um sentido de humor interessante.
General Hammond, o mentor e paizinho da equipa SG-1, um general bonzinho.
Acrescento o homem que provavelmente entrou em quase todos os episódios da série, sem dúvida em todas as temporadas e até nalguns episódios de Atlantis, o técnico do Stargate, que basicamente não é mais que um telefonista espacial, mas que parece o cãozinho do Dune, está sempre presente X'D

Voltando atrás, a boa estruturação da série, uma grande maioria de episódios bem escritos, o aliar de uma estrutura militar com equipas que são sobretudo de exploradores e por vezes diplomatas, e um elenco principal bastante carismático, fazem desta serie uma das melhores séries de ficção-cientifica que já vi, contextualizando os alienígenas no nosso mundo terrestre de uma forma bastante original e criativa. Eu sei, havia já muitas teorias da conspiração semelhantes antes da criação do filme, mas o modo como a coisa foi resolvida, no filme e depois esticada na série, é sem dúvida uma qualidade na escrita de argumento. Talvez a sua longevidade tenha sido demasiada, mas uma pessoa envolve-se com aquelas personagens e não quer deixar de conviver com elas.

Stargate Command

04 março 2019

To Boldly Go...


Com os banhos de Star Wars nos últimos anos, mesmo com 3 novos filmes nos cinemas, Star Trek tem andado um bocado esquecido. Por isso, sem grande razão aparente, o ciclo dedicado aos filmes pelo AXN Black no mês de Fevereiro foi muito bem-vindo.

Sou daquelas pessoas que não pertence a nenhuma das facções: Star Wars x Star Trek. A minha primeira série de ficção-científica, e ainda a minha preferida, é o Space: 1999! Vi Star Trek mais ou menos na mesma altura em que estreou Star Wars e o Mr. Spock foi e será sempre uma das minhas paixonites televisivas. Portanto aproveitei para ver os filmes de Star Trek que não tinha visto, pois eram realmente poucos: os 3 primeiros (noutra vida) e os 2 primeiros do reboot.

Fiquei um pouco chocada (já não me lembrava) com a fraquíssima qualidade do primeiro filme. Claramente tinha um bom orçamento, mas falhou nas coisas mais evidentes. Os establishing shots de 5 minutos sempre que aparece a Enterprise são chaaaatos! Pior, por serem tão longos, percebem-se todas as falhas, sendo a mais flagrante a diferença de escala entre o shuttle e a Enterprise, que me fez perguntar onde estavam os bons técnicos de efeitos com miniaturas da época. Provavelmente todos recrutados para outros projectos. A história é tão boa que já me esqueci e a maioria dos actores principais parece que também se tinham esquecido de encarnar as personagens. William Shatner, sim, falo de ti, mas não só. Mas, por mais fraquinho que seja o primeiro filme, nada bate o erro que é a personagem do Khan nos segundos filmes. Aqueles peitorais do Ricardo Montalbán fazem-me sempre pensar se não terá passado demasiado tempo na Fantasy Island e, por muito que goste de Benedict Cumberbatch e se tenham esforçado em fazer um upgrade à personagem, o Khan também no reboot foi um erro.

Dos três filmes novos, gostei muito do primeiro (que vi no cinema) e do terceiro. Aliás gostei muito da história do terceiro. Mas obviamente no geral é o melhor pacote dos 3 pacotes de Star Trek, 1, a equipa original; 2, The Next Generation, com uma participaçãozinha de Kirk e outra de Janeway e o reboot. As histórias são todas bastante sólidas, os filmes bem produzidos, as interpretações ágeis.

Dos outros filmes com a equipa original e depois The Next Generation, achei sempre as histórias boazinhas, mas muito datadas, um pouco melhores nos TNG, não me lembrava do Picard tão severo dos 2 primeiros filmes. Ah, os Borg são Cybermen que se enganaram na série! Bem que podiam ser um bocadinho mais originais... Mas uma coisa achei um exagero: se não me engano, de todos os 13 filmes, só num a Enterprise não é completamente destruída... Uma, duas, talvez três vezes ainda se aceita, mas quase sempre? Parece "Oh my God, I killed Kenny!", mas em vez disso seria: "Oh my God, I destroyed the Enterprise!" E ninguém da Starfleet manda a factura a Kirk, o responsável pela destruição em quase todos os casos?

O que era giro agora, era um desses canais de cabo passar todas as séries de Star Trek de fio a pavio, a começar do início e por ordem cronológica. Mas esperem um pouquinho, agora estou a rever Stargate SG-1 e com esperança de darem SG Universe, que nunca vi.

Star Trek Movies (Wikipedia)

25 fevereiro 2019

91 Oscars - Rosa ou Preto? Ou a Mistura?

Isto de ver a cerimónia dos Oscars sem ter visto nenhum dos filmes nomeados (era para ter visto The Favourite a semana passada, mas não calhou), tem as suas vantagens: a maior de todas é ver o jogo político por trás com maior distanciamento. Por outro lado, do modo como a cerimónia anda, torna-se quase completamente previsível.

A transmissão este ano passou para as mãos da FOX, versão penosamente comentada por pessoas da RFM - nem aguentei 5 minutos do Red Carpet - felizmente sem comentários na FOX MOVIES, mas com um som aos altos e baixos e cheio de batatas a fritar... Talvez devessem ter pago horas extra aos técnicos de emissão da FOX. Lá para meio alguém deve ter ido ao feicebuque, pois as batatas fritas ficaram prontas.

A cerimónia. Ficou-lhes bem começar com os Queen + Adam Lambert, quem não gosta de uma boa rapsódia dos Queen? Ainda por cima pelos próprios!

A ausência de apresentador não se sentiu muito, salvo algumas excepções, nos últimos anos também não têm sido memoráveis. Até acho que foi tudo mais flúido e gostei da aposta nos números musicais. Só foi pena as primeiras aprsentadoras, Tina Fey e Cia. terem prometido uma cerimónia mais divertida do que acabou por ser. Mas gostei da moça cujo nome não sei escrever, a oriental de fato rosa/lilás.

Ver filmes como Black Panther ou Roma a ganhar estatuetas, claramente porque são filmes, chamemos-lhes, "étnicos", é triste. Não que os filmes não as possam merecer, mas o politicamente correcto é tão mau como a supremacia branca e não vejo os filmes a ser avaliados pelo que são, como filmes, cinema, mas pelo que representam. Não é isto que é suposto estar a ser premiado, mas sim o valor cinematográfico das obras. Portanto em tudo quanto foi categoria onde pudessem ganhar a estatueta, ganharam. Mas para não parecer mal, dividiram o mal pelas aldeias e também deram alguns Oscars a Green Room, outro filme politicamente correcto, e a BlackkKlansman, porque pronto, negros e racismo. Mas gostava de ver BlackkKlansman na mesma. Como disse a Barbra: um detective negro infiltrado no KKK tem piada.

Gostei muito de ver entrar a sôdona Bette Midler no palco e a cantar. Tenho um certo carinho por ela. A reacção de Rupert Everett a Barbra Streisand e o elogio dela a BlackkKlansman foi excelente. A propósito: FINALMENTE o Spike Lee ganha um Oscar!!! Pode muito bem ter sido na onda do politicamente correcto que iria sempre premiar as minorias óbvias, mas o Spike Lee bem merece um Oscar. Já fazia falta.

Por isto:
a cerimónia já valeu a pena! We're not worthy!

Como puderam esquecer-se do Stanley Donen no in memoriam??!! Imperdoável! É verdade que foi na véspera, mas não podiam pagar umas horas extra ao montador? É o Stanley Donen do Singin' In the Rain, um dos filmes mais importantes da história do cinema! Já para não falar na sua restante filmografia.


OK, vamos ao que verdadeiramente interessa: os vestidos! Fiquei bastante desgostosa com a mode crise quatre vingt quatre, isto é, vestidos cor de rosa, cheios de folhos, Barbie anos 80, às paletes! O que passou pelas cabeças dos stylists este ano??!! O que safou a Red Carpet foram espantosamente os homens. Para além de uma profusão de smokings de veludo de várias cores (um dos meus tecidos preferidos), eis que surge esta maravilha, acima, também em veludo!!! Pontos para Christian Siriano, um dos vencedores de Project Runway, vestindo Billy Porter. Algures no século passado imaginei um visual parecido, mas como não arranjei a casaca aba-de-grilo, acabei por fazer a coisa a meia-haste. De resto, as excepções ao vomitado cor de rosa foram a J-Lo, genialmente vestida de bola de  espelhos, e pouco mais.

Não gostei da decoração de palco deste ano, quero brilho! Aquela coisa, que mais fazia lembrar o Mathmos, em So.Go, no Barbarella, era simplesmente feia.

Portanto, no meio de tanto cor-de-rosa, os Oscars tentaram ser negros e ficaram-se pelo meio: pelo castanho.

Oscar.com

24 fevereiro 2019

Cristina, não vais levar a mal...

... o amor por ti NÃO É FUNDAMENTAL!

Os Roquivários que me perdoem a apropriação, mas é só o que me vem à cabeça quando penso na Cristina TV, perdão, na SIC.

JÁ NÃO BASTA A PORCARIA DA CRISTINA AOS DIAS DE SEMANA, AINDA TEMOS DE A ATURAR AO DOMINGO? Bom, o "temos" é relativo, safa-me a rádio e as toneladas de coisas que tenho gravadas na box para ver. MAS, como se já não fosse triste a SIC não transmitir os Oscars este ano, por ter evidentemente gasto todo o orçamento na dita-cuja e nas novas instalações, os filmes de fim de semana à tarde repetidos ad eternum são prova disso, em dia de Oscars, nem um filmezinho oscarizado para amostra? No fim de semana passado passaram a xaropada do Titanic, não têm outras xaropadas oscarizadas no pacote de filmes?

Enfim, vou ver o último filme de Star Trek e costurar, que é o que faço enquanto alimento o vício. E hoje à noite há Oscars!!

SIC

22 fevereiro 2019

O Chef Punk

Este post era para ter sido escrito há anos, ainda no tempo em que o No Reservations dava na SIC-Radical (e que eu ainda via regularmente a SIC-Radical). Quando Anthony Bourdain tirou a própria vida, pensei em escrevê-lo, com muita pena da circunstância que me levaria a escrevê-lo. Como não queria que o post se transformasse num elogio fúnebre e por ter ficado bastante chocada com o suicídio, resolvi deixar este post para uma altura em que pudesse fazer justiça ao brilhantismo de Bourdain. Terminei agora de ver a derradeira série de Parts Unknown, chegou o momento.

Sou fã incondicional de Anthony Bourdain, apesar de por vezes a sua insolência e exagero em No Reservations me cansar, o resto compensava: os locais exóticos que de outra forma talvez nunca tivesse ouvido falar, de uma perspectiva sobre esses locais mais íntima, de não temer o diferente, o novo, de ser politicamente incorrecto e de chamar os bois pelos nomes. Bourdain deu voz aos inconformados, à rebeldia e a um modo de ver a vida sem filtros.

Apesar das diferenças, Parts Unknown desviou parte da atenção à comida para focar -se mais na cultura e na política dos locais visitados. Confesso que as duas séries se fundem um bocado na minha cabeça, dentro dos vários episódios que ficaram distintos na minha memória, há obviamente os portugueses (Lisboa, Açores e Porto), que pareceram-me incompletos, provavelmente pareceram sempre incompletos aos nativos do respectivo país - atribuo parte disso aos anfitriões escolhidos, que nem sempre estiveram à altura.
Entre os outros países há vários: no geral os norte-americanos aborreceram-me, pareciam-me sempre um monte de hillbillies a enfardar barbecue, mas há excepções. Os da Louisiana, foram sempre interessantes, sempre tive curiosidade pela cultura e pela comida cajun, deve ser deliciosa! Nova Iorque é interessante, mas demasiado hipster, apesar da sua notória aversão aos hipsters, "com os seus gorros de Estrumpfe" (sic) e o resto são hillbillies a enfardar barbecue, com uma ou outra curiosidade pelo meio.
Os da América Latina são sempre engraçados, especialmente marcantes foram os da "família", quando Bourdain vai em busca de antepassados e encontra o irmão, senão me engano no Uruguai, e o do Rio de Janeiro, com a então mulher e os praticantes de Jiu Jitsu.
Não tenho grande memória dos episódios africanos, expto o de Tânger, levado pela boémia europeia de outrora, e o de Moçambique, que revelou um país quase abandonado, mas culturalmente riquíssimo.
Na Ásia, provavelmente o continente preferido de Bourdain, os programas são sempre mágicos. Os do Vietname memoráveis, os do Japão um regalo, todos eles uma descoberta. Como ele diz no último episódio de Hong Kong, "apaixonei-me na Ásia e pela Ásia", isto leva-nos a Itália e aos melhores episódios de todos.
Entre os episódios europeus, os franceses e os espanhóis, em particular o do encerramento do El Bulli, foram excelentes, mas, como os de Nova Iorque, são aquele tipo de episódio "daquilo que não podemos ter", interessantes, educativos, mas distantes. Em lado nenhum Bourdain vibra como em Itália. De Norte a Sul, à mesa da nonna de serviço. Nunca esquecerei o momento em que ele mergulha nas pedras da costa amalfitana, apanha uns quantos ouriços do mar (iguaria predileta) e come-os ali mesmo, em frente ao restaurante do seu anfitrião. Depois há o episódio da Sicília, com Asia Argento. Só pouco depois de ver o episódio eu soube que se tornara namorada dele. Ambos visitam locais incríveis e vivem uma Itália riquíssima.
Deixei o campeão para o fim: Parts Unknown, temporada 1, episódio 1. Québec. Bourdain junta-se a dois chefs mais loucos que ele. Têm uma casinha de madeira sobre rodas para pescar no gelo, mas em vez de pescarem, apesar de às vezes o fazerem, levam um farnel dos pratos mais sofisticados que possamos imaginar, foie gras, caviar, champanhe, lagosta, etc., e servem-nos na diminuta casinha, com todos os requintes de malvadez: candelabros, toalha bordada, baixela de prata, serviço de porcelana, copos de cristal. Um deles diz que come assim em casa, sempre, e "obriga" os filhos pequenos a consumir as refeições assim. Genial!

Chego assim à derradeia temporada. Não consegui vê-la sem uma sensação testamentária, até porque, fora Itália, França e Espanha, Bourdain faz uma espécie de síntese do que foram todos os seus programas e séries. Os meus preferidos? Berlim, Louisiana e Butão. Berlim conheço, gosto e foi um episódio que só podia ser feito por ele. A comida no Louisiana deve ser muito boa e é um local fascinante. O Butão deve ser dos países mais únicos no mundo e a visita de Bourdain, acompanhado por Darren Arronovsky, uma aventura no mínimo insólita. O Bourdain público termina com uma oração. Foi bonito.

Anthony Bourdain faz falta, como todos os irreverentes sem papas na língua da história, faz muita falta. Resta-nos ficar com os programas, os livros e as memórias.

ADENDA:
Afinal a totó que eu sou por não fazer o TPC, acabou por achar que tinha visto a última temporada de Parts Unknown, só porque deu depois da morte de Bourdain. Ainda havia a derradeira temporada. Mantenho o que disse acima, afinal foi com esse sentimento que vi essa temporada, esta última foi demasiado curta, demasiado curta... Mas a CNN trabalhou bem, exibiu os episódios como deveria ser até onde pode, sendo um deles já narrado por outra pessoa, e os dois últimos foram uma montagem de testemunhos da equipa que trabalhou com ele, o último com jornalistas que estavam de algum modo ligados a Bourdain e ao programa. Dois deles eram o casal do programa do Irão, que aliás foi memorável.

Termino com as últimas palavras de Anthony Bourdain em Parts Unknown:
"Anthony Bourdain, CNN, eat more SPAM."

Anthony Bourdain (Wikipedia)
No Reservations
Parts Unknown

05 janeiro 2019

Anjos

 
Comecei o meu ano televisivo com o filme Himmel Über Berlin (Asas do Desejo), obrigada RTP2!

Vi o filme pela primeira vez, com 17-18 anos, provavelmente no Quarteto, ou talvez no Londres ou Fórum Picoas, pois eram os únicos cinemas da época em Lisboa que passavam filmes de autor. Desde então revi o filme diversas vezes, muitas na televisão, algumas no cinema, mas há muito que não o revia. Estava curiosa para ver se a minha experiência de ver o filme tinha mudado: não mudou.

A sensação maravilhosa, de um misto de melancolia mas que deixa um calorzinho por dentro, continua a mesma! Naturalmente apercebi-me de mais alguns detalhes que não tinha percebido antes, é esse um dos prazeres de rever filmes sublimes. O prazer de perceber alemão, francês e japonês, retiram as limitações de depender da legendagem e da eventual má tradução, de apanhar o texto no momento certo, sem ter de tirar os olhos da imagem. Mas a cena que revi com outros olhos é a cena do reencontro, no concerto do Nick Cave, onde tudo se encaixa maravilhosamente. O vestido vermelho de Marion, a camisa vermelha de Nick Cave, que habitualmente é branca ou em cores neutras, a canção The Carny, a coreografia da câmara no espaço do concerto (aliás lindo, como todos os décors do filme), o vermelho também no casaco colorido de Damiel e, por fim, o reencontro de almas ao som de From Here to Eternity. Perfeito!

Tinha medo de achar que tinha visto o filme com o deslumbre da adolescência e que essa memória me tinha ficado marcada. Mas não, Himmer Über Berlin é um filme sublime, lindo, meticulosamente bem feito, emocionante e não envelheceu. Aquela Berlim dos anos 80, que eu conheci, está lá, congelada, provavelmente numa das melhores representações que teve no cinema.

Himmel Über Berlin

23 novembro 2018

55!


Hoje Doctor Who faz 55 anos! Cinquenta e cinco! É extraordinário como uma série, ainda por cima de ficção-científica - um género considerado menor - ainda existe, ainda é produzida, ainda está no ar. O segredo é fácil: uma permissa muito simples e sólida, suficientemente versátil para ter sobrevivido às mudanças sociais e de gosto.

Aproveito o aniversário para falar da mais recente mudança, A 13ª Doctor.
Sou daquelas que adorou Peter Capaldi no papel de Doctor, mas como, apesar de o considerar bom argumentista, detestei o que Stephen Moffat fez com a série, distorcendo, contornando ou ignorando as regras cânones antes estabelecidas, não se preocupando com a coerência, criando intrigas cansativas de tão rebuscadas e mais buracos de argumento que um queijo suíço ou introduzindo demasiada ficção pouco científica. Por isso, as duas temporadas de Capaldi infelizmente foram fracas e inconsistentes, desperdiçando o potencial gigante trazido por Capaldi.

O anúncio de Jodie Whittaker para a 13ª Doctor gerou um tsunami de polémica que atingiu mais a costa norte-americana que outro lado qualquer. Para mim, o que importa é o actor/actriz ter um bom desempenho num papel que exige bastante ginástica e versatilidade. O género não importa. Como não tinha visto a Jodie em nada antes, não sabia como ela seria como actriz, mas em geral as diversas equipas de Doctor Who nunca escolheram maus actores, nem para os companions ou participações especiais, portanto não estava preocupada.

Mas... sim, mas, detestei o figurino! Não queria que a Doctor andasse vestida de alta-costura, ou tivesse um traje fashion, percebo e aceito lindamente a opção das calças, do casaco com capuz, as botas, etc. aliás, individualmente gosto de todas as peças, só não gosto do conjunto. É muito matchy-matchy, os arco-íris parecem forçados e no geral parece que a Doctor foi ao caixote dos donativos do guarda-roupa da TARDIS, às escuras e vendada! Isso achava eu há cerca de um ano, mal sabia que no primeiríssimo episódio a Doctor escolhe o figurino de um modo não muito diferente do imaginado por mim. Pelo menos a intenção da figurinista passou!

Isso leva-me à série propriamente dita: estou a adorar! As narrativas passaram a ser mais simples e directas, menos fantasiosas, uma ficção-científica mais terra a terra, mais ao meu gosto pessoal. A grande surpresa para mim é estar a ser bastante política e isso justifica de forma torta os arco-íris. De modo mais ou menos evidente, cada episódio tem abordado um assunto político, de guerras fronteiriças à religião e ao racismo. Por princípio, gostaria que a abordagem a assuntos políticos numa série como Doctor Who fosse mais subtil, mas estou a gostar da abordagem e da forma sensata como estão a ser integrados em narrativas, que nunca deixam de ser ficção-científica ou fogem aos cânones de Doctor Who. Também estou agostar do trio de companions, mas eu gosto sempre dos companions - só não gostei da Martha - equilibram-se uns aos outros, atenuam um pouco o eventual choque que a Doctor provoca e são os três muito divertidos. Ah sim, Jodie e Chris Chibnall (o argumentista-chefe) estão a fazer um excelente trabalho e espero que dure mais que duas temporadas!

"Think so, probably, don't know" 

Doctor Who

19 novembro 2018

Piqueniques 'Down Under'

Vi o filme Picnic at Hanging Rock quando era miúda, pré-adolescente, talvez, e fiquei fascinada. Já nessa altura gostava muito de mistério e suspanse, mas naturalmente faltava-me a maturidade para compreender o subtexto desta história. Revi-o e continuou a ser um filme marcante para mim, mas não é somente a narrativa que me continua a atrair, mas a realização e um belíssimo uso da mise-en-scène, da banda sonora e da montagem. Não revejo o filme há alguns anos, mas com certeza que essas primeiras impressões se repetirão, pois são elas, aliadas à narrativa acerca do preconceito, dos efeitos de uma sociedade repressiva e a falha de adaptação dos colonizadores às culturas nativas que dão ao filme um magnetismo impressionante.

Quando soube da série (através do Frock Flicks) e depois quando soube que iria passar na RTP2, e ainda por cima de uma assentada, fiquei entusiasmada. Não li o livro que deu origem a ambos, mas calculei que a adaptação para série incluísse mais detalhes, eventualmente desvendasse um pouco mais do mistério. Se não tivesse visto o filme, provavelmente teria adorado a série, gostei bastante e até consegui abstrair-me da Natalie "beicinho" Dorman, que me irrita um bocado, mas tendo visto o filme mais que uma vez em fases diferentes da vida, não consigo achar a série muito mais que uma versão colorida da mesma história. Não porque o filme seja a preto e branco, mas porque tem uma estética muito branca, no guarda-roupa das raparigas, na fotografia sobrexposta, que nos fazem pensar no calor abrasador da Austrália e da probabilidade de tudo não passar de um delírio. Numa fase mais analítica, gostaria de saber exactamente o que se passou, mas nesta altura da vida, prefiro que o mistério fique na sugestão, em aberto e que cada um tire de lá o que le pareecer mais interessante.

A série Picnic at Hanging Rock satisfez esse meu lado coca-bichinhos de querer destrinçar o mistério, mas como produto narrativo-fílmico, seguiu o mesmo estilo de contar a história do filme, tirando-lhe a fotografia sobrexposta, o branco encadeante e a sugestão ao desatar os nós quase todos, não o faz de uma forma linear (felizmente!), por isso não é uma má série, mas a informação extra afnal não fazia falta e continuo a preferir o filme na sua forma "incompleta".

Picnic at Hanging Rock (série)
Picnic at Hanging Rock (filme)

07 julho 2018

Alta Costura Mas Não Tanto

Ontem aproveitei a sessão de cinema ao ar livre do Cine Conchas e fui ver o Phantom Thread. Ainda bem que não paguei para ver, não vale o meu dinheirinho suado.

Deixa-me um tanto confusa como este filme teve sucesso e até foi nomeado para Oscars (ganhou o de Melhor Guarda-Roupa?), aliás mal posso crer que tenha sido escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson.
Trata-se de duas personagens desagradáveis, Reynolds Woodcock (Daniel Day Lewis) e Alma (Vicky Krieps), extremamente narcisistas e co-dependentes, que geram zero empatia no espectador. Para cúmulo passa-se no universo da Alta-Costura, universo pouco familiar ao comum mortal. A personagem secundária, Cyril (Lesley Manville), a irmã pragmática de Reynolds, foi a única que me gerou algum tipo de empatia.

Intriga-me os actores parecerem-me muitas vezes forçados, é verdade que trata-se de um ambiente extremamente controlado, cheio de regras e maneirismos, mas mesmo assim, ambos os protagonistas me parceram forçados, tanto nas cenas mais contidas e cheias de etiqueta, como nas cenas mais espontâneas. Daniel Day Lewis prova que é um grande actor nas cenas em que cumpre sozinho os rituais da sua personagem, Vicky Krieps é fotogénica, mas não me convenceu como actriz. Talvez não houvesse empatia entre os actores, não sei, o que acho é que não funcionou.

Gostei de toda a apresentação meticulosa dos rituais da casa, Reynolds a preparar-se, a entrada das funcionárias pela porta das traseiras, a abertura dos salões, o vestir das batas-uniformes, os acessórios, os detalhes, mas depois, para um costureiro tão meticuloso, os vestidos não correspondiam. Para além de não serem particularmente interessantes para a época, anos 50, estavam tão mal cortados! É ver o bico do peito do primeiro vestido feito para Alma, que lhe assenta uns 3cm acima de onde deviam estar. A quantidade de arrepanhados e rugas onde não deviam existir é alarmante! Os anos 50, sobretudo na alta-costura, foram uma década onde os vestidos eram extremamente estruturados, quase uma armadura em tecido no abdómen e peito, onde seria imperdoável assentarem tão mal como assentam no filme. Será que não houve tempo para fazer provas na actriz principal? É a única explicação.

Por fim há a "linha fantasma" do título. Pelo trailer e por tudo o que li e ouvi acerca do filme, supunha que esse traço obsessivo de Reynolds fosse mais presente, mas insistente e por isso mais sinistro e talvez assustador. Mas não, é mostrado umas 3-4 vezes ao longo do filme e de forma bastante discreta, de forma que nem se percebe porque lá está.

Para um filme sobre alta-costura, os vestidos parecem feitos por amadores, para um film sobre gente meticulosa e obsessiva, isso fica estabelecido nos primeiros minutos e a questão das frases bordadas perde-se por ser pouco frisada. Por fim a caracterização das personagens e o desempenho não me convencram, o que torna este num filme bonitinho, com uma realização tecnicamente boa, uma montagem que cumpre, mas que não traz nada de surpreendente, nem na narrativa nem a nível cinéfilo. Parece um desperdício de recursos.

Phantom Thread

15 maio 2018

Um Roubo, um Assassínio e Muitas Falcatruas

Antes que termine, tenho de falar em Pega Pega, provavelmente a novela da Globo com a melhor intriga dos últimos tempos.

À medida que os valores de produção têm melhorado, que claramente mais dinheiro é investido nas telenovelas, a criação de séries de luxo e o aumento de novelas de época, a qualidade dos enredos tem diminuído proporcionalmente. As narrativas são mais do mesmo, inclusive tenho reparado em histórias repetidas, somente com cenários diferentes, ou histórias mal alinhavadas, que apenas se sustentam com uma boa produção e um bom elenco. Apenas as comédias se vão safando, mais pelo entretenimento que proporcionam e um ou outro bons desempenhos, que outra coisa.

*** ESTE POST CONTÉM SPOILERS ***

Pega Pega começa por destacar-se no genérico, ao som de A Hard Day's Night, dos Beatles (interpretado pelos Skunk), numa animação engraçada, algures entre os Monty Python e Wes Anderson, que nos dá o tom. Tudo começa com uma golpada engendrada por bandidos estreantes, os funcionários de um hotel de luxo, que roubam o dinheiro da venda do mesmo. Esse roubo acaba por trazer à tona uma teia de crimes do passado, que acabam por ligar todas as personagens da novela, divididas em três núcleos: o Carioca Palace, a Tijuca e a Esquadra de Polícia.
A maneira gradual como os 4 bandidos vão sendo descobertos, desenrolando cada um, um pedaço dessa teia. Um assassinio, um outro assalto, um rapto, corrupção e uma barriga de aluguer. Tudo temperado com as doses certas de drama, romance e comédia, aliados a um bom e equilibrado elenco, tornam cada episódio cativante, sem tempos mortos nem chouriços a encher.

Só espero que este núcleo de produção, incluído o elenco onde estão alguns favoritos meus: Elizabeth Savalla, Mateus Solano, continue a produzir pérolas destas e que não sejam ofuscados pelas imitações foleiras de Game of Thrones, com actores portugueses a fazer um mau sotaque brasileiro.

PS - Cheias de Charme voltou a ser exibida na Globo, Vida de Empreguete em repeat novamente :D

Pega Pega

14 maio 2018

Canções no Gelo

Ui, já não via com alguma regularidade campeonatos de Patinagem Artística há tanto tempo! Tanto que entretanto as regras mudaram imenso, mas a que estranho mais é a possibilidade de usar canções com voz, as quais antes só eram permitidas nas galas de encerramento.

Calhou este ano eu saber dos Jogos Olímpicos de Inverno a tempo e horas e, com a ajuda da box, conseguir ver quase tudo da Patinagem e mais um cheirinho de outras modalidades. Quase tudo pois, para além de o Eurosport 1 já não transmitir tudo do princípio ao fim, ainda por cima há erros na grelha fornecida às operadoras e por vezes em vez de patinagem apanhei com biatlo ou slalom. Não me queixo, até gosto de ver, mas quero poder ver tudinho, de ponta a ponta, da Patinagem! Também não andam a transmitir as entregas de medalhas, só espero que transmitam a cerimónia de encerramento da Patinagem, costuma ser um ponto alto na modalidade.

A cerimónia de abertura apesar de curta foi impressionante com as coreografias de drones e gostei dos figurinos, quais flocos de neve, das porta-estandarte.

Além de se poder usar agora canções (muito Coldplay e musica pop óbvia :P ), há também uma nova categoria na patinagem, a competição por equipas e a pontuação é dada de forma diferente. Mas as técnicas ainda permanecem as mesmas e ainda competem alguns atletas que me são familiares. Outros, os da velha guarda, ou tornaram-se treinadores/coreógrafos, ou vejo-os na assistência. (Olá Katarina Witt!). Eu já sabia destas mudanças, que já se deram pelo menos antes dos Jogos em Sochi (2014), mas esta é a primeira vez que acompanho as competições da modalidade como deve ser desde a mudança.

Quanto à competição em si, é giro ver como as tendências estéticas mudaram, agora a elegância e fluidez são muito favorecidas, enquanto que nos anos 90 era a técnica pura e dura que dava medalhas. Se a nota técnica fosse boa, a artística podia ser má, mas não tirava a medalha, já que ter uma nota artística muito boa não era para todos. Continua a não ser para todos, mas nota-se um esforço maior para além de fazer a cruzinha na caixinha das diversas técnicas, os pontos artísticos, mais subjectivos, agora adicionam a essa nota mais contabilizável, em vez de fazerem parte de uma média. Parece mais justo também e obriga ao tal esforço adicional para ser mais bonitinho. Pelo que percebi, os fatos já não contam para a pontuação, o que a meu ver também é mais justo, não se trata de uma passagem de modelos.

Mas já que falo em fatos, com pontuação ou não, são uma parte importante nos campeonatos de Patinagem e vejo também uma sofisticação que é novidade para mim. OK, ainda há bling de obrigar ao uso de óculos escuros (como se o gelo não fosse branco o suficiente), mas já não é lamber o fato de cola e rebolar o/a patinador(a) numa banheira de lantejoulas e cristais, qual croquete cintilante. Os fatos dos homens andam particularmente interessantes em termos de design, com alguns exemplos bem bonitos. Os das mulheres são mais inconsistentes, variando entre os trapinhos de chiffon pendurados e os fatos com transformações. No meio disto tudo, muitas vezes pergunto-me como certos fatos foram feitos, alta tecnologia!

Mas tenho saudades, imensas saudades dos comentadores ingleses do Eurosport! A minha box oferece a possibilidade de mudar a língua entre o português e o inglês, não fosse o inglês falar espanhol! Por acaso na Patinagem o inglês fala inglês, mas só percebi isso a meio, "absolutely fantastic!", e foi decepcionante perceber que as comentadoras portuguesas ainda são as mesmas que há mais de uma década, no tempo em que o Eurosport era sempre em inglês, quase se pegaram num campeonato de patinagem na RTP2. Tenho de me conformar, mas antes gostaria que, entre outras alarvidades, deixassem de dizer "há (xxx) anos atrás". Minhas senhoras, ou será melhor "damas" (sic), o "há" já estabelece o tempo na frase em português, o "atrás" não está lá a fazer nada!

Houve transmissão da cerimónia de encerramento da Patinagem, mas não a mostraram completa, e a Cerimónia de Encerramento propriamente dita foi igualmente bonita, cheia de videomapping e tal, mas desta vez sem drones, estava demasiado vento.

PyeongChang 2018 Olympics

22 março 2018

Plástico Nacional

É impressionante como os anúncios da Domplex pouco ou nada mudaram em 30 anos! Completamente adequados à RTP Memória! X'D

05 março 2018

90 Oscars - A Vergonha das TVs Nacionais

Por mais que a Giuliana Rancic, do E!, seja detestável, por mais que tenham sido irritantes os comentários ou locuções parvas por cima dos discursos originais, ao longo dos anos na TVI ou RTP1, por mais que fosse exasperante só ter acesso durante anos a versões Readers Digest, na RTP1, nunca, NUNCA as TVs nacionais desceram tão baixo como a vergonhosa parada de monstros que a SIC e a NOS encenaram este ano! Que raio de fantochada foi aquela? Auto promoção descarada, convidados "VIP" que pouco ou nada têm a ver com os Oscars, menos ainda com cinema, até convidados que "não tinham visto nenhum filme nomeado" e o declaram com toda a lata em directo para o país tinham! Para além de me deixar furiosa e extremamente chocada, só me apetecia enfiar a cabeça num buraco! QUE VERGONHA!

Como se não bastasse, o segmento seguinte, supostamente a Passadeira Vermelha, foi completamente boicotada por três comentadores em estúdio, mal moderados por José Carlos Meleira, jornalista e pivô que eu tinha bastante em conta até ontem à noite, estava mal preparado, disseram um monte de trivialidades e passadeira vermelha? Mostraram 3 ou 4 convidados e mesmo assim conseguiram falar por cima deles. Os convidados em estúdio até eram bastante decentes, João Lopes, crítico de cinema dos bons, de quem gosto muito e sei que é um fã sério de cinema, para além de não costumar dizer disparates, o ex-director de moda da VOGUE Portugal, cargo que JCM anunciou mal e não corrigiu, falou pouco, mas não falou mal, sobretudo dos vestidos, mas em termos gerais e Joana (?), jovem actriz da SIC, também não esteve muito mal no pouco que disse. O grande problema deste segmento é que para além de ninguém dizer nada de substancial, de JCM não deixar ninguém desenvolver, ainda teve o desplante de dizer: "estamos aqui a ver a passadeira vermelha", mas a nós, espectadores, que estávamos lá para isso, NÃO MOSTRARAM NADA!

Rita Moreno: 2018 - 1962

Felizmente há outras maneiras de ver a passadeira vermelha online e digo já que o melhor momento de moda foi a reciclagem do vestido de 1962, que levara aos Oscars, de Rita Moreno, cujasaia foi feita a partirdeum obi brocado, e ainda por cima ficou-lhe super bem em ambas as vezes! De resto, gostei do vestido espampanante de Whoopi Goldberg e gostei imenso do fato de calças de Emma Stone. Nos homens nada de muito marcante, as mulheres não mostraram nenhuma tendência, excepto talvez mais mangas que o habitual.

A cerimónia felizmente correu sem comentários nenhuns no canal 700 da NOS, fora os loops irritantes nos intervalos, foi óptimo, nem com publicidade apanhámos. Aparentemente os comentadores punham-se a opinar por cima dos discursos na SIC, mas não vi, já tinha tido uma overdose de estupidez.
Em si, gostei do cenário, cada vez com mais bling, mas sempre num estilo Art Déco, que só lhes fica bem, adorei os momentos "parvos", Helen Mirren, qual Preço Certo, a fazer festinhas ao JetSki, prémio para o discurso mais curto, e a ida ao cinema o outro lado da rua, surpreender os espectadores. Foi giro, não foi brilhante. Não acho grande piada ao Jimmy Kimmel. De resto, os prémios foram completamnte previsíveis, Frances McDormand e Gary Oldman pareceram aqueles Oscars de carreira, pois já tardavam, e não especificamente por causa dos filmes, se bem que merecidos e, não achando que Guillermo Del Toro estivesse no seu melhor em The Shape of Water, foi com um certo regozijo que vi um filme de ficção-científica/fantasia ganhar o melhor filme do ano. Será que a Academia está mesmo a mudar? E bom, arriscaram a reprise de Warren Beatty e Faye Dunaway no anúncio final e desta vez sem enganos embaraçosos.

Oscars.com


PS - tenho já um post alinhavado acerca dos Jogos Olímpicos de Inverno, mas ainda não terminei de ver tudo o que tenho gravado, publico logo que tenha visto.

29 janeiro 2018

Ficção-Científica Barroca

Mas não, não é o Flash Gordon, nem o Dune. É o Jupiter Ascending. Primeiro façamos uma pausa para apreciar como o título Jupiter Ascending é bom: tem pelo menos 2 interpretações imediatas: Júpiter em ascenção (astrologia), ascender a Júpiter e uma terceira interpretação após ver o filme: Júpiter a ascender; é fácil de traduzir sem perder os vários significados e é intrigante q.b.

Confesso que quando Jupiter Ascending estreou, não lhe dei muita importância, nem sequer percebi que é das Wachovski, mas passou este fim de semana no AXN, pelo que aproveitei a oportunidade para ver.

Trata-se de um filme bastante engraçado e mais inesperado do que pensava. Só achei uma coisa deveras irritante: a banda-sonora. Para além de a música não ser nada de especial, nem particularmente bonita, nem particularmente marcante, não há um miserável momento de silêncio no filme inteiro! Em cima disso, alguns dos efeitos sonoros, são muito irritantes e estão demasiado em primeiro plano, para não falar num clássico dos dias de hoje: os diálogos muito baixos em relação às cenas de acção, o que faz com que, em casa, tenhamos de estar constantemente a ajustar o volume. Creio que é suposto haver um certo equilíbrio, a não ser que haja alguma justificação estética ou narrativa. Neste caso, como em muitos outros, não se justifica e torna-se demasiado invasivo na experiência de ver o filme.

Mas vamos às coisas boas: gostei muito da história, tem algumas parecenças com o Flash Gordon, pessoa da Terra levada para um universo futurista barroco, com uma intriga política e de poder em curso, seres com asas, híbridos humanos com outros animais reconhecivelmente da Terra. O paralelismo que estabeleci com o Flash Gordon não é inocente, provavelmente se fizessem hoje um remake [vá-de retro, em equipa ganha não se mexe!] e se quisesse optar por uma estética igualmente barroca, provavelmente não seria muito diferente deste filme. Também noto algumas parecenças vagas com o Dune, nas lutas pelo poder e controlo de planetas inteiros.
Gostei como a narrativa toma um curso um pouco de conto de fadas de cabeça para baixo, lembra-me o Stardust nalguns aspectos. A ideia, já presente em The Matrix, de estarmos a ser manipulados por seres algures fora do nosso universo conhecido, não é original, mas é uma temática popular na literatura de ficção-científica, que é das minhas preferidas junto com as viagens no tempo, e é pouco usada em cinema. Obrigada manos/as Wachovski!
Também gosto, e gostei neste filme, da Mila Kunis, foi bem escolhida para este papel,tanto pela figura física, como pelo seu estilo de interpretação, mesmo sendo desejável que fosse um pouco mais que uma princesa em perigo, apesar do twist de uma mulher-a-dias ser a dona da Terra :D

Visualmente gosto de terem optado por um lado mais barroco, mas acho que, mesmo dentro do barroco, não simplificaram e há demasiada informação visual que não está lá a fazer nada. Mas neste caso é mesmo uma questão de gosto pessoal, e dentro do que se faz hoje, apesar de tudo, gosto do que vi, especialmente de alguns figurinos.

Jupiter Ascending passou um bocado despercebido e é pena, não é um filme brilhante, mas é bastante acima da média do que se vê por aí de filmes de acção/efeitos especiais e é muito bom de se ver.

Jupiter Ascending (imdb)

13 janeiro 2018

Portugal de Fachada

Oh, sim, está na hora de cascar!

Por acompanhar outras novelas no canal Globo, tenho apanhado uns rabinhos da novela Tempo de Amar e ando chocada com diversos aspectos desta novela.

Ando chocada, pois a novela passa-se 50 a 60% em Portugal algures nos anos 20-30 e:
- não tem um único actor português para amostra, nem o canastrão do Ricardo Pereira;
- já nem sequer ninguém faz o mínimo esforço de falar com uma pronúncia aportuguesada, nem de usar expressões idiomáticas típicas de cá, naquele registo irritante, cheio de chavões, mesmo que
- os regionalismos, sejam de cenários, nomes ou outros não fossem respeitados, não o são;
- existe um convento claramente nortenho, em pedra escura, com ar de granito, acho que até a vila/aldeia principal é perto do Porto, portanto provavelmente no Douro, contudo alguns nomes e os poucos regionalismos são mais característicos do Sul;
- até perdoaria o clássico preconceito de um estrangeiro a retratar outro país generalizando sem grande preocupação de fazer pesquisa, mas depois continuam a achar que os portugueses se tratam todos por "tu", independentemente da idade ou classe social;
- a vida quotidiana, em tempos árduos num Portugal muito conservador, é excessivamente romantizada onde seria bem mais interessante ampliar o drama da vida dura vigente, face à guerra iminente e a uma mentalidade cinzenta;
- o figurino das portuguesas é demasiado descascado para a nossa mentalidade fechada, quase nenhuma usa chapéu ou algo na cabeça, numa época onde ninguém saía de casa de cabeça descoberta;
- há uma estranha ausência de portugueses bigodudos na melhor oportunidade que tiveram de os ter sem se tornar num cliché cansado;
- foram buscar o Salvador Sobral, claramente uma manobra de mediatismo, pelo menos é português, mesmo que o estilo da canção não encaixe na época da novela, encaixa no lado romântico.

Enfim, o que ameniza isto tudo é que pelo que percebo pela narrativa, o Brasil também está retratado através desse filtro rosa-sépia e muitas das situações que já pude observar são descabidas e de um romantismo lamechas.

Mesmo assim acho vergonhoso terem a lata de passar esta novela em Portugal, só espero que tenham valores baixos de audiência... por cá.

Tempo de Amar

04 janeiro 2018

Do Politicamente Incorrecto


Comecei o ano a fazer uma mini-maratona de Little Britain enquanto ainda tinha o serviço NOS Play gratuito [acabou hoje - só vi 4 episódios de The Handmaids Tale :'( ]. Quando a série deu na RTP2 cheguei a ver alguns episódios e adorei, mas naquela altura tinha alguma dificuldade em lembrar-me do horário, acho que foi quando a Britcom passou de sábado para domingo, e acabei por não a ver com a fidelidade que gostaria. Infelizmente só consegui ver a 1ª série e metade da 2ª - estava a saber tão bem! - mas agora só quando a NOS der outra abébia destas, ou na candonga - o mais provável...

Enfim, que limpeza de cérebro, até o sinto a cintilar! Actualmente uma série destas geraria TANTOS problemas! Mesmo no Reino Unido!! Nudez frontal, preconceito, rudeza, insolência, racismo descarado, acho que a lista completa do politicamente incorrecto aplica-se! Mas tudo com aquela fleuma inglesa do: "insultas-me de alto abaixo, mas fá-lo tão bem que quero mais, mais!" Quando vi a série a primeira vez, quem me chamou mais a atenção da dulpa foi Matt Lucas, com aquela figura peculiar, principalmente na personagem the-only-gay-in-the-village Daffyd. Mas agora por quem me apaixonei foi por David Walliams, no seu escocês ("iyeeeeesss?"), nos seus travestis ("I am a lady, I do as a lady"), no Sebastian bichona, e todos os outros! É impressionante como ambos se transformam fisicamente, como ambos dão uma variedade tão grande de personagens e, principalmente, mulheres, como conseguem ser hilariantemente imbecis e iconclastas, como em cada episódio dei pelo menos uma bela e sonante gargalhada! Depois temos os convidados especiais, a narração brilhante a rebentar a 4ª parede de Tom Baker (sim, o 4º Doctor), o Ministro de Anthony Head, sim, "the bloke from Buffy", e como toda aquela insolência é tão divertida!

Tenho de deixar aqui a minha admiração embevecida pela qualidade impressionante das inúmeras perucas usadas pela dupla e também pelo guarda-roupa magnificamente pensado ao último detalhe!

Ver esta série com os olhos de hoje mostra como o mundo perdeu o sentido de humor e anda a levar-se demasiado a sério. Houve aqui um tipo qualquer de regressão, apetece dizer: "GROW UP!"

FELIZ 2018!!

28 dezembro 2017

Vermelho Sanguíneo

O desapontamento de 1 de Outubro de 1999 com The Phantom Menace teve um efeito positivo para mim, deu-me o distanciamento para  poder ver os novos filmes de Star Wars com o coração de fã, mas os olhos críticos de cinéfila. The Last Jedi reforça esse distanciamento e faz-me ver estes novos filmes disneificados de Star Wars como uma espécie de fanfiction com qualidade de Star Wars (The Force Awakens e The Last Jedi) que nem precisam de grande contextualização no universo Star Wars e, nos dias de hoje, com tudo o que se tem passado nos bastidores empresariais, considero isso uma qualidade. Há uns miminhos para os fãs da antiga, nas presenças dos "velhos amigos de então", na Millenium Falcon e no fangirling de Kylo Ren ao avô, Darth Vader, mas estes filmes destacam-se do resto e é assim que escolhi vê-los, para poder disfrutar dos mesmos sem os olhos toldados pelo purismo e preconceito de um fã.

** CUIDADO, SPOILERS! ** 

 
A primeira coisa que me chamou a atenção, logo nos trailers, em The Last Jedi foi o minimalismo estético no uso de uma paleta muito reduzida de cores (preto, branco e vermelho sanguíneo), opção nunca tomada nos filmes anteriores, com uma estética mais naturalista, mesmo que com um grande enfoque no preto e no branco. Em ambas as primeiras trilogias notava-se que havia várias mãos a criar o universo visual, mesmo que com coesão, a tendência era mostrar uma diversidade naturalista acima de tudo, principalmente nos episódios I, II e III, o que resulta nalguma salganhada visual no todo dos filmes. The Last Jedi faz o oposto, praticamente não existem mais que aquelas três cores (preto e branco não são cor, mas por uma questão prática chamo-lhes assim neste post), excepto talvez em Skellig Michael (não me lembro do nome da ilha na ficção) e no cabelo lilás de Laura Dern (Holdo). O resultado é uma sala do trono de Snoak, deslumbrante, com o vermelho polido e no planeta  Crait, com uma superfície branca de sal com rochas escarpadas pretas, que escondem um solo de cristais do mesmo vermelho sanguíneo, com um efeito ultra dramático e espantoso!
O curioso é que já tinha havido uma tentativa ténue desse formalismo em The Force Awakens, mas dessa vez com preto, branco e laranja, aliás uma das cores mais presentes em toda a saga. Mas o laranja não é dramático, principalmente nada dramático por comparação com aquele tom específico de vermelho e o tratamento polido, como do preto e do branco, a que foi sujeito. Na trilogia original as cores foram usadas de forma mais básica, branco para a luz, preto para o lado negro, na evolução de Luke, branco-cinzento-preto, e o pontuar de vermelho nos sabres dos Sith e nos Guardas Imperiais.

Mas não é apenas de forma visual que o filme é diferente, para além de John Williams ainda estar em grande forma, "aquele" minuto de silêncio durante a destruição da fortaleza da First Order, é puro génio e muito ousado para um blockbuster, especialmente se pensarmos que agora é Disney. O público da pipoca tem tendência a não aceitar estas opções, o silêncio, numa cena tão forte como essa é muito mais dramático que qualquer música. Quem faz opções destas conhece o material com que trabalha, sabe usar a linguagem cinematofgráfica. Aliás, durante The Last Jedi temos vários exemplos de uma boa realização, Rian Johnson é um nome a fixar, gostei muito do seu desempenho como realizador neste filme.

O argumento, tendo a difícil tarefa de ser o "filho do meio", também é bastante superior a The Force Awakens e surpreende na quase total ausência de previsibilidade. Este é um filme difícil de fazer spoilers. Aliás, a direcção que estes filmes tomaram, com a ausência de um verdadeiro vilão, com heróis cheios de defeitos e não tendo um único fio condutor, é sem dúvida arriscada, desviando do modelo clássico da "Jornada do Herói", de Joseph Campbell.

Mas nem tudo é fantástico neste filme, as personagens goody-two-shoes de Finn e Rose não fazem lá falta nenhuma, a informação que Finn fornece é mínima e podia vir de outra fonte qualquer, para além disso são ambos irritantes até dizer chega. Confesso que quando Finn se lançou contra o canhão, quis que morresse, e quando Rose se lança sobre Finn para o salvar, ficando ferida, também quis que morresse.  Mesmo todo o capítulo da invasão da fortaleza, mais as cenas à James Bond do casino, mesmo com Benicio Del Toro, não fazem falta nenhuma à história, excepto darem utilidade à Capitão Phasma e introduzirem as criancinhas como uma nova esperança. O uso da palavra "hope" também foi exagerado, à terceira já tinhamos percebido o leitmotiv, que pelos vistos conduz ao último filme. Parece que querem fechar o círculo.

Falando em "new hope", Carrie Fisher teve um último desempenho como Princesa Leia sólido, convincente e, sabendo o que sabemos, comovente. O Luke envelhecido, com um toque de impertinência à Yoda é engraçadíssimo, mas nota-se que Mark Hamill aprendeu muito nestes anos e tornou-se num actor seguro e consolidado. Nunca fui fã de Luke, sempre o achei muito pueril, mas neste filme sou e muito. Rey é uma aprendiz estranha, não aprende grande coisa, no fundo está lá para nos mostrar este Luke, mas por outro lado, quando age sozinha, ou contracena com Kylo Ren, regressa a personagem forte introduzida no filme anterior, mas sem sardas. Adam Driver, e mesmo o modo como a personagem de Kylo/Ben se desenvolve, é intrigante e deixa a curiosidade como será o desenlace desta história. O duelo, luta contra os ninjas vermelhos é um espectáculo, mesmo que eu permaneça fiel ao traje dos Guardas Imperiais originais. Este é terrível! Este filme tem definitivamente personagens a mais, Poe começa em grande, mas a inclusão de Rose a camartelo, dispersa a função da personagem dele, como se o condenassem a um trabalho de secretária. BB-8 está melhor que nunca, mas deu alguma pena ver R2-D2 tratado como um velho cansado, quase sem um papel activo nesta história, largado como um móvel velho, a um canto da Falcon. C3-PO também tem um papel diminuído,sem grande utilidade, mas mesmo assim com mais presença que R2.  As raposinhas de cristal são fixes e os Porgs, nunca mencionados pelo nome, não são irritantes e se forem é só fazer como o Chewie, dar-lhes um safanão.

O filme é bastante divertido, apesar de ter toda uma sequência que não faz falta e de dispersar um bocado, não o acho longo ou dificil de suportar (mas eu sou suspeita, sou conhecida por aguentar filmes de 6 horas), tem uma boa montagem, bem ritmada, e deixa curiosidade suficiente para saber como será o terceiro. E deixou-me com aquela sensação de satisfação, que nos deixa quase encandeados ao sair da sala de cinema. Depois de ver The Last Jedi, The Force Awakens, que achei um filme engraçado, mas nada de especial, melhorou aos meus olhos e percebe-se que há aqui um conceito de conjunto sólido para os três filmes.

Star Wars: The Last Jedi

22 dezembro 2017

"Fuck!"

Queria ler o livro primeiro, tenho-o cá para ler, mas ainda só vou a um terço do Vanity Fair e não sei que conspiração é a da NOS, mas The Handmaid's Tale por enquanto é de graça no NOS Play, portanto já vi os dois primeiros episódios. Só espero que não passe a ser a pagantes a meio da série para eu ter de a deixar pendurada...

É bom, é muito bom! Eu já sabia mais ou menos a permissa, portanto não foi surpresa, mas, para além dos chamativos trajes das Handmaids, gostei da abordagem de inserirem pequenos detalhes num quotidiano aparentemente normal, pessoas vestidas de igual, uma contenção geral, o aparente puritanismo,  o compasso lento que nos obriga a prestar aenção aos detalhes, e depois a narração contrastante com a acção, "Fuck!"

Só não percebi a divergência no grafismo dos nomes, eles dizem Offred, mas nas legendas escrevem "Defred". Será uma tradução? Nem que seja com uma visitinha à Wikipedia, percebe-se o significado de "of[inserir nome masculino]"... enfim, opções "criativas", mas perdem-se os segundos significados que a palavra "offred" implica.

Não posso dizer muito mais sem fazer spoilers (dos dois primeiros episódios), mas The Handmaid's Tale já me apanhou pela sua estranheza singular, e depois, apesar de não haver grandes cliffhangers, opá, quero saber o que acontece a esta gente! Para já é tudo, mas se conseguir ver a série toda, ou quando houver desenvolvimentos chave, provavlmente postarei aqui.

The Handmaid's Tale

12 dezembro 2017

A Tentação do Lado Negro


Seja pela comemoração dos 40 anos de Star Wars, seja pela estreia esta semana em sala de The Last Jedi, o certo é que até 2 de Janeiro a NOS criou um canal, o 700, que passa Star Wars, em contínuo, 24/7. Em vez de ter a TV sintonizada na Rádio Oxigénio em permanência como de costume, agora é Star Wars o dia inteiro!

Como se percebe, sou fã de Star Wars,  muito ferrenha até à adolescência, que esmoreceu um pouco, fiquei desiludida com The Phantom Menace e passei a ver os filmes novos sem grandes expectativas por causa disso. De todos os 7 filmes até à data, a minha trilogia preferida é a primeira (IV, V e VI) e o meu filme preferido é The Empire Strikes Back. Vi todos os três primeiros filmes pelo menos 3 vezes no cinema, em 70mm, 4 o Empire, mais as Special Editions,e pelo menos uma de cada foi no antigo Cinema Monumental (bom o Return of the Jedi não dava, já tinha sido demolido) e as restantes no Cinema Condes, não inteiramente demolido, mas remodelado e já não é cinema (aquela cortina T_T).

Nos primeiros dias não conseguia largar o canal, mas só vi um filme inteirinho: The Empire Strikes Back. Basicamente o 700 está a passar, por esta ordem: Rogue One, A New Hope, The Empire Strikes Back, The Return of the Jedi, infelizmente as Special Editions, The Phantom Menace, The Attack of the Clones, The Revenge of the Sith. Entre cada filme passam featurettes com alguns dealhes dos efeitos especiais ou decisões criativas de cada filme e entre cada ciclo passam 2 documentários, um acerca da mitologia em Star Wars, The Legacy Revealed, e o outro mais estilo making of, Empire of Dreams. Estes documentários também vi completos e com atenção. Infelizmente não passam o The Force Awakens, faz alguma falta, mas provavelmete os direitos de exibição em TV ainda têm de ser a pagantes.

Ver estes filmes que conheço tão bem desta forma fragmentada tem sido uma experiência engraçada e tenho reparado em coisas que de outra forma nunca repararia: as vezes e o modo como James Earl Jones (Vader) diz "dess-tíníii", como a banda-sonora em geral (música+diálogos+efeitos) é coerente e não tem picos desagradáveis e histriónicos, como no primeiro filme Mark Hamill (Luke) e Carrie Fisher (Leia) dizem os diálogos de um modo mais televisivo, como a voz de Natalie Portman muda conforme está em modo Amidala ou ou Padmé, adoro a dicção enrolada dela como Amidala. E a coda musical de The Return of the Jedi é a mais pomposa de todas ou o curto trecho maravilhoso no genérico final de The Empire Strikes Back, samplado pelos Renegade Soundwave, continua a ser o meu trecho favorito das cerca de seis horas de música.

Ver de forma fragmentada e não-linear também me faz perceber os plot holes e as coisas inúteis (Jar-Jar Binks, anyone?), ou como Padmé é despachada a dizer "Luke", "Leia", apesar de ter acabado de parir e estar às portas da morte, ou como o R2-D2 e o C3-PO são enfiados a camartelo nas prequelas. Mas as falhas não são assim tantas e a grande maioria está na segunda trilogia (I, II e III). Outra coisa que percebi é que as coisas que não gosto, continuo a não gostar, como o erro de casting que foi Aiden Christensen e o miúdo que faz de Anakin. A falta completa de empatia entre Aiden e Natalie agrava ainda mais a falta de talento dele, as deixas românticas dele soam ainda mais patéticas do que já são, como a explicação excessiva não faz falta para a compreensão do todo, ou as músicas novas nas Special Editions destoam face ao resto, e assim sucssivamente.

Páro para ver as minhas cenas favoritas, a entrada de Darth Vader na nave de Leia, basicamente todo o Empire Strikes Back, adoro o cenário da ponte de comando do Star Destroyer de Darth Vader e o seu capacete mais reluzente que nunca; toda a cena de Jabba the Hutt, o guarda-roupa magnífico de Pamé Amidala, as naves espelhadas, as explosões sonic boom de Obi-Wan, Darth Maul a lutar como ninguém, etc.

Ainda quero rever Rogue One como deve ser, gostei bastante do filme o ano passado, quero ver como amadureceu na minha memória.

Canal NOS

14 junho 2017

À Moda do Império... Ou Não

A época do Império está na moda no Brasil, mas a moda Império não parece conseguir vingar nas produções da Globo. Depois da interpretação altamente fantasiosa de Liberdade, Liberdade, agora chega Novo Mundo, ambos passados nas primeiras décadas do séc. XIX, e a sensação de um trabalho desleixado pervalece, ainda mais que na sua antecessora. É uma pena.

Vou falar primeiro do que gosto. O trabalho de actores, principalmente o esforço de alguns actores brasileiros para falarem em português de Portugal é de louvar, principalmente o de Caio Castro, que desempenha o papel de D. Pedro I. Juro que estou impressionada! Menos impressionada estou com o esforço dos argumentistas em usar o vocabulário correcto, bastava ler Gil Vicente ou Camilo Castelo Branco, não estaria muito longe disso. Até há bem pouco tempo, principalmente nas camadas da nobresa portuguesa, absolutamente ninguém se tratava por "tu". Não precisava de ser um texto vicentino, mas uma adaptação, até porque é bastante parecido com o actual português do Brasil. Mas como os brasileiros adoram reduzir os portugueses a um punhado de clichés, não é de admirar. Impressionada também estou com o trabalho de Letícia Colin, como Princesa Maria Leopoldina da Áustria, que soube adoptar lindamente todos os tiques de uma nativa da língua alemã a falar português.

Numa novela com tanta personagem portuguesa, é triste averiguar que a grande maioria dos actores portugueses envolvidos na produção tenham papéis tão secundários ou curtos. A pobre Joana Solnado mal aqueceu o lugar! Já não vejo o Ricardo Pereira há que tempos e a coitada da Maria João Bastos já morreu. Mesmo Paulo Rocha tem um papel secundário em toda a trama, apesar de ser o grande antagonista político de D. Pedro. Enfim, mais uma vez somos reduzidos a um punhado de padeiros de bigode...

Agora os aspectos verdadeiramente negativos, o design de produção, em particular o guarda-roupa. Alega o director artístico da novela, Vinícius Coimbra, que pesquisou e inspirou-se nas gravuras da época do francês Jean Baptiste Debret, estive a ver uma série de gravuras dele, disponíveis online aqui, e pouca coisa corresponde ao que se vê na novela. Há consideravelmente menos porcaria, as ruas das cidades são na grande maioria calcetadas (dá menos trabalho desenhar um chão de pedra que de terra), os escravos não têm um ar maltrapilho, mas vestem um traje muito semelhante ao típico das baianas, e as senhoras mais abastadas estavam completamente na moda. Creio que as gravuras sejam bastante realistas, os índios são apresentados praticamente nus, órgãos sexuais à mostra. O seu intuito foi claramente o de uma documentação mais científica que artística, e não me parecem ter sofrido grande censura, seja ela de uma moral puritana ou da parte do artista. O que me surpreendeu foi o comprimento das saias, em geral um palmo mais curto do que o que se vê nas gravuras de moda da época (francesas, inglesas ou americanas).

Também temos que ver que, ao contrário de Liberdade, Liberdade, Novo Mundo não é uma novela realista, mas uma adaptação algo leve e satírica de factos históricos, aliados a uma narrativa principal de ficção. Portanto uma certa estilização seria bem aceite e deixar a porcaria na pocilga.

Já o director artístico insiste num aspecto maltrapilho e porcalhão da população em geral e até mesmo da nobreza. Apesar de usar um figurino historicamente correcto em Maria Leopoldina, o ar desleixado da combinação sempre à mostra, do cinto torto, o vestido mal ajustado, são muito pouco plausíveis numa dama da nobreza, de origem austríaca, mesmo que num Brasil quente ou falido. Até porque falamos numa epoca em que a moda eram vestidinhos leves de cambraia de algodão, o mais indicado para aquele clima. A personagem fictícia de Anna Millman, desempenhada por Isabelle Drummond, usa uma silhueta mais ou menos adequada, mas tecidos demasiado modernos, longe do que era a moda, e os cabelos sempre soltos, nem um carrapito ou uma trança para fazer figura. E como é que Anna está sempre impecavelmente ensaboada no meio daquele desleixo e imundície? Ah e as cinturas descaídas nos homens, um detalhe completamente moderno, do séc. XX-XXI, enquanto que a moda eram calças com a cintura quase no pescoço?

Eu aceito personagens fantasiosas, como os piratas, eu aceito personagens claramente grotescas como os donos da tasca, aceito fatos repetidos, pois a corte estava falida, aceito uma certa simplificação do guarda-roupa, pelas mesmas razões, até aceito certas liberdades nos figurinos, como as de Anna, não fosse o desleixo transversal e sem uma justificativa nem na cartacterização das personagens, nem na narrativa. A Princesa manteve uma criada pessoal mesmo depois do corte nas despesas, isto na narrativa da novela. Não há razão para andar mal arranjada. Para um bom guarda-roupa da época Império, vejam Pride and Prejudice, de 1995, da BBC!

O que mais me surpreende é que o Brasil, país produtor de algodão, com um leque rico em artesanato de rendas, crochets e bordados, não os usa a seu favor e cria um guarda-roupa que provavelmente até lhes saíria mais barato, uma boa montra do que se faz no país, para além de genuíno? Dizem que fizeram pesquisa, até caem na asneira em citar a fonte principal de inspiração e depois o resultado está bem longe da mesma... intrigante, ou falta de brio? Rigor histórico ou caprichos da vaidade? História ou caricatura? Se a caracterização física estivesse mais correcta e fosse mais subtil, menos grotesca, a narrativa sobressairia mais e a novela resultaria mais sofisticada.

Novo Mundo
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