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29 janeiro 2018

Ficção-Científica Barroca

Mas não, não é o Flash Gordon, nem o Dune. É o Jupiter Ascending. Primeiro façamos uma pausa para apreciar como o título Jupiter Ascending é bom: tem pelo menos 2 interpretações imediatas: Júpiter em ascenção (astrologia), ascender a Júpiter e uma terceira interpretação após ver o filme: Júpiter a ascender; é fácil de traduzir sem perder os vários significados e é intrigante q.b.

Confesso que quando Jupiter Ascending estreou, não lhe dei muita importância, nem sequer percebi que é das Wachovski, mas passou este fim de semana no AXN, pelo que aproveitei a oportunidade para ver.

Trata-se de um filme bastante engraçado e mais inesperado do que pensava. Só achei uma coisa deveras irritante: a banda-sonora. Para além de a música não ser nada de especial, nem particularmente bonita, nem particularmente marcante, não há um miserável momento de silêncio no filme inteiro! Em cima disso, alguns dos efeitos sonoros, são muito irritantes e estão demasiado em primeiro plano, para não falar num clássico dos dias de hoje: os diálogos muito baixos em relação às cenas de acção, o que faz com que, em casa, tenhamos de estar constantemente a ajustar o volume. Creio que é suposto haver um certo equilíbrio, a não ser que haja alguma justificação estética ou narrativa. Neste caso, como em muitos outros, não se justifica e torna-se demasiado invasivo na experiência de ver o filme.

Mas vamos às coisas boas: gostei muito da história, tem algumas parecenças com o Flash Gordon, pessoa da Terra levada para um universo futurista barroco, com uma intriga política e de poder em curso, seres com asas, híbridos humanos com outros animais reconhecivelmente da Terra. O paralelismo que estabeleci com o Flash Gordon não é inocente, provavelmente se fizessem hoje um remake [vá-de retro, em equipa ganha não se mexe!] e se quisesse optar por uma estética igualmente barroca, provavelmente não seria muito diferente deste filme. Também noto algumas parecenças vagas com o Dune, nas lutas pelo poder e controlo de planetas inteiros.
Gostei como a narrativa toma um curso um pouco de conto de fadas de cabeça para baixo, lembra-me o Stardust nalguns aspectos. A ideia, já presente em The Matrix, de estarmos a ser manipulados por seres algures fora do nosso universo conhecido, não é original, mas é uma temática popular na literatura de ficção-científica, que é das minhas preferidas junto com as viagens no tempo, e é pouco usada em cinema. Obrigada manos/as Wachovski!
Também gosto, e gostei neste filme, da Mila Kunis, foi bem escolhida para este papel,tanto pela figura física, como pelo seu estilo de interpretação, mesmo sendo desejável que fosse um pouco mais que uma princesa em perigo, apesar do twist de uma mulher-a-dias ser a dona da Terra :D

Visualmente gosto de terem optado por um lado mais barroco, mas acho que, mesmo dentro do barroco, não simplificaram e há demasiada informação visual que não está lá a fazer nada. Mas neste caso é mesmo uma questão de gosto pessoal, e dentro do que se faz hoje, apesar de tudo, gosto do que vi, especialmente de alguns figurinos.

Jupiter Ascending passou um bocado despercebido e é pena, não é um filme brilhante, mas é bastante acima da média do que se vê por aí de filmes de acção/efeitos especiais e é muito bom de se ver.

Jupiter Ascending (imdb)

13 janeiro 2018

Portugal de Fachada

Oh, sim, está na hora de cascar!

Por acompanhar outras novelas no canal Globo, tenho apanhado uns rabinhos da novela Tempo de Amar e ando chocada com diversos aspectos desta novela.

Ando chocada, pois a novela passa-se 50 a 60% em Portugal algures nos anos 20-30 e:
- não tem um único actor português para amostra, nem o canastrão do Ricardo Pereira;
- já nem sequer ninguém faz o mínimo esforço de falar com uma pronúncia aportuguesada, nem de usar expressões idiomáticas típicas de cá, naquele registo irritante, cheio de chavões, mesmo que
- os regionalismos, sejam de cenários, nomes ou outros não fossem respeitados, não o são;
- existe um convento claramente nortenho, em pedra escura, com ar de granito, acho que até a vila/aldeia principal é perto do Porto, portanto provavelmente no Douro, contudo alguns nomes e os poucos regionalismos são mais característicos do Sul;
- até perdoaria o clássico preconceito de um estrangeiro a retratar outro país generalizando sem grande preocupação de fazer pesquisa, mas depois continuam a achar que os portugueses se tratam todos por "tu", independentemente da idade ou classe social;
- a vida quotidiana, em tempos árduos num Portugal muito conservador, é excessivamente romantizada onde seria bem mais interessante ampliar o drama da vida dura vigente, face à guerra iminente e a uma mentalidade cinzenta;
- o figurino das portuguesas é demasiado descascado para a nossa mentalidade fechada, quase nenhuma usa chapéu ou algo na cabeça, numa época onde ninguém saía de casa de cabeça descoberta;
- há uma estranha ausência de portugueses bigodudos na melhor oportunidade que tiveram de os ter sem se tornar num cliché cansado;
- foram buscar o Salvador Sobral, claramente uma manobra de mediatismo, pelo menos é português, mesmo que o estilo da canção não encaixe na época da novela, encaixa no lado romântico.

Enfim, o que ameniza isto tudo é que pelo que percebo pela narrativa, o Brasil também está retratado através desse filtro rosa-sépia e muitas das situações que já pude observar são descabidas e de um romantismo lamechas.

Mesmo assim acho vergonhoso terem a lata de passar esta novela em Portugal, só espero que tenham valores baixos de audiência... por cá.

Tempo de Amar

04 janeiro 2018

Do Politicamente Incorrecto


Comecei o ano a fazer uma mini-maratona de Little Britain enquanto ainda tinha o serviço NOS Play gratuito [acabou hoje - só vi 4 episódios de The Handmaids Tale :'( ]. Quando a série deu na RTP2 cheguei a ver alguns episódios e adorei, mas naquela altura tinha alguma dificuldade em lembrar-me do horário, acho que foi quando a Britcom passou de sábado para domingo, e acabei por não a ver com a fidelidade que gostaria. Infelizmente só consegui ver a 1ª série e metade da 2ª - estava a saber tão bem! - mas agora só quando a NOS der outra abébia destas, ou na candonga - o mais provável...

Enfim, que limpeza de cérebro, até o sinto a cintilar! Actualmente uma série destas geraria TANTOS problemas! Mesmo no Reino Unido!! Nudez frontal, preconceito, rudeza, insolência, racismo descarado, acho que a lista completa do politicamente incorrecto aplica-se! Mas tudo com aquela fleuma inglesa do: "insultas-me de alto abaixo, mas fá-lo tão bem que quero mais, mais!" Quando vi a série a primeira vez, quem me chamou mais a atenção da dulpa foi Matt Lucas, com aquela figura peculiar, principalmente na personagem the-only-gay-in-the-village Daffyd. Mas agora por quem me apaixonei foi por David Walliams, no seu escocês ("iyeeeeesss?"), nos seus travestis ("I am a lady, I do as a lady"), no Sebastian bichona, e todos os outros! É impressionante como ambos se transformam fisicamente, como ambos dão uma variedade tão grande de personagens e, principalmente, mulheres, como conseguem ser hilariantemente imbecis e iconclastas, como em cada episódio dei pelo menos uma bela e sonante gargalhada! Depois temos os convidados especiais, a narração brilhante a rebentar a 4ª parede de Tom Baker (sim, o 4º Doctor), o Ministro de Anthony Head, sim, "the bloke from Buffy", e como toda aquela insolência é tão divertida!

Tenho de deixar aqui a minha admiração embevecida pela qualidade impressionante das inúmeras perucas usadas pela dupla e também pelo guarda-roupa magnificamente pensado ao último detalhe!

Ver esta série com os olhos de hoje mostra como o mundo perdeu o sentido de humor e anda a levar-se demasiado a sério. Houve aqui um tipo qualquer de regressão, apetece dizer: "GROW UP!"

FELIZ 2018!!

28 dezembro 2017

Vermelho Sanguíneo

O desapontamento de 1 de Outubro de 1999 com The Phantom Menace teve um efeito positivo para mim, deu-me o distanciamento para  poder ver os novos filmes de Star Wars com o coração de fã, mas os olhos críticos de cinéfila. The Last Jedi reforça esse distanciamento e faz-me ver estes novos filmes disneificados de Star Wars como uma espécie de fanfiction com qualidade de Star Wars (The Force Awakens e The Last Jedi) que nem precisam de grande contextualização no universo Star Wars e, nos dias de hoje, com tudo o que se tem passado nos bastidores empresariais, considero isso uma qualidade. Há uns miminhos para os fãs da antiga, nas presenças dos "velhos amigos de então", na Millenium Falcon e no fangirling de Kylo Ren ao avô, Darth Vader, mas estes filmes destacam-se do resto e é assim que escolhi vê-los, para poder disfrutar dos mesmos sem os olhos toldados pelo purismo e preconceito de um fã.

** CUIDADO, SPOILERS! ** 

 
A primeira coisa que me chamou a atenção, logo nos trailers, em The Last Jedi foi o minimalismo estético no uso de uma paleta muito reduzida de cores (preto, branco e vermelho sanguíneo), opção nunca tomada nos filmes anteriores, com uma estética mais naturalista, mesmo que com um grande enfoque no preto e no branco. Em ambas as primeiras trilogias notava-se que havia várias mãos a criar o universo visual, mesmo que com coesão, a tendência era mostrar uma diversidade naturalista acima de tudo, principalmente nos episódios I, II e III, o que resulta nalguma salganhada visual no todo dos filmes. The Last Jedi faz o oposto, praticamente não existem mais que aquelas três cores (preto e branco não são cor, mas por uma questão prática chamo-lhes assim neste post), excepto talvez em Skellig Michael (não me lembro do nome da ilha na ficção) e no cabelo lilás de Laura Dern (Holdo). O resultado é uma sala do trono de Snoak, deslumbrante, com o vermelho polido e no planeta  Crait, com uma superfície branca de sal com rochas escarpadas pretas, que escondem um solo de cristais do mesmo vermelho sanguíneo, com um efeito ultra dramático e espantoso!
O curioso é que já tinha havido uma tentativa ténue desse formalismo em The Force Awakens, mas dessa vez com preto, branco e laranja, aliás uma das cores mais presentes em toda a saga. Mas o laranja não é dramático, principalmente nada dramático por comparação com aquele tom específico de vermelho e o tratamento polido, como do preto e do branco, a que foi sujeito. Na trilogia original as cores foram usadas de forma mais básica, branco para a luz, preto para o lado negro, na evolução de Luke, branco-cinzento-preto, e o pontuar de vermelho nos sabres dos Sith e nos Guardas Imperiais.

Mas não é apenas de forma visual que o filme é diferente, para além de John Williams ainda estar em grande forma, "aquele" minuto de silêncio durante a destruição da fortaleza da First Order, é puro génio e muito ousado para um blockbuster, especialmente se pensarmos que agora é Disney. O público da pipoca tem tendência a não aceitar estas opções, o silêncio, numa cena tão forte como essa é muito mais dramático que qualquer música. Quem faz opções destas conhece o material com que trabalha, sabe usar a linguagem cinematofgráfica. Aliás, durante The Last Jedi temos vários exemplos de uma boa realização, Rian Johnson é um nome a fixar, gostei muito do seu desempenho como realizador neste filme.

O argumento, tendo a difícil tarefa de ser o "filho do meio", também é bastante superior a The Force Awakens e surpreende na quase total ausência de previsibilidade. Este é um filme difícil de fazer spoilers. Aliás, a direcção que estes filmes tomaram, com a ausência de um verdadeiro vilão, com heróis cheios de defeitos e não tendo um único fio condutor, é sem dúvida arriscada, desviando do modelo clássico da "Jornada do Herói", de Joseph Campbell.

Mas nem tudo é fantástico neste filme, as personagens goody-two-shoes de Finn e Rose não fazem lá falta nenhuma, a informação que Finn fornece é mínima e podia vir de outra fonte qualquer, para além disso são ambos irritantes até dizer chega. Confesso que quando Finn se lançou contra o canhão, quis que morresse, e quando Rose se lança sobre Finn para o salvar, ficando ferida, também quis que morresse.  Mesmo todo o capítulo da invasão da fortaleza, mais as cenas à James Bond do casino, mesmo com Benicio Del Toro, não fazem falta nenhuma à história, excepto darem utilidade à Capitão Phasma e introduzirem as criancinhas como uma nova esperança. O uso da palavra "hope" também foi exagerado, à terceira já tinhamos percebido o leitmotiv, que pelos vistos conduz ao último filme. Parece que querem fechar o círculo.

Falando em "new hope", Carrie Fisher teve um último desempenho como Princesa Leia sólido, convincente e, sabendo o que sabemos, comovente. O Luke envelhecido, com um toque de impertinência à Yoda é engraçadíssimo, mas nota-se que Mark Hamill aprendeu muito nestes anos e tornou-se num actor seguro e consolidado. Nunca fui fã de Luke, sempre o achei muito pueril, mas neste filme sou e muito. Rey é uma aprendiz estranha, não aprende grande coisa, no fundo está lá para nos mostrar este Luke, mas por outro lado, quando age sozinha, ou contracena com Kylo Ren, regressa a personagem forte introduzida no filme anterior, mas sem sardas. Adam Driver, e mesmo o modo como a personagem de Kylo/Ben se desenvolve, é intrigante e deixa a curiosidade como será o desenlace desta história. O duelo, luta contra os ninjas vermelhos é um espectáculo, mesmo que eu permaneça fiel ao traje dos Guardas Imperiais originais. Este é terrível! Este filme tem definitivamente personagens a mais, Poe começa em grande, mas a inclusão de Rose a camartelo, dispersa a função da personagem dele, como se o condenassem a um trabalho de secretária. BB-8 está melhor que nunca, mas deu alguma pena ver R2-D2 tratado como um velho cansado, quase sem um papel activo nesta história, largado como um móvel velho, a um canto da Falcon. C3-PO também tem um papel diminuído,sem grande utilidade, mas mesmo assim com mais presença que R2.  As raposinhas de cristal são fixes e os Porgs, nunca mencionados pelo nome, não são irritantes e se forem é só fazer como o Chewie, dar-lhes um safanão.

O filme é bastante divertido, apesar de ter toda uma sequência que não faz falta e de dispersar um bocado, não o acho longo ou dificil de suportar (mas eu sou suspeita, sou conhecida por aguentar filmes de 6 horas), tem uma boa montagem, bem ritmada, e deixa curiosidade suficiente para saber como será o terceiro. E deixou-me com aquela sensação de satisfação, que nos deixa quase encandeados ao sair da sala de cinema. Depois de ver The Last Jedi, The Force Awakens, que achei um filme engraçado, mas nada de especial, melhorou aos meus olhos e percebe-se que há aqui um conceito de conjunto sólido para os três filmes.

Star Wars: The Last Jedi

22 dezembro 2017

"Fuck!"

Queria ler o livro primeiro, tenho-o cá para ler, mas ainda só vou a um terço do Vanity Fair e não sei que conspiração é a da NOS, mas The Handmaid's Tale por enquanto é de graça no NOS Play, portanto já vi os dois primeiros episódios. Só espero que não passe a ser a pagantes a meio da série para eu ter de a deixar pendurada...

É bom, é muito bom! Eu já sabia mais ou menos a permissa, portanto não foi surpresa, mas, para além dos chamativos trajes das Handmaids, gostei da abordagem de inserirem pequenos detalhes num quotidiano aparentemente normal, pessoas vestidas de igual, uma contenção geral, o aparente puritanismo,  o compasso lento que nos obriga a prestar aenção aos detalhes, e depois a narração contrastante com a acção, "Fuck!"

Só não percebi a divergência no grafismo dos nomes, eles dizem Offred, mas nas legendas escrevem "Defred". Será uma tradução? Nem que seja com uma visitinha à Wikipedia, percebe-se o significado de "of[inserir nome masculino]"... enfim, opções "criativas", mas perdem-se os segundos significados que a palavra "offred" implica.

Não posso dizer muito mais sem fazer spoilers (dos dois primeiros episódios), mas The Handmaid's Tale já me apanhou pela sua estranheza singular, e depois, apesar de não haver grandes cliffhangers, opá, quero saber o que acontece a esta gente! Para já é tudo, mas se conseguir ver a série toda, ou quando houver desenvolvimentos chave, provavlmente postarei aqui.

The Handmaid's Tale

12 dezembro 2017

A Tentação do Lado Negro


Seja pela comemoração dos 40 anos de Star Wars, seja pela estreia esta semana em sala de The Last Jedi, o certo é que até 2 de Janeiro a NOS criou um canal, o 700, que passa Star Wars, em contínuo, 24/7. Em vez de ter a TV sintonizada na Rádio Oxigénio em permanência como de costume, agora é Star Wars o dia inteiro!

Como se percebe, sou fã de Star Wars,  muito ferrenha até à adolescência, que esmoreceu um pouco, fiquei desiludida com The Phantom Menace e passei a ver os filmes novos sem grandes expectativas por causa disso. De todos os 7 filmes até à data, a minha trilogia preferida é a primeira (IV, V e VI) e o meu filme preferido é The Empire Strikes Back. Vi todos os três primeiros filmes pelo menos 3 vezes no cinema, em 70mm, 4 o Empire, mais as Special Editions,e pelo menos uma de cada foi no antigo Cinema Monumental (bom o Return of the Jedi não dava, já tinha sido demolido) e as restantes no Cinema Condes, não inteiramente demolido, mas remodelado e já não é cinema (aquela cortina T_T).

Nos primeiros dias não conseguia largar o canal, mas só vi um filme inteirinho: The Empire Strikes Back. Basicamente o 700 está a passar, por esta ordem: Rogue One, A New Hope, The Empire Strikes Back, The Return of the Jedi, infelizmente as Special Editions, The Phantom Menace, The Attack of the Clones, The Revenge of the Sith. Entre cada filme passam featurettes com alguns dealhes dos efeitos especiais ou decisões criativas de cada filme e entre cada ciclo passam 2 documentários, um acerca da mitologia em Star Wars, The Legacy Revealed, e o outro mais estilo making of, Empire of Dreams. Estes documentários também vi completos e com atenção. Infelizmente não passam o The Force Awakens, faz alguma falta, mas provavelmete os direitos de exibição em TV ainda têm de ser a pagantes.

Ver estes filmes que conheço tão bem desta forma fragmentada tem sido uma experiência engraçada e tenho reparado em coisas que de outra forma nunca repararia: as vezes e o modo como James Earl Jones (Vader) diz "dess-tíníii", como a banda-sonora em geral (música+diálogos+efeitos) é coerente e não tem picos desagradáveis e histriónicos, como no primeiro filme Mark Hamill (Luke) e Carrie Fisher (Leia) dizem os diálogos de um modo mais televisivo, como a voz de Natalie Portman muda conforme está em modo Amidala ou ou Padmé, adoro a dicção enrolada dela como Amidala. E a coda musical de The Return of the Jedi é a mais pomposa de todas ou o curto trecho maravilhoso no genérico final de The Empire Strikes Back, samplado pelos Renegade Soundwave, continua a ser o meu trecho favorito das cerca de seis horas de música.

Ver de forma fragmentada e não-linear também me faz perceber os plot holes e as coisas inúteis (Jar-Jar Binks, anyone?), ou como Padmé é despachada a dizer "Luke", "Leia", apesar de ter acabado de parir e estar às portas da morte, ou como o R2-D2 e o C3-PO são enfiados a camartelo nas prequelas. Mas as falhas não são assim tantas e a grande maioria está na segunda trilogia (I, II e III). Outra coisa que percebi é que as coisas que não gosto, continuo a não gostar, como o erro de casting que foi Aiden Christensen e o miúdo que faz de Anakin. A falta completa de empatia entre Aiden e Natalie agrava ainda mais a falta de talento dele, as deixas românticas dele soam ainda mais patéticas do que já são, como a explicação excessiva não faz falta para a compreensão do todo, ou as músicas novas nas Special Editions destoam face ao resto, e assim sucssivamente.

Páro para ver as minhas cenas favoritas, a entrada de Darth Vader na nave de Leia, basicamente todo o Empire Strikes Back, adoro o cenário da ponte de comando do Star Destroyer de Darth Vader e o seu capacete mais reluzente que nunca; toda a cena de Jabba the Hutt, o guarda-roupa magnífico de Pamé Amidala, as naves espelhadas, as explosões sonic boom de Obi-Wan, Darth Maul a lutar como ninguém, etc.

Ainda quero rever Rogue One como deve ser, gostei bastante do filme o ano passado, quero ver como amadureceu na minha memória.

Canal NOS

14 junho 2017

À Moda do Império... Ou Não

A época do Império está na moda no Brasil, mas a moda Império não parece conseguir vingar nas produções da Globo. Depois da interpretação altamente fantasiosa de Liberdade, Liberdade, agora chega Novo Mundo, ambos passados nas primeiras décadas do séc. XIX, e a sensação de um trabalho desleixado pervalece, ainda mais que na sua antecessora. É uma pena.

Vou falar primeiro do que gosto. O trabalho de actores, principalmente o esforço de alguns actores brasileiros para falarem em português de Portugal é de louvar, principalmente o de Caio Castro, que desempenha o papel de D. Pedro I. Juro que estou impressionada! Menos impressionada estou com o esforço dos argumentistas em usar o vocabulário correcto, bastava ler Gil Vicente ou Camilo Castelo Branco, não estaria muito longe disso. Até há bem pouco tempo, principalmente nas camadas da nobresa portuguesa, absolutamente ninguém se tratava por "tu". Não precisava de ser um texto vicentino, mas uma adaptação, até porque é bastante parecido com o actual português do Brasil. Mas como os brasileiros adoram reduzir os portugueses a um punhado de clichés, não é de admirar. Impressionada também estou com o trabalho de Letícia Colin, como Princesa Maria Leopoldina da Áustria, que soube adoptar lindamente todos os tiques de uma nativa da língua alemã a falar português.

Numa novela com tanta personagem portuguesa, é triste averiguar que a grande maioria dos actores portugueses envolvidos na produção tenham papéis tão secundários ou curtos. A pobre Joana Solnado mal aqueceu o lugar! Já não vejo o Ricardo Pereira há que tempos e a coitada da Maria João Bastos já morreu. Mesmo Paulo Rocha tem um papel secundário em toda a trama, apesar de ser o grande antagonista político de D. Pedro. Enfim, mais uma vez somos reduzidos a um punhado de padeiros de bigode...

Agora os aspectos verdadeiramente negativos, o design de produção, em particular o guarda-roupa. Alega o director artístico da novela, Vinícius Coimbra, que pesquisou e inspirou-se nas gravuras da época do francês Jean Baptiste Debret, estive a ver uma série de gravuras dele, disponíveis online aqui, e pouca coisa corresponde ao que se vê na novela. Há consideravelmente menos porcaria, as ruas das cidades são na grande maioria calcetadas (dá menos trabalho desenhar um chão de pedra que de terra), os escravos não têm um ar maltrapilho, mas vestem um traje muito semelhante ao típico das baianas, e as senhoras mais abastadas estavam completamente na moda. Creio que as gravuras sejam bastante realistas, os índios são apresentados praticamente nus, órgãos sexuais à mostra. O seu intuito foi claramente o de uma documentação mais científica que artística, e não me parecem ter sofrido grande censura, seja ela de uma moral puritana ou da parte do artista. O que me surpreendeu foi o comprimento das saias, em geral um palmo mais curto do que o que se vê nas gravuras de moda da época (francesas, inglesas ou americanas).

Também temos que ver que, ao contrário de Liberdade, Liberdade, Novo Mundo não é uma novela realista, mas uma adaptação algo leve e satírica de factos históricos, aliados a uma narrativa principal de ficção. Portanto uma certa estilização seria bem aceite e deixar a porcaria na pocilga.

Já o director artístico insiste num aspecto maltrapilho e porcalhão da população em geral e até mesmo da nobreza. Apesar de usar um figurino historicamente correcto em Maria Leopoldina, o ar desleixado da combinação sempre à mostra, do cinto torto, o vestido mal ajustado, são muito pouco plausíveis numa dama da nobreza, de origem austríaca, mesmo que num Brasil quente ou falido. Até porque falamos numa epoca em que a moda eram vestidinhos leves de cambraia de algodão, o mais indicado para aquele clima. A personagem fictícia de Anna Millman, desempenhada por Isabelle Drummond, usa uma silhueta mais ou menos adequada, mas tecidos demasiado modernos, longe do que era a moda, e os cabelos sempre soltos, nem um carrapito ou uma trança para fazer figura. E como é que Anna está sempre impecavelmente ensaboada no meio daquele desleixo e imundície? Ah e as cinturas descaídas nos homens, um detalhe completamente moderno, do séc. XX-XXI, enquanto que a moda eram calças com a cintura quase no pescoço?

Eu aceito personagens fantasiosas, como os piratas, eu aceito personagens claramente grotescas como os donos da tasca, aceito fatos repetidos, pois a corte estava falida, aceito uma certa simplificação do guarda-roupa, pelas mesmas razões, até aceito certas liberdades nos figurinos, como as de Anna, não fosse o desleixo transversal e sem uma justificativa nem na cartacterização das personagens, nem na narrativa. A Princesa manteve uma criada pessoal mesmo depois do corte nas despesas, isto na narrativa da novela. Não há razão para andar mal arranjada. Para um bom guarda-roupa da época Império, vejam Pride and Prejudice, de 1995, da BBC!

O que mais me surpreende é que o Brasil, país produtor de algodão, com um leque rico em artesanato de rendas, crochets e bordados, não os usa a seu favor e cria um guarda-roupa que provavelmente até lhes saíria mais barato, uma boa montra do que se faz no país, para além de genuíno? Dizem que fizeram pesquisa, até caem na asneira em citar a fonte principal de inspiração e depois o resultado está bem longe da mesma... intrigante, ou falta de brio? Rigor histórico ou caprichos da vaidade? História ou caricatura? Se a caracterização física estivesse mais correcta e fosse mais subtil, menos grotesca, a narrativa sobressairia mais e a novela resultaria mais sofisticada.

Novo Mundo

24 abril 2017

Do Legado de um Rei





Todas as séries com intriga política e palaciana têm de ser seguidas com atenção, Versailles, na RTP1, merece-o. Para além da dita intriga, que obriga a essa atenção, a série é mesmo muito boa a todos os níveis: um elenco muito competente e de babar, um guarda-roupa e cenários deslumbrantes, uma fotografia quase mágica, uma banda-sonora inebriante e uma realização inteligente.

A narrativa e a acção em Versailles fluem sem solavancos, montadas na intriga, sem quebras apbrutas, num encadeamento quase estonteante, mas mostrando muito mais. Tudo aqui é justificado e mostra-nos, usando brilhantemente a ficção e a História, para mostrar-nos como Luís XIV se tornou o Rei-Sol e como o palácio ficou como testemunho disso. Na primeira série já tinha começado a introduzir-se os vários conceitos vanguardistas introduzidos por Luís e a sua corte, o ballet, o fogo-de-artifício, a culinária, a arquitectura, os jardins, a etiqueta, a comparação ao Sol, o Iluminismo, mas é agora na 2ª série que isso é levado a 100%, tendo o momento do eclipse solar (no GIF acima) um excelente exemplo de como a realização aproveitou muitíssimo bem esses elementos. Mal posso esperar pelo resto da série, pois promete ser tão gloriosa como decadente! Venha!!

Versailles, la série

27 fevereiro 2017

89 Oscars... que deram barracada!

Para variar vi muito poucos filmes nomeados, alguns por opção, La La Land, que graças à cerimónia dos Oscars descobri que o título português é o incompreensível La La Landa (???) [acho que já está na hora do IGAC empregar alguém que saiba português para dar títulos aos filmes], outros que vi porque tinha de ser, Rogue One, mas a grande maioria nem me despertou a atenção.

O Red Carpet começa a tornar-se repetitivo, principalmente agora que os vejo quase todos, e, no caso dos Oscars, demasiado conservador, com um ou dois vestidos interessantes. Já não tenho grande paciência para comentar, excepto a tendência para smokings de veludo nos homens, eu sou sempre a favor de veludo.

Este ano o cenário foi menos interessante, mais uma vez com inspiração Art Déco, mas, digamos, mais piroso. Gostei dos Oscars cortina de cristais, calculo eu, Swarovsky, funcionaram lindamente em televisão.

A cerimónia dos Oscars começou morna, continuou morna e terminou morna, só que não. Um engano, uma troca de envelopes, anunciando erradamente La La Land como melhor filme do ano, o Oscar era para Moonlight, foi o auge da excitação dos Oscars 2017. Sim, houve momentos engraçados, os doces de páraquedas, o miúdo de Lion, a visita guiada, uma ou outra apresentação mais espirituosa, mas pouco discurso político, ficando nas mãos dos directamente afectados, o realizador iraniano ausente de The Salesman, Gael Garcia Bernal, mexicano, declarando que muros dividem, etc. etc. etc. Nem me lembro de ouvir a musiquinha nos discursos mais longos. Houve discursos mais longos? A piada recorrente foi como Meryl Streep é sobrevalorizada e pouco mais. Gostei dos "mean tweets". Gostei dos emparelhamentos de actores mais novos com os que os inspiraram.

Enfim, viu-se, mas não foi muito divertido. Tragam a Ellen de volta!

Oscars

14 fevereiro 2017

Primeiras Impressões

É raro, muito raro, eu blogar apenas depois de ver um episódio de uma série, mas Legion, na FOX, deixou-me impressionada!

Para começar esteticamente a série é brutal! Todos os cenários são escolhidos a dedo, numa arquitectura modernista de meados do séc. XX, filmados de acordo, com muitos planos simétricos onde se proporciona, ou a aproveitar muito bem os volumes arquitectónicos, lembrando muito os filmes de Jacques Tati. O guarda-roupa e a banda-sonora correspondem à arquitectura, o guarda roupa muito mod anos 60 para 70, a banda-sonora jazzy moderna, com electrónica à mistura. Este formalismo dá-nos uma sensação de insólito e irreal, que reforçam e apoiam muito bem a narrativa.

E depois vem a história. Muito intrigante, a jogar com o que pode ou não ser real e com a esquizofrenia do protagonista, colando-nos ao ecrã e ao mesmo tempo põe-nos a sofrer de angústia por não se perceber inteiramente o que se está a passar.

Passei o episódio inteiro: "eu conheço este tipo!", é Dan Stevens, o Cousin Matthew de Downton Abbey, mas o contexto completamente oposto e o sotaque americano impecável desnortearam-me. Claro que conheço o Dan Stevens! Eu fui uma das que fez luto por Matthew em Downton.

Bom, agora resta-me esperar ansiosamente pela próxima semana. Espero que o nível de qualidade se mantenha. Desde Heroes que não ficava tão entusiasmada com uma série do género, ficção-científica/super heróis, mas mesmo Heroes não me encheu tanto as medidas à partida.

Legion

04 fevereiro 2017

As Manas dos Moors

Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais) é o meu livro preferido. Quando estive em Haworth e visitei o Brontë Parsonage Museum, achei que a vida das irmãs Brontë dava um filme tão bom como qualquer dos seus livros. Eis que a BBC, para o 200º aniversário de Charlotte Brontë, produziu To Walk Invisible, que conta parte dessa história.

Primeiro gostaria de afirmar que os cenários, guarda-roupa, recriações da aldeia, etc. estão impecáveis e quem tenha visitado os mesmos dificilmente separa os locais reais da sua respectiva recriação, indispensáveis devido a alterações sofridas ao longo do tempo nos locais reais. Isto é particularmente importante no que toca aos cenários principais, a Parsonage e o cemitério ao lado, que estão bastante diferentes do que eram no tempo das Brontës, o cemitério está cheio de árvores frondosas, a casa teve um grande acrescento e actualmente inclui equipamento próprio da casa-museu que é. A grande maioria da mobilia e objectos pessoais, recolhidos pela Brontë Society, pode ser vista na casa-museu.

O filme conta o pedaço das suas vidas de adultas, entre decidirem ser publicadas até à morte de Branwell, o irmão. Logo de início é estabelecida uma atmosfera fantasmagórica, digna dos seus livros, com a primeira cena das crianças a brincar em Gondal, o mundo criado pelos quatro, ainda presente nos minúsculos livrinhos feitos à mão, no museu. Apesar de o resto da história ter pouco de sobrenatural, não é muito mais que biográfica, essa atmosfera mantém-se na fotografia, no clima húmido do Yorkshire e na banda-sonora. O secretismo a que elas se obrigaram, devido às dificuldades em serem reconhecidas pela sua obra e não pelo seu sexo, é o tema principal da história, e o grande dilema das irmãs, que escreviam compulsivamente. A decadência de Branwell serve como catalisador, primeiro para o secretismo e depois para a grande revelação ao mundo, que os autores daqueles livros escândalosos afinal eram mulheres!

Gostava que tivessem dado um pouco menos de protagonismo a Branwell, e mais aos moors [a tradução portuguesa é "charneca", mas como a nossa charneca é muito diferente dos moors, prefiro deixar no original] e a cada irmã individualmente. Quem tenha visitado a região e, naturalmente, tenha lido algum livro das Brontës, percebe facilmente de onde vem tanta paixão contida, aquela paisagem é avassaladora. Para variar, quase só dão voz a uma Charlotte mandona, Emily é caracterizada como bicho do mato e Anne como a boazinha. Duvido que qualquer uma delas pudesse ser reduzida a tão pouco. Gostei como Emily estava sempre atarefada com os afazeres da casa, apesar de não ser necessário, devido à criada que trabalhava para a família. Era o seu modo de descarregar energia. Isso e caminhadas nos moors. Ah, o cão, o cão retratado por Emily em movimento, num desenho exposto no museu.

Quem goste e admire as Brontës, com certeza apreciará este filme, quem apenas goste de dramas de época, talvez o ache um pouco singelo, não há um grande romance e a tragédia é mais caseira, mas continua a valer a pena, é mais uma prova que a BBC ainda dá cartas em produções de época.

BBC One - To Walk Invisible

03 fevereiro 2017

Debaixo dos Saiotes

Já percebi para que serviam as cenas de sexo (gratuitas) na primeira série de Outlander, era para desviar a nossa atenção de uma narrativa fraca e que se arrasta. A segunda temporada de Outlander leva-nos até Paris e Versalhes e para uma grande abstinência de sexo. Os níveis de violência gratuita também são consideravelmente mais baixos.

Para mim o problema de Outlander é que é uma série que promete ser de aventura com um toque de fantástico, na viagem no tempo, e romance mas acaba por ser intriga política pouco excitante, com uns toques de romance e pouca aventura. Na segunda série, como a narrativa se desenrola de forma menos emocionante, vêm à tona todas as falhas, que são essencialmente a nível da escrita de ficção. É no que dá deixarem este tipo de série em mãos norte-americanas.

É uma pena. Visualmente a série é muito boa, com ou sem liberdades criativas, bons e impressionantes cenários, naturais e de estúdio, um guarda-roupa bem pensado, uma fotografia bem iluminada, uma realização competente, actores convincentes, mas uma história que podia ser contada em metade dos episódios ou com reviravoltas mais excitantes. Ao 9º episódio, às vésperas da Batalha de Culloden, o suposto clímax da segunda temporada, dei por mim a ver a série por obrigação, para terminar de a ver e passar para o seguinte na lista (que é longa). Na primeira série a história também era mais estruturada, mas coesa, focada nos seus objectivos principais: Claire voltar à sua época e depois de se apaixonar, tentar evitar o massacre. Apesar de em Paris haver esse único objectivo, impedir a Batalha de Culloden, somos constantemente distraídos com subterfúgios e narrativas secundárias, inclusive no final na Escócia. Mas louvo o excelente cliffhanger com que termina, que vai com certeza levar-me a ver a terceira temporada, apesar da desilusão geral com Outlander.

Outlander

26 janeiro 2017

Debaixo dos Kilts

Quem me conhece sabe que sou parcial quanto à Escócia, que tenho um fetiche por tartan e kilts e que tenho um fraquinho pelo séc. XVIII. Portanto, mal saiu a série Outlander foi daquelas que foi logo para o topo das séries a ver. Infelizmente a vida real não me tem dado muita disponibilidade para ver grande coisa para além do habitual na TV, e como esta série não passou em nenhum canal em Portugal, só agora vi a primeira temporada. A segunda segue-se em breve, já que não são muito longas.

Até começar a vê-la, tinha muito boa impressão da série, ao contrário do meu hábito (odeio spoilers) já sabia toda a história e conhecia o lado visual principalmente através de um dos meus blogs preferidos actualmente, o Frock Flicks. Contudo as expectativas não eram exageradamente altas, portanto foi com alguma surpresa que dei por mim a não adorar a série, pois tinha quase tudo para eu adorar.

Visualmente Outlander cumpre todas as minhas expectativas, gosto do elenco, é um regalo ver as Highlands numa belíssima fotografia que não abusa dos filtros, a banda-sonora é agradável q.b. e a realização não é nada má. Gosto do compasso mais lento com que a história se desenrola, sem andar a encher chouriços, de terminar quase todos os episódios com algum tipo de cliffhanger, ou da narrativa não-linear do episódio do casamento. Mas, aqui é que vem o grande MAS, é uma 'série de gajas' e como maria-rapaz ferrenha que sou, tenho fraca tolerância a 'séries de gajas'. Não consegui gostar de Sex in the City apesar de gostar da temática, a Grey's Anatomy enjoa-me, aborreci-me com Desperate Housewives depois do entusiasmo incial e, mesmo tendo visto quase todo o E.R., nunca me encheu completamente as medidas. A primeira coisa que me enervou foi a narração ocasional, que é demasiado explicativa e que não faz falta nenhuma, principalmente nesta época de Wikipedia. Por mais que goste de sexo ou erotismo numa série de TV, goste de filmes de terror e seja pouco impressionável, acho parte do sexo na série demasiado sádico, violento e gratuito, mesmo entre a Claire e o Jamie. Principalmente gratuito e demasiado estilizado. Apesar de não ter visto (nem querer ver - acho que vou odiar) acho que essas cenas são dirigidas ao mesmo público de 50 Shades of Grey e eu definitivamente não faço parte desse público.

A decepção é mais a surpresa pela decepção que outra coisa, não estava mesmo nada à espera, achei que me estavam a impingir fan service e não gosto disso. De resto, a permissa e o modo como se desenvolve a narrativa são interessantes, deixaram-me curiosa e nem esta decepção me demove de continuar a ver e de ficar satisfeita ao saber que estão aprovadas a terceira e quarta temporadas. Mas os livros é que muito provavelmente ninguém me apanha a ler!

Outlander

25 janeiro 2017

Mudança de Paradigma

A minha última TV de cinescópio avariou há uns meses, mas felizmente o Pai (Mãe) Natal demorou mas foi generoso. Tenho uma TV LED/LCD, 32 polegadas, novinha em folha!

Durante o período em que estive sem TV, fui vendo as séries e outros programas no NOS TV, no computador, e isso foi a revelação da mudança de paradigma para mim como espectadora. Já via a grande maioria dos programas em diferido, através das gravações da box, mas com as limitações de ver no computador praticamente não vi nada em directo, nem os "filmes de ressaca de sábado à tarde". Esta mudança também tem mudado muito o que gostava mais na TV, a espontaneidade de não ter de escolher ou procurar, se bem que nunca fui muito de zapping, mas como agora há uma maior escolha, o que vou vendo reflecte-se mais nas minhas preferências e gosto pessoal.

A mudança passa por a partir de agora não me limitar a comentar neste blog programas vistos na TV, mas também séries ou outros que de alguma forma me chamaram a atenção, mas que por alguma razão não passam nos inúmeros canais a que temos acesso por cabo.

Portanto: TV nova, vida nova.

25 novembro 2016

Bloganiversário!

12 anos! Há 12 anos que criei o TV-Child e apesar da pouca actividade nos últimos anos, o blog não está morto... só moribundo ;D  A vida real tem me mantido um bocado afastada da blogosfera, também tenho tido alguma dificuldade em ver tanta televisão como de costume e tive alguns percalços que contribuiram para esta ausência.

Há cerca de um ano que o local onde alojava as imagens deste e dos outros blogs morreu, mas como já não usava o email correspondente, não tive qualquer tipo de aviso. Conto em breve voltar a tê-las online, mas é um trabalho moroso que ainda não tive disponibilidade de atacar como deve ser. Até lá, as minhas desculpas por o layout andar um bocado coxo.

Mais recentemente a minha TV avariou. A grandalhona já está avariada há uns 3 anos e agora com a avaria desta, estou sem televisão funcional e com um cemitério de televisões em casa :( Felizmente que nesta época tecnológca de boxes, wifi e internet de banda larga tenho podido ver TV, com limitações, através do PC, e conto em breve ter finalmente a minha primeira TV sem ser de cinescópio.

Quanto ao Doctor Who, decidi não blogar ontem, pois para além de a série estar num hiato e de eu gostar muito de Peter Capaldi como 12th Doctor, Steven Moffat, com a sua mania de explicar tudo, esmoreceu um bom bocado o meu entusiasmo pela série moderna. Mas como agora a direcção da série vai mudar de mãos, espero ganhar novo entusiasmo. Happy 53rd, Doctor!!


16 novembro 2016

Da Liberdade Criativa

Liberdade, Liberdade é uma daquelas novelas/séries brasileiras feitas para o Emmy. Em Lado a Lado resultou tão bem que realmente venceu o Emmy Internacional para a Melhor Novela. Este tipo de produção parte de uma inspiração histórica, com temas directamente ligados a períodos-chave na história do Brasil, a independência e a abolição da escravatura, respectivamente, unidos por uma trama com personagens de ficção, vagamente inspirados em personagens ou acontecimentos reais.

Enquanto que Lado a Lado conseguia ser mais lúdica na abordagem da transição para o modernismo e estava estruturada como uma novela normal, incluindo vários núcleos, como o clássico cómico como elemento de descompressão, Liberdade, Liberdade, na sua abordagem grave à luta pela indpendência do Brasil, é à partida mais desequilibrada, desconjuntada e difícil de digerir. Mas tratando-se de uma ficção, baseada em factos históricos, mas sobretudo uma ficção, não vou criticar muito por aí. A premissa é boa, a história de uma suposta filha do Tiradentes que serve de charneira para contar parte da história da independência do Brasil, dos Inconfidentes e do estado de Minas Gerais.

A liberdade criativa a que me refiro tem mais a ver com escolhas da direcção artística da novela, na sua grande maioria um pouco questionáveis.

Para começar: tanto banho que eles tomam! Numa época, início do séc. XIX, em que é sabido que se tomava um banho por mês, talvez um por semana, em que o fedor era disfarçado, por quem podia, com perfume e maquilhagem, os protagonistas desta novela tomam banho quase todos os dias, nobres ou ladrões. Eu sei porque é que estas cenas existem, é uma tentativa de apimentar a coisa com cenas de nudez (e sexo - sexo vende), e mostrar amiúde o belo traseiro de Mateus Solano (nham!), entre outros. Mas é inverosímil e ainda por cima inconsistente com a constante sujidade nas faces das personagens, um cuidado que foi decidido pela equipa de caracterização e maquilhagem da novela (ver site oficial).

Nem vou me alargar pela banda-sonora, que varia entre sons medievais entre o povo, o mesmo cão a ganir constantemente e valsas posteriores à época retratada.

Depois temos um guarda-roupa muito inconsistente e historicamente a atirar para todos os lados. O conceito do guarda-roupa feminino parece saído da mente de uma menina de 10 anos que se quer mascarar de "dama antiga" no Carnaval.

O guarda-roupa masculino é mais coerente, mesmo sendo muito mais fácil isso acontecer por a moda mudar mais lentamente que a feminina. Temos casacas do final do séc. XVIII a conviver com colarinhos levantados do período Império, que é plausível, dado estarmos numa província além-mar de Portugal, que nunca primorou por estar na vanguarda da moda, muito menos a masculina. Aqui, fora um ou outro detalhe, gosto das opções da equipa da novela e não me fazem confusão.
As roupas dos escravos ou população pobre em geral estão plausíveis q.b., utilizando o algodão, linho e lãs, em tons de terra e silhuetas simples. Fora, mais uma vez, um ou outro detalhe e talvez roupas de escravos demasiado maltrapilhas ou rasgadas, também não me chateiam.

Mas é no guarda-roupa feminino que a porca torce o rabo. Temos figurinos que abrangem um período na moda de quase 100 anos, o que mesmo com os atrasos previsíveis não é plausível. Vou contextualizar um pouco. No final do séc. XVIII e início do séc. XIX, um período de transição na moda, foi introduzida com as invasões napoleónicas e a sua utopia de um novo Império Romano, a silhueta Império de vestidos diáfanos de cintura subida, de inspiração romana. Dado a novela se passar na província do Brasil, na cauda da possível vanguarda da moda, é normal que famílias há muito sediadas em Minas Gerais, ou nas gerações mais velhas, se vejam com frequência silhuetas séc. XVIII. O que não é plausível é ver-se em mulheres nobres, vindas directamente de Paris ou mesmo de Lisboa, Robes-de-sac, os vestidos séc. XVIII que têm uma espécie de capa nas costas, do início a meados do séc. XVIII. Isto era o que se usava no final do séc. XVIII e era isso que eu esperava ver nas gerações mais velhas da nobreza ou classes abastadas da novela. Nas gerações mais novas esperava ver muitos algodões, linhos, talvez algum organdi e umas golas de renda, em silhuetas Império ou na fase anterior, coisas como Chemise à la Reine ou semelhante. Exemplos como estes. Ainda por cima no Brasil, com um calor dos diabos! Em vez disso vejo imensos híbridos, que não são nem carne nem peixe, que não seguem corrente de moda alguma, que são uma mistura de materiais estranha ou muito à frente da sua época, com chiffons, veludos, rendas elaboradas, pedrarias, silhuetas cintadas que mais fazem lembrar o final do séc. XIX e não o seu início.

Percebo que queiram apresentar arrojo e sensualidade à protagonista Rosa//Joaquina, doçura e romantismo à sua irmã/acompanhante Bertoleza ou desajuste espampanante a Branca. Fora Branca, que é a única jovem de origem abastada onde permitiria alguma margem, devido a ser um bocado louca, deslumbrada e fantasista, onde é que na moda do início do séc. XIX não há sensualidade, com tecidos transparentes e decotes generosos, ou romantismo em saias diáfanas e a possibilidade de muitas decorações florais. Os fatos tanto de Rosa como de Bertoleza são demasiado modernos, nos materiais como nas silhuetas e isso enervou-me tanto que me distraiu do principal, da narrativa. Nem os achei particularmente bonitos, eram demasiado vestidos de noiva para o meu gosto. A única personagem com uma silhueta Império correcta foi a Princesa Carlota Joaquina, se bem que com chiffon e pedrarias a mais para o meu gosto. Mas perdoo-lhes, ela era uma desbragada.

Os cabelos também sofrem da clássica falta de ganchos, como se queixam constantemente as moças do Frock Flicks, e uma ausência de chapéus ou toucas chocante para a época, especialmente os de Branca Farto, mas as perucas são muito boas e convenientemente decadentes.

Por fim temos o bordel, que é onde a imaginação vai de rédea solta. Lá temos uma conjugação de farrapos com materiais e cores nobres, caros e difíceis de arranjar, como veludos e cores intensas e escuras, com corpetes vitorianos e elementos steampunk... pois. OK, as prostitutas, tal como os bandidos, podem ser mais fantasistas, mas que haja alguma consistência. A moda-bordel pelos vistos é sempre igual, seja no séc. XVIII, XIX ou anos 20 (ver a nova versão da Gabriela).

Caramba, com os materiais que o Brasil tem, os meios topo de gama da Globo, decerto um exército de costureiras, um orçamento generoso, uma pesquisa fácil de fazer, não percebo esta tentativa de "realismo" muito pouco realista. Eu tenho imensa pena, pois os brasileiros da Globo já foram muito melhores nisso, já tiveram uma preocupação histórica muito mais séria, mesmo que por vezes implicasse os inevitáveis cetins de poliéster dos anos 80, que no vídeo NTSC ainda pareciam mais ofuscantes.

Contudo, gosto imenso de o Brasil andar a querer contar a sua história, mesmo que de um modo algo fantasista, mas gostava de ver maior coerência histórica, visual e entre equipas.

Liberdade, Liberdade

08 março 2016

5 Gajos Bons 2016

Depois de muito dar a volta à cabeça, ver as séries que tenho na box gravadas, ver listas de reposições a dar na TV, de até fazer uma lista preliminar, mas a meia-haste, dos meus 5 Gajos Bons no ar na TV a 8 de Março de 2016, este ano decidi não fazer lista!

Não deixei de ver TV, até recorri às telenovelas brasileiras, que em geral têm um bom stock de gajos bons, mas este ano a crise parece que atingiu os gajos bons também. Todos os gajos bonitinhos são demasiado deslavados e os outros... até podem ser bons actores, ter carisma, etc. etc., mas não se qualificam.

Para compensar, deixo-vos dois vídeos de outro gajo bom, mas da música, que sabe bem que o é!


29 fevereiro 2016

88 Oscars Politicamente Correctos - Parte II?

Para variar não vi quase nenhum dos filmes nomeados e muito provavelmente não irei ver a grande maioria, a não ser que passem na TV num sábado à tarde de ronha. Portanto, comecemos com o Red Carpet.

Saoirse Ronan
Este ano nenhum vestidinho me deixou de queixo caído, não houve grandes extravagâncias. As tendências foram, entre muitas, o bling da lantejoula, um bocado anos 70, e uma espécie da badana/folho horroroso, que fazia lembrar a cauda da Ariel, nalguns vestidos. Mas ao menos foi colorido. O meu preferido e o único que me saltou aos olhos, era simples, mas muito elegante: Saoirse Ronan, num dos blings de lantejoulas anos 70, em verde escuro. Os meninos sim, foram muito para o smoking de veludo. Também muito anos 70, mas com corte anos 60. Gosto.

Gostei do cenário dos Oscars, mais uma vez de inspiração Art Déco. Desta vez com muitos raios dourados e as estátuas do Oscar a fazer lembrar Budas dourados. A cerimónia está cada vez mais resumida, mas não mais curta, e os agradecimentos em rodapé tiram-lhe espontaneidade. Mudaram a ordem de entrega dos prémios, para uma "suposta" ordem de produção de filmes. Tudo bem, é-me indiferente. As caixas de texto com os nomes e filmes dos vencedores eram demasiado pequenas,  principalmente para quem, como eu, tem uma TV de 15', que aliás a SIC Caras fez o favor de cortar, não fazendo resize para ecrãs 4x3. Há quem não tenha carcanhol para uma LCD toda xpto, OK? A Cavalgada das Valquírias numa orquestração delicodoce para calar os vencedores? Não gostei.

Chris Rock sempre anima um bocado as coisas e a cerimónia foi menos aborrecida que o ano passado. Neil Patrick Harris até teve direito a uma boca relativa a isso. As piadas foram passando pela ausência de nomeados negros e, para compensar e ser politicamente correcta, a Academia lá pespegou muitos apresentadores negros. Os números musicais perderam o brilho de então e como, também para variar as canções nomeadas não me dizem nada... meh.

Nas nomeações só torci por Sandy Powell, nomeada duas vezes para Melhor Guarda-Roupa, mas mesmo assim não ganhou. Mad Max Fury Road ganhou uma catrefada de prémios, mas fugiram-lhe os grandes: Melhor Actriz, Melhor Actor, Melhor Realizador e Melhor Filme. Para variar a longa de animação foi para um filme em 3D, de quem? Da Pixar! Foi preciso estar em vias de bater a bota para finalmente darem um Oscar ao Maestro Ennio Morricone. Vergonha! Foi singelo o In Memoriam, com Dave Grohl na guitarra acústica, mas esqueceram-se do Oliveira e do Rivette... e gostei do discurso de DiCaprio, mas acho que só gostei mesmo dele no primeiro filme que vi: Gilbert Grape.

E lá se passou mais uma cerimónia de entrega dos Oscars, onde cada vez mais parece tudo encenado e comprado. Nem os discursos ou apresentações mais engraçados o são o suficiente para disfarçar a falta de idoneidade. Enfim, para o ano cá estarei, mas o nível de atenção é directamente proporcional ao nível de artificialismo da produção. Tenho a certeza que os Oscars andam a perder público mais depressa que o Doc Lisboa. Os Golden Globes são tão mais interessantes!

18 janeiro 2016

*trufas

Oh meu deus! Em Arrow alguém traduziu trifles por trufas!!! Nem vou comentar mais, esta é demasiado triste.

trifle
trufa

20 dezembro 2015

O que aconteceu ao "já vou!"?

Ultimamente, nas legendagens e dobragens televisivas, a expressão inglesa "I'm coming!" ou "coming!" tem sido sistematicamente traduzida por "estou a ir!". Mas que raio aconteceu ao "já vou!"?

Não estou com paciência para maçar ninguém com detalhes linguísticos, mas "estou a ir" soa mal é mais comprido do que "já vou" e o "já vou" era, até à chegada de tradutores preguiçosos, a expressão usada quando uma pessoa chama outra e a 2ª pessoa responde "já vou!".

Ninguém diz estou a ir... Em defesa do já vou! e de um português coloquial mais realista na televisão!
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