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10 abril 2026

Lâminas no Gelo

a magnífica Alysa Liu

 O título não é lá muito original, mas é honesto :P.

Até mais ou menos os anos 90 eu via a Patinagem Artística no Gelo fervorosamente, os Jogos Olímpicos de Inverno e os Mundiais de Patinagem Artística no Gelo, dentro das possibilidades que as TVs me ofereciam, em geral a RTP2 e uma excepção para 1984, ano em que vivi na ex-RDA, país onde eram bem mais fervorosos com a Patinagem que eu, e que coincidiu com a época de ouro da minha favorita de sempre: Katarina Witt. Resumindo, enquanto que na RTP via, quanto muito os programas longos e a gala, na ex-RDA papei tudinho: Figuras Obrigatórias, Programas Curtos, Programas Longos e a Dança. Confesso que a Dança nunca me entusiasmou muito, gosto mais das proezas atléticas dos Individuais e dos Pares. Foi a época dos Países de Leste e do Canadá, do escândalo da Tonya Harding e da Nancy Kerrigan, das primeiras japonesas no gelo, a Midori Ito, e da francesa Surya Bonali e os mortais.

Nos anos 90, apesar de ter a dada altura TV Cabo e o Eurosport, fui lentamente vendo cada vez menos, ou por que não atinava com os horários, porque não tinha uma K7 disponível para gravar, ou simplesmente por que não tinha disponibilidade. Até que nos anos 2000 perdi por completo o hábito, apanhando de quando em vez uma prova ou uma gala. A última vez que me lembro de ver a Patinagem com algum empenho foi quando a italiana Carolina Kostner estava a começar a subir ao pódio... Os únicos posts neste blog sobre patinagem são de 2006 e de 2018.

Felizmente este ano, com o entusiasmo no Instagram de duas amigas chamadas Ana (e que não se conhecem), consegui por toda a Patinagem no Gelo a gravar, não que o Eurosport ajude, pois as designações para por a gravar são extremamente vagas, e consegui ver quase tudo! Para mim os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026 foram os JOI da invasão asiática (e do boicote à Rússia por causa da guerra)! Não me lembro de ver tantos asiáticos nestas competições, a maioria da China, que já estavam em ascensão há uns 20 anos ou mais, da Coreia do Sul e também do Japão, onde esta modalidade cresceu em adeptos nas últimas décadas, sobretudo nos Individuais Masculinos. Mas também asiáticos a patinar por países Ocidentais, como a maravilhosa Alysa Liu, de etnia asiática, mas naturalidade norte americana. De notar que felizmente o Eurosport deixa mudar a língua e não tive que aturar as parvalhonas das portuguesas... mas já não temos os locutores britânicos "fantastic", apesar de os actuais serem super competentes (mesmo não conseguindo pronunciar os nomes japoneses). Por alguma razão que a razão desconhece, o Eurosport passou praticamente todo o campeonato de Patinagem, mas não passou a Gala dos vencedores. Vá lá que encontrei uns dias depois no YouTube e vi-a como deve ser com a ajuda do Chromecast.

Como já tinha reparado nos últimos Jogos Olímpicos de Inverno, agora a ligação espectador-patinador é muito mediada pelas redes sociais, no meu caso pelo Instagram, onde sigo alguns atletas há alguns anos e passei a seguir outros este ano. Não tenho nem quero ter TikTok, mas sei que também andam por lá. As regras continuam a confundir-me, acabo por só me concentrar nos totais e na posição em que os patinadores ficam após as provas, mas há uma certa lógica obscura que ainda não percebi. Felizmente as regras quanto às músicas e figurinos estão bem mais relaxadas, são permitidas canções com voz e todo o tipo de trajes, desde que, obviamente, não atrapalhem, o desempenho. Aliás, reparei em muitos patinadores de luvas, o que, para mim, faz todo os sentido e acho esteticamente agradável.

Vamos aos atletas, começando pela equipa japonesa, liderada por Kaori Sakamoto, que competiu nos Individuais Femininos pela última vez e era a grande aposta para o Ouro este ano. O Instagram de Kaori é uma festa! Ela é super divertida e fez uma cobertura completa das suas actividades olímpicas, além de apoiar incondicionalmente os colegas. Só conseguiu a prata e foi de cortar o coração vê-la aos prantos depois de determinados os campeões. Não foi um acto de egoísmo, ela queria sair em alta, mas Alysa Liu foi inquestionavelmente a justíssima campeã (mas já lá vou). E também ficou feliz pela sua concorrente directa, que cumprimentou sem ressentimentos. Depois foi a cara de surpresa da terceira classificada, a também japonesa, com cara de bonequinha, Ami Nakai, tanto ao completar um programa impecável, como com a classificação. Uma delícia! Continuando com a equipa japonesa, é um deleite ver Yuma Kagiyama (prata) patinar e o par Riku Miura e Ryuichi Kihara (ouro) tiveram um desempenho impecável e foi também uma delícia ver a cumplicidade de ambos com Kaori.

Dentro das outras nacionalidades houve outro desempenho praticamente perfeito, que foi surpresa para o próprio patinador, Mikhail Shaidorov, bastante novo nas provas olímpicas e que acabou por ganhar o ouro.

Alysa Liu. A história de Alysa Liu é, no mínimo, curiosa: o pai foi um dos dissidentes das manifestações na praça de Tien An Men, em 1989, que fugiu para os Estados Unidos, estudou e tornou-se advogado e ela e os irmãos foram gerados por doação anónima de óvulos e a família estava lá toda a torcer por ela. Apesar de uma carreira longa e promissora, após o Mundial de 2022, Alysa, no seguimento de um esgotamento, decidiu reformar-se como patinadora e seguir a sua vida. Mas eis que decidiu regressar à patinagem à sua maneira em 2024, até ganhar o ouro no Jogos Olímpicos de Inverno de 2026. O seu programa longo foi dos mais impecáveis que já vi, além de estar tecnicamente perfeita, patinou como se não fosse nada, com uma alegria contagiante e uma coreografia perfeita ao som de MacArthur Park, na versão mais disco de Donna Summer.

Não me lembro de ver um campeonato de Patinagem Artística no Gelo em que os atletas estivessem quase todos tão bem dispostos, tão leves e tão solidários com os colegas. Antes, enquanto esperavam as classificações, ou tinham expressões sérias, de frustração, fechadas ou apenas ofegantes, com um ocasional adeus às câmaras. Este ano não, parecia que estávamos a ver um grupo de amigos a conviver numa actividade que todos têm em comum. Foi como se fosse uma festa de cerca de 15 dias. Enquanto espectadora foi talvez isso que me entusiasmou mais e que me deixou mais colada ao ecrã este ano. Isso e ver o programa longo de Alysa Liu repetidas vezes... em loop...

Figure Skating at the Winter Olympics 2026

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