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29 janeiro 2018

Ficção-Científica Barroca

Mas não, não é o Flash Gordon, nem o Dune. É o Jupiter Ascending. Primeiro façamos uma pausa para apreciar como o título Jupiter Ascending é bom: tem pelo menos 2 interpretações imediatas: Júpiter em ascenção (astrologia), ascender a Júpiter e uma terceira interpretação após ver o filme: Júpiter a ascender; é fácil de traduzir sem perder os vários significados e é intrigante q.b.

Confesso que quando Jupiter Ascending estreou, não lhe dei muita importância, nem sequer percebi que é das Wachovski, mas passou este fim de semana no AXN, pelo que aproveitei a oportunidade para ver.

Trata-se de um filme bastante engraçado e mais inesperado do que pensava. Só achei uma coisa deveras irritante: a banda-sonora. Para além de a música não ser nada de especial, nem particularmente bonita, nem particularmente marcante, não há um miserável momento de silêncio no filme inteiro! Em cima disso, alguns dos efeitos sonoros, são muito irritantes e estão demasiado em primeiro plano, para não falar num clássico dos dias de hoje: os diálogos muito baixos em relação às cenas de acção, o que faz com que, em casa, tenhamos de estar constantemente a ajustar o volume. Creio que é suposto haver um certo equilíbrio, a não ser que haja alguma justificação estética ou narrativa. Neste caso, como em muitos outros, não se justifica e torna-se demasiado invasivo na experiência de ver o filme.

Mas vamos às coisas boas: gostei muito da história, tem algumas parecenças com o Flash Gordon, pessoa da Terra levada para um universo futurista barroco, com uma intriga política e de poder em curso, seres com asas, híbridos humanos com outros animais reconhecivelmente da Terra. O paralelismo que estabeleci com o Flash Gordon não é inocente, provavelmente se fizessem hoje um remake [vá-de retro, em equipa ganha não se mexe!] e se quisesse optar por uma estética igualmente barroca, provavelmente não seria muito diferente deste filme. Também noto algumas parecenças vagas com o Dune, nas lutas pelo poder e controlo de planetas inteiros.
Gostei como a narrativa toma um curso um pouco de conto de fadas de cabeça para baixo, lembra-me o Stardust nalguns aspectos. A ideia, já presente em The Matrix, de estarmos a ser manipulados por seres algures fora do nosso universo conhecido, não é original, mas é uma temática popular na literatura de ficção-científica, que é das minhas preferidas junto com as viagens no tempo, e é pouco usada em cinema. Obrigada manos/as Wachovski!
Também gosto, e gostei neste filme, da Mila Kunis, foi bem escolhida para este papel,tanto pela figura física, como pelo seu estilo de interpretação, mesmo sendo desejável que fosse um pouco mais que uma princesa em perigo, apesar do twist de uma mulher-a-dias ser a dona da Terra :D

Visualmente gosto de terem optado por um lado mais barroco, mas acho que, mesmo dentro do barroco, não simplificaram e há demasiada informação visual que não está lá a fazer nada. Mas neste caso é mesmo uma questão de gosto pessoal, e dentro do que se faz hoje, apesar de tudo, gosto do que vi, especialmente de alguns figurinos.

Jupiter Ascending passou um bocado despercebido e é pena, não é um filme brilhante, mas é bastante acima da média do que se vê por aí de filmes de acção/efeitos especiais e é muito bom de se ver.

Jupiter Ascending (imdb)

13 janeiro 2018

Portugal de Fachada

Oh, sim, está na hora de cascar!

Por acompanhar outras novelas no canal Globo, tenho apanhado uns rabinhos da novela Tempo de Amar e ando chocada com diversos aspectos desta novela.

Ando chocada, pois a novela passa-se 50 a 60% em Portugal algures nos anos 20-30 e:
- não tem um único actor português para amostra, nem o canastrão do Ricardo Pereira;
- já nem sequer ninguém faz o mínimo esforço de falar com uma pronúncia aportuguesada, nem de usar expressões idiomáticas típicas de cá, naquele registo irritante, cheio de chavões, mesmo que
- os regionalismos, sejam de cenários, nomes ou outros não fossem respeitados, não o são;
- existe um convento claramente nortenho, em pedra escura, com ar de granito, acho que até a vila/aldeia principal é perto do Porto, portanto provavelmente no Douro, contudo alguns nomes e os poucos regionalismos são mais característicos do Sul;
- até perdoaria o clássico preconceito de um estrangeiro a retratar outro país generalizando sem grande preocupação de fazer pesquisa, mas depois continuam a achar que os portugueses se tratam todos por "tu", independentemente da idade ou classe social;
- a vida quotidiana, em tempos árduos num Portugal muito conservador, é excessivamente romantizada onde seria bem mais interessante ampliar o drama da vida dura vigente, face à guerra iminente e a uma mentalidade cinzenta;
- o figurino das portuguesas é demasiado descascado para a nossa mentalidade fechada, quase nenhuma usa chapéu ou algo na cabeça, numa época onde ninguém saía de casa de cabeça descoberta;
- há uma estranha ausência de portugueses bigodudos na melhor oportunidade que tiveram de os ter sem se tornar num cliché cansado;
- foram buscar o Salvador Sobral, claramente uma manobra de mediatismo, pelo menos é português, mesmo que o estilo da canção não encaixe na época da novela, encaixa no lado romântico.

Enfim, o que ameniza isto tudo é que pelo que percebo pela narrativa, o Brasil também está retratado através desse filtro rosa-sépia e muitas das situações que já pude observar são descabidas e de um romantismo lamechas.

Mesmo assim acho vergonhoso terem a lata de passar esta novela em Portugal, só espero que tenham valores baixos de audiência... por cá.

Tempo de Amar

04 janeiro 2018

Do Politicamente Incorrecto


Comecei o ano a fazer uma mini-maratona de Little Britain enquanto ainda tinha o serviço NOS Play gratuito [acabou hoje - só vi 4 episódios de The Handmaids Tale :'( ]. Quando a série deu na RTP2 cheguei a ver alguns episódios e adorei, mas naquela altura tinha alguma dificuldade em lembrar-me do horário, acho que foi quando a Britcom passou de sábado para domingo, e acabei por não a ver com a fidelidade que gostaria. Infelizmente só consegui ver a 1ª série e metade da 2ª - estava a saber tão bem! - mas agora só quando a NOS der outra abébia destas, ou na candonga - o mais provável...

Enfim, que limpeza de cérebro, até o sinto a cintilar! Actualmente uma série destas geraria TANTOS problemas! Mesmo no Reino Unido!! Nudez frontal, preconceito, rudeza, insolência, racismo descarado, acho que a lista completa do politicamente incorrecto aplica-se! Mas tudo com aquela fleuma inglesa do: "insultas-me de alto abaixo, mas fá-lo tão bem que quero mais, mais!" Quando vi a série a primeira vez, quem me chamou mais a atenção da dulpa foi Matt Lucas, com aquela figura peculiar, principalmente na personagem the-only-gay-in-the-village Daffyd. Mas agora por quem me apaixonei foi por David Walliams, no seu escocês ("iyeeeeesss?"), nos seus travestis ("I am a lady, I do as a lady"), no Sebastian bichona, e todos os outros! É impressionante como ambos se transformam fisicamente, como ambos dão uma variedade tão grande de personagens e, principalmente, mulheres, como conseguem ser hilariantemente imbecis e iconclastas, como em cada episódio dei pelo menos uma bela e sonante gargalhada! Depois temos os convidados especiais, a narração brilhante a rebentar a 4ª parede de Tom Baker (sim, o 4º Doctor), o Ministro de Anthony Head, sim, "the bloke from Buffy", e como toda aquela insolência é tão divertida!

Tenho de deixar aqui a minha admiração embevecida pela qualidade impressionante das inúmeras perucas usadas pela dupla e também pelo guarda-roupa magnificamente pensado ao último detalhe!

Ver esta série com os olhos de hoje mostra como o mundo perdeu o sentido de humor e anda a levar-se demasiado a sério. Houve aqui um tipo qualquer de regressão, apetece dizer: "GROW UP!"

FELIZ 2018!!

28 dezembro 2017

Vermelho Sanguíneo

O desapontamento de 1 de Outubro de 1999 com The Phantom Menace teve um efeito positivo para mim, deu-me o distanciamento para  poder ver os novos filmes de Star Wars com o coração de fã, mas os olhos críticos de cinéfila. The Last Jedi reforça esse distanciamento e faz-me ver estes novos filmes disneificados de Star Wars como uma espécie de fanfiction com qualidade de Star Wars (The Force Awakens e The Last Jedi) que nem precisam de grande contextualização no universo Star Wars e, nos dias de hoje, com tudo o que se tem passado nos bastidores empresariais, considero isso uma qualidade. Há uns miminhos para os fãs da antiga, nas presenças dos "velhos amigos de então", na Millenium Falcon e no fangirling de Kylo Ren ao avô, Darth Vader, mas estes filmes destacam-se do resto e é assim que escolhi vê-los, para poder disfrutar dos mesmos sem os olhos toldados pelo purismo e preconceito de um fã.

** CUIDADO, SPOILERS! ** 

 
A primeira coisa que me chamou a atenção, logo nos trailers, em The Last Jedi foi o minimalismo estético no uso de uma paleta muito reduzida de cores (preto, branco e vermelho sanguíneo), opção nunca tomada nos filmes anteriores, com uma estética mais naturalista, mesmo que com um grande enfoque no preto e no branco. Em ambas as primeiras trilogias notava-se que havia várias mãos a criar o universo visual, mesmo que com coesão, a tendência era mostrar uma diversidade naturalista acima de tudo, principalmente nos episódios I, II e III, o que resulta nalguma salganhada visual no todo dos filmes. The Last Jedi faz o oposto, praticamente não existem mais que aquelas três cores (preto e branco não são cor, mas por uma questão prática chamo-lhes assim neste post), excepto talvez em Skellig Michael (não me lembro do nome da ilha na ficção) e no cabelo lilás de Laura Dern (Holdo). O resultado é uma sala do trono de Snoak, deslumbrante, com o vermelho polido e no planeta  Crait, com uma superfície branca de sal com rochas escarpadas pretas, que escondem um solo de cristais do mesmo vermelho sanguíneo, com um efeito ultra dramático e espantoso!
O curioso é que já tinha havido uma tentativa ténue desse formalismo em The Force Awakens, mas dessa vez com preto, branco e laranja, aliás uma das cores mais presentes em toda a saga. Mas o laranja não é dramático, principalmente nada dramático por comparação com aquele tom específico de vermelho e o tratamento polido, como do preto e do branco, a que foi sujeito. Na trilogia original as cores foram usadas de forma mais básica, branco para a luz, preto para o lado negro, na evolução de Luke, branco-cinzento-preto, e o pontuar de vermelho nos sabres dos Sith e nos Guardas Imperiais.

Mas não é apenas de forma visual que o filme é diferente, para além de John Williams ainda estar em grande forma, "aquele" minuto de silêncio durante a destruição da fortaleza da First Order, é puro génio e muito ousado para um blockbuster, especialmente se pensarmos que agora é Disney. O público da pipoca tem tendência a não aceitar estas opções, o silêncio, numa cena tão forte como essa é muito mais dramático que qualquer música. Quem faz opções destas conhece o material com que trabalha, sabe usar a linguagem cinematofgráfica. Aliás, durante The Last Jedi temos vários exemplos de uma boa realização, Rian Johnson é um nome a fixar, gostei muito do seu desempenho como realizador neste filme.

O argumento, tendo a difícil tarefa de ser o "filho do meio", também é bastante superior a The Force Awakens e surpreende na quase total ausência de previsibilidade. Este é um filme difícil de fazer spoilers. Aliás, a direcção que estes filmes tomaram, com a ausência de um verdadeiro vilão, com heróis cheios de defeitos e não tendo um único fio condutor, é sem dúvida arriscada, desviando do modelo clássico da "Jornada do Herói", de Joseph Campbell.

Mas nem tudo é fantástico neste filme, as personagens goody-two-shoes de Finn e Rose não fazem lá falta nenhuma, a informação que Finn fornece é mínima e podia vir de outra fonte qualquer, para além disso são ambos irritantes até dizer chega. Confesso que quando Finn se lançou contra o canhão, quis que morresse, e quando Rose se lança sobre Finn para o salvar, ficando ferida, também quis que morresse.  Mesmo todo o capítulo da invasão da fortaleza, mais as cenas à James Bond do casino, mesmo com Benicio Del Toro, não fazem falta nenhuma à história, excepto darem utilidade à Capitão Phasma e introduzirem as criancinhas como uma nova esperança. O uso da palavra "hope" também foi exagerado, à terceira já tinhamos percebido o leitmotiv, que pelos vistos conduz ao último filme. Parece que querem fechar o círculo.

Falando em "new hope", Carrie Fisher teve um último desempenho como Princesa Leia sólido, convincente e, sabendo o que sabemos, comovente. O Luke envelhecido, com um toque de impertinência à Yoda é engraçadíssimo, mas nota-se que Mark Hamill aprendeu muito nestes anos e tornou-se num actor seguro e consolidado. Nunca fui fã de Luke, sempre o achei muito pueril, mas neste filme sou e muito. Rey é uma aprendiz estranha, não aprende grande coisa, no fundo está lá para nos mostrar este Luke, mas por outro lado, quando age sozinha, ou contracena com Kylo Ren, regressa a personagem forte introduzida no filme anterior, mas sem sardas. Adam Driver, e mesmo o modo como a personagem de Kylo/Ben se desenvolve, é intrigante e deixa a curiosidade como será o desenlace desta história. O duelo, luta contra os ninjas vermelhos é um espectáculo, mesmo que eu permaneça fiel ao traje dos Guardas Imperiais originais. Este é terrível! Este filme tem definitivamente personagens a mais, Poe começa em grande, mas a inclusão de Rose a camartelo, dispersa a função da personagem dele, como se o condenassem a um trabalho de secretária. BB-8 está melhor que nunca, mas deu alguma pena ver R2-D2 tratado como um velho cansado, quase sem um papel activo nesta história, largado como um móvel velho, a um canto da Falcon. C3-PO também tem um papel diminuído,sem grande utilidade, mas mesmo assim com mais presença que R2.  As raposinhas de cristal são fixes e os Porgs, nunca mencionados pelo nome, não são irritantes e se forem é só fazer como o Chewie, dar-lhes um safanão.

O filme é bastante divertido, apesar de ter toda uma sequência que não faz falta e de dispersar um bocado, não o acho longo ou dificil de suportar (mas eu sou suspeita, sou conhecida por aguentar filmes de 6 horas), tem uma boa montagem, bem ritmada, e deixa curiosidade suficiente para saber como será o terceiro. E deixou-me com aquela sensação de satisfação, que nos deixa quase encandeados ao sair da sala de cinema. Depois de ver The Last Jedi, The Force Awakens, que achei um filme engraçado, mas nada de especial, melhorou aos meus olhos e percebe-se que há aqui um conceito de conjunto sólido para os três filmes.

Star Wars: The Last Jedi

22 dezembro 2017

"Fuck!"

Queria ler o livro primeiro, tenho-o cá para ler, mas ainda só vou a um terço do Vanity Fair e não sei que conspiração é a da NOS, mas The Handmaid's Tale por enquanto é de graça no NOS Play, portanto já vi os dois primeiros episódios. Só espero que não passe a ser a pagantes a meio da série para eu ter de a deixar pendurada...

É bom, é muito bom! Eu já sabia mais ou menos a permissa, portanto não foi surpresa, mas, para além dos chamativos trajes das Handmaids, gostei da abordagem de inserirem pequenos detalhes num quotidiano aparentemente normal, pessoas vestidas de igual, uma contenção geral, o aparente puritanismo,  o compasso lento que nos obriga a prestar aenção aos detalhes, e depois a narração contrastante com a acção, "Fuck!"

Só não percebi a divergência no grafismo dos nomes, eles dizem Offred, mas nas legendas escrevem "Defred". Será uma tradução? Nem que seja com uma visitinha à Wikipedia, percebe-se o significado de "of[inserir nome masculino]"... enfim, opções "criativas", mas perdem-se os segundos significados que a palavra "offred" implica.

Não posso dizer muito mais sem fazer spoilers (dos dois primeiros episódios), mas The Handmaid's Tale já me apanhou pela sua estranheza singular, e depois, apesar de não haver grandes cliffhangers, opá, quero saber o que acontece a esta gente! Para já é tudo, mas se conseguir ver a série toda, ou quando houver desenvolvimentos chave, provavlmente postarei aqui.

The Handmaid's Tale

12 dezembro 2017

A Tentação do Lado Negro


Seja pela comemoração dos 40 anos de Star Wars, seja pela estreia esta semana em sala de The Last Jedi, o certo é que até 2 de Janeiro a NOS criou um canal, o 700, que passa Star Wars, em contínuo, 24/7. Em vez de ter a TV sintonizada na Rádio Oxigénio em permanência como de costume, agora é Star Wars o dia inteiro!

Como se percebe, sou fã de Star Wars,  muito ferrenha até à adolescência, que esmoreceu um pouco, fiquei desiludida com The Phantom Menace e passei a ver os filmes novos sem grandes expectativas por causa disso. De todos os 7 filmes até à data, a minha trilogia preferida é a primeira (IV, V e VI) e o meu filme preferido é The Empire Strikes Back. Vi todos os três primeiros filmes pelo menos 3 vezes no cinema, em 70mm, 4 o Empire, mais as Special Editions,e pelo menos uma de cada foi no antigo Cinema Monumental (bom o Return of the Jedi não dava, já tinha sido demolido) e as restantes no Cinema Condes, não inteiramente demolido, mas remodelado e já não é cinema (aquela cortina T_T).

Nos primeiros dias não conseguia largar o canal, mas só vi um filme inteirinho: The Empire Strikes Back. Basicamente o 700 está a passar, por esta ordem: Rogue One, A New Hope, The Empire Strikes Back, The Return of the Jedi, infelizmente as Special Editions, The Phantom Menace, The Attack of the Clones, The Revenge of the Sith. Entre cada filme passam featurettes com alguns dealhes dos efeitos especiais ou decisões criativas de cada filme e entre cada ciclo passam 2 documentários, um acerca da mitologia em Star Wars, The Legacy Revealed, e o outro mais estilo making of, Empire of Dreams. Estes documentários também vi completos e com atenção. Infelizmente não passam o The Force Awakens, faz alguma falta, mas provavelmete os direitos de exibição em TV ainda têm de ser a pagantes.

Ver estes filmes que conheço tão bem desta forma fragmentada tem sido uma experiência engraçada e tenho reparado em coisas que de outra forma nunca repararia: as vezes e o modo como James Earl Jones (Vader) diz "dess-tíníii", como a banda-sonora em geral (música+diálogos+efeitos) é coerente e não tem picos desagradáveis e histriónicos, como no primeiro filme Mark Hamill (Luke) e Carrie Fisher (Leia) dizem os diálogos de um modo mais televisivo, como a voz de Natalie Portman muda conforme está em modo Amidala ou ou Padmé, adoro a dicção enrolada dela como Amidala. E a coda musical de The Return of the Jedi é a mais pomposa de todas ou o curto trecho maravilhoso no genérico final de The Empire Strikes Back, samplado pelos Renegade Soundwave, continua a ser o meu trecho favorito das cerca de seis horas de música.

Ver de forma fragmentada e não-linear também me faz perceber os plot holes e as coisas inúteis (Jar-Jar Binks, anyone?), ou como Padmé é despachada a dizer "Luke", "Leia", apesar de ter acabado de parir e estar às portas da morte, ou como o R2-D2 e o C3-PO são enfiados a camartelo nas prequelas. Mas as falhas não são assim tantas e a grande maioria está na segunda trilogia (I, II e III). Outra coisa que percebi é que as coisas que não gosto, continuo a não gostar, como o erro de casting que foi Aiden Christensen e o miúdo que faz de Anakin. A falta completa de empatia entre Aiden e Natalie agrava ainda mais a falta de talento dele, as deixas românticas dele soam ainda mais patéticas do que já são, como a explicação excessiva não faz falta para a compreensão do todo, ou as músicas novas nas Special Editions destoam face ao resto, e assim sucssivamente.

Páro para ver as minhas cenas favoritas, a entrada de Darth Vader na nave de Leia, basicamente todo o Empire Strikes Back, adoro o cenário da ponte de comando do Star Destroyer de Darth Vader e o seu capacete mais reluzente que nunca; toda a cena de Jabba the Hutt, o guarda-roupa magnífico de Pamé Amidala, as naves espelhadas, as explosões sonic boom de Obi-Wan, Darth Maul a lutar como ninguém, etc.

Ainda quero rever Rogue One como deve ser, gostei bastante do filme o ano passado, quero ver como amadureceu na minha memória.

Canal NOS

14 junho 2017

À Moda do Império... Ou Não

A época do Império está na moda no Brasil, mas a moda Império não parece conseguir vingar nas produções da Globo. Depois da interpretação altamente fantasiosa de Liberdade, Liberdade, agora chega Novo Mundo, ambos passados nas primeiras décadas do séc. XIX, e a sensação de um trabalho desleixado pervalece, ainda mais que na sua antecessora. É uma pena.

Vou falar primeiro do que gosto. O trabalho de actores, principalmente o esforço de alguns actores brasileiros para falarem em português de Portugal é de louvar, principalmente o de Caio Castro, que desempenha o papel de D. Pedro I. Juro que estou impressionada! Menos impressionada estou com o esforço dos argumentistas em usar o vocabulário correcto, bastava ler Gil Vicente ou Camilo Castelo Branco, não estaria muito longe disso. Até há bem pouco tempo, principalmente nas camadas da nobresa portuguesa, absolutamente ninguém se tratava por "tu". Não precisava de ser um texto vicentino, mas uma adaptação, até porque é bastante parecido com o actual português do Brasil. Mas como os brasileiros adoram reduzir os portugueses a um punhado de clichés, não é de admirar. Impressionada também estou com o trabalho de Letícia Colin, como Princesa Maria Leopoldina da Áustria, que soube adoptar lindamente todos os tiques de uma nativa da língua alemã a falar português.

Numa novela com tanta personagem portuguesa, é triste averiguar que a grande maioria dos actores portugueses envolvidos na produção tenham papéis tão secundários ou curtos. A pobre Joana Solnado mal aqueceu o lugar! Já não vejo o Ricardo Pereira há que tempos e a coitada da Maria João Bastos já morreu. Mesmo Paulo Rocha tem um papel secundário em toda a trama, apesar de ser o grande antagonista político de D. Pedro. Enfim, mais uma vez somos reduzidos a um punhado de padeiros de bigode...

Agora os aspectos verdadeiramente negativos, o design de produção, em particular o guarda-roupa. Alega o director artístico da novela, Vinícius Coimbra, que pesquisou e inspirou-se nas gravuras da época do francês Jean Baptiste Debret, estive a ver uma série de gravuras dele, disponíveis online aqui, e pouca coisa corresponde ao que se vê na novela. Há consideravelmente menos porcaria, as ruas das cidades são na grande maioria calcetadas (dá menos trabalho desenhar um chão de pedra que de terra), os escravos não têm um ar maltrapilho, mas vestem um traje muito semelhante ao típico das baianas, e as senhoras mais abastadas estavam completamente na moda. Creio que as gravuras sejam bastante realistas, os índios são apresentados praticamente nus, órgãos sexuais à mostra. O seu intuito foi claramente o de uma documentação mais científica que artística, e não me parecem ter sofrido grande censura, seja ela de uma moral puritana ou da parte do artista. O que me surpreendeu foi o comprimento das saias, em geral um palmo mais curto do que o que se vê nas gravuras de moda da época (francesas, inglesas ou americanas).

Também temos que ver que, ao contrário de Liberdade, Liberdade, Novo Mundo não é uma novela realista, mas uma adaptação algo leve e satírica de factos históricos, aliados a uma narrativa principal de ficção. Portanto uma certa estilização seria bem aceite e deixar a porcaria na pocilga.

Já o director artístico insiste num aspecto maltrapilho e porcalhão da população em geral e até mesmo da nobreza. Apesar de usar um figurino historicamente correcto em Maria Leopoldina, o ar desleixado da combinação sempre à mostra, do cinto torto, o vestido mal ajustado, são muito pouco plausíveis numa dama da nobreza, de origem austríaca, mesmo que num Brasil quente ou falido. Até porque falamos numa epoca em que a moda eram vestidinhos leves de cambraia de algodão, o mais indicado para aquele clima. A personagem fictícia de Anna Millman, desempenhada por Isabelle Drummond, usa uma silhueta mais ou menos adequada, mas tecidos demasiado modernos, longe do que era a moda, e os cabelos sempre soltos, nem um carrapito ou uma trança para fazer figura. E como é que Anna está sempre impecavelmente ensaboada no meio daquele desleixo e imundície? Ah e as cinturas descaídas nos homens, um detalhe completamente moderno, do séc. XX-XXI, enquanto que a moda eram calças com a cintura quase no pescoço?

Eu aceito personagens fantasiosas, como os piratas, eu aceito personagens claramente grotescas como os donos da tasca, aceito fatos repetidos, pois a corte estava falida, aceito uma certa simplificação do guarda-roupa, pelas mesmas razões, até aceito certas liberdades nos figurinos, como as de Anna, não fosse o desleixo transversal e sem uma justificativa nem na cartacterização das personagens, nem na narrativa. A Princesa manteve uma criada pessoal mesmo depois do corte nas despesas, isto na narrativa da novela. Não há razão para andar mal arranjada. Para um bom guarda-roupa da época Império, vejam Pride and Prejudice, de 1995, da BBC!

O que mais me surpreende é que o Brasil, país produtor de algodão, com um leque rico em artesanato de rendas, crochets e bordados, não os usa a seu favor e cria um guarda-roupa que provavelmente até lhes saíria mais barato, uma boa montra do que se faz no país, para além de genuíno? Dizem que fizeram pesquisa, até caem na asneira em citar a fonte principal de inspiração e depois o resultado está bem longe da mesma... intrigante, ou falta de brio? Rigor histórico ou caprichos da vaidade? História ou caricatura? Se a caracterização física estivesse mais correcta e fosse mais subtil, menos grotesca, a narrativa sobressairia mais e a novela resultaria mais sofisticada.

Novo Mundo
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