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14 junho 2017

À Moda do Império... Ou Não

A época do Império está na moda no Brasil, mas a moda Império não parece conseguir vingar nas produções da Globo. Depois da interpretação altamente fantasiosa de Liberdade, Liberdade, agora chega Novo Mundo, ambos passados nas primeiras décadas do séc. XIX, e a sensação de um trabalho desleixado pervalece, ainda mais que na sua antecessora. É uma pena.

Vou falar primeiro do que gosto. O trabalho de actores, principalmente o esforço de alguns actores brasileiros para falarem em português de Portugal é de louvar, principalmente o de Caio Castro, que desempenha o papel de D. Pedro I. Juro que estou impressionada! Menos impressionada estou com o esforço dos argumentistas em usar o vocabulário correcto, bastava ler Gil Vicente ou Camilo Castelo Branco, não estaria muito longe disso. Até há bem pouco tempo, principalmente nas camadas da nobresa portuguesa, absolutamente ninguém se tratava por "tu". Não precisava de ser um texto vicentino, mas uma adaptação, até porque é bastante parecido com o actual português do Brasil. Mas como os brasileiros adoram reduzir os portugueses a um punhado de clichés, não é de admirar. Impressionada também estou com o trabalho de Letícia Colin, como Princesa Maria Leopoldina da Áustria, que soube adoptar lindamente todos os tiques de uma nativa da língua alemã a falar português.

Numa novela com tanta personagem portuguesa, é triste averiguar que a grande maioria dos actores portugueses envolvidos na produção tenham papéis tão secundários ou curtos. A pobre Joana Solnado mal aqueceu o lugar! Já não vejo o Ricardo Pereira há que tempos e a coitada da Maria João Bastos já morreu. Mesmo Paulo Rocha tem um papel secundário em toda a trama, apesar de ser o grande antagonista político de D. Pedro. Enfim, mais uma vez somos reduzidos a um punhado de padeiros de bigode...

Agora os aspectos verdadeiramente negativos, o design de produção, em particular o guarda-roupa. Alega o director artístico da novela, Vinícius Coimbra, que pesquisou e inspirou-se nas gravuras da época do francês Jean Baptiste Debret, estive a ver uma série de gravuras dele, disponíveis online aqui, e pouca coisa corresponde ao que se vê na novela. Há consideravelmente menos porcaria, as ruas das cidades são na grande maioria calcetadas (dá menos trabalho desenhar um chão de pedra que de terra), os escravos não têm um ar maltrapilho, mas vestem um traje muito semelhante ao típico das baianas, e as senhoras mais abastadas estavam completamente na moda. Creio que as gravuras sejam bastante realistas, os índios são apresentados praticamente nus, órgãos sexuais à mostra. O seu intuito foi claramente o de uma documentação mais científica que artística, e não me parecem ter sofrido grande censura, seja ela de uma moral puritana ou da parte do artista. O que me surpreendeu foi o comprimento das saias, em geral um palmo mais curto do que o que se vê nas gravuras de moda da época (francesas, inglesas ou americanas).

Também temos que ver que, ao contrário de Liberdade, Liberdade, Novo Mundo não é uma novela realista, mas uma adaptação algo leve e satírica de factos históricos, aliados a uma narrativa principal de ficção. Portanto uma certa estilização seria bem aceite e deixar a porcaria na pocilga.

Já o director artístico insiste num aspecto maltrapilho e porcalhão da população em geral e até mesmo da nobreza. Apesar de usar um figurino historicamente correcto em Maria Leopoldina, o ar desleixado da combinação sempre à mostra, do cinto torto, o vestido mal ajustado, são muito pouco plausíveis numa dama da nobreza, de origem austríaca, mesmo que num Brasil quente ou falido. Até porque falamos numa epoca em que a moda eram vestidinhos leves de cambraia de algodão, o mais indicado para aquele clima. A personagem fictícia de Anna Millman, desempenhada por Isabelle Drummond, usa uma silhueta mais ou menos adequada, mas tecidos demasiado modernos, longe do que era a moda, e os cabelos sempre soltos, nem um carrapito ou uma trança para fazer figura. E como é que Anna está sempre impecavelmente ensaboada no meio daquele desleixo e imundície? Ah e as cinturas descaídas nos homens, um detalhe completamente moderno, do séc. XX-XXI, enquanto que a moda eram calças com a cintura quase no pescoço?

Eu aceito personagens fantasiosas, como os piratas, eu aceito personagens claramente grotescas como os donos da tasca, aceito fatos repetidos, pois a corte estava falida, aceito uma certa simplificação do guarda-roupa, pelas mesmas razões, até aceito certas liberdades nos figurinos, como as de Anna, não fosse o desleixo transversal e sem uma justificativa nem na cartacterização das personagens, nem na narrativa. A Princesa manteve uma criada pessoal mesmo depois do corte nas despesas, isto na narrativa da novela. Não há razão para andar mal arranjada. Para um bom guarda-roupa da época Império, vejam Pride and Prejudice, de 1995, da BBC!

O que mais me surpreende é que o Brasil, país produtor de algodão, com um leque rico em artesanato de rendas, crochets e bordados, não os usa a seu favor e cria um guarda-roupa que provavelmente até lhes saíria mais barato, uma boa montra do que se faz no país, para além de genuíno? Dizem que fizeram pesquisa, até caem na asneira em citar a fonte principal de inspiração e depois o resultado está bem longe da mesma... intrigante, ou falta de brio? Rigor histórico ou caprichos da vaidade? História ou caricatura? Se a caracterização física estivesse mais correcta e fosse mais subtil, menos grotesca, a narrativa sobressairia mais e a novela resultaria mais sofisticada.

Novo Mundo

24 abril 2017

Do Legado de um Rei





Todas as séries com intriga política e palaciana têm de ser seguidas com atenção, Versailles, na RTP1, merece-o. Para além da dita intriga, que obriga a essa atenção, a série é mesmo muito boa a todos os níveis: um elenco muito competente e de babar, um guarda-roupa e cenários deslumbrantes, uma fotografia quase mágica, uma banda-sonora inebriante e uma realização inteligente.

A narrativa e a acção em Versailles fluem sem solavancos, montadas na intriga, sem quebras apbrutas, num encadeamento quase estonteante, mas mostrando muito mais. Tudo aqui é justificado e mostra-nos, usando brilhantemente a ficção e a História, para mostrar-nos como Luís XIV se tornou o Rei-Sol e como o palácio ficou como testemunho disso. Na primeira série já tinha começado a introduzir-se os vários conceitos vanguardistas introduzidos por Luís e a sua corte, o ballet, o fogo-de-artifício, a culinária, a arquitectura, os jardins, a etiqueta, a comparação ao Sol, o Iluminismo, mas é agora na 2ª série que isso é levado a 100%, tendo o momento do eclipse solar (no GIF acima) um excelente exemplo de como a realização aproveitou muitíssimo bem esses elementos. Mal posso esperar pelo resto da série, pois promete ser tão gloriosa como decadente! Venha!!

Versailles, la série

27 fevereiro 2017

89 Oscars... que deram barracada!

Para variar vi muito poucos filmes nomeados, alguns por opção, La La Land, que graças à cerimónia dos Oscars descobri que o título português é o incompreensível La La Landa (???) [acho que já está na hora do IGAC empregar alguém que saiba português para dar títulos aos filmes], outros que vi porque tinha de ser, Rogue One, mas a grande maioria nem me despertou a atenção.

O Red Carpet começa a tornar-se repetitivo, principalmente agora que os vejo quase todos, e, no caso dos Oscars, demasiado conservador, com um ou dois vestidos interessantes. Já não tenho grande paciência para comentar, excepto a tendência para smokings de veludo nos homens, eu sou sempre a favor de veludo.

Este ano o cenário foi menos interessante, mais uma vez com inspiração Art Déco, mas, digamos, mais piroso. Gostei dos Oscars cortina de cristais, calculo eu, Swarovsky, funcionaram lindamente em televisão.

A cerimónia dos Oscars começou morna, continuou morna e terminou morna, só que não. Um engano, uma troca de envelopes, anunciando erradamente La La Land como melhor filme do ano, o Oscar era para Moonlight, foi o auge da excitação dos Oscars 2017. Sim, houve momentos engraçados, os doces de páraquedas, o miúdo de Lion, a visita guiada, uma ou outra apresentação mais espirituosa, mas pouco discurso político, ficando nas mãos dos directamente afectados, o realizador iraniano ausente de The Salesman, Gael Garcia Bernal, mexicano, declarando que muros dividem, etc. etc. etc. Nem me lembro de ouvir a musiquinha nos discursos mais longos. Houve discursos mais longos? A piada recorrente foi como Meryl Streep é sobrevalorizada e pouco mais. Gostei dos "mean tweets". Gostei dos emparelhamentos de actores mais novos com os que os inspiraram.

Enfim, viu-se, mas não foi muito divertido. Tragam a Ellen de volta!

Oscars

14 fevereiro 2017

Primeiras Impressões

É raro, muito raro, eu blogar apenas depois de ver um episódio de uma série, mas Legion, na FOX, deixou-me impressionada!

Para começar esteticamente a série é brutal! Todos os cenários são escolhidos a dedo, numa arquitectura modernista de meados do séc. XX, filmados de acordo, com muitos planos simétricos onde se proporciona, ou a aproveitar muito bem os volumes arquitectónicos, lembrando muito os filmes de Jacques Tati. O guarda-roupa e a banda-sonora correspondem à arquitectura, o guarda roupa muito mod anos 60 para 70, a banda-sonora jazzy moderna, com electrónica à mistura. Este formalismo dá-nos uma sensação de insólito e irreal, que reforçam e apoiam muito bem a narrativa.

E depois vem a história. Muito intrigante, a jogar com o que pode ou não ser real e com a esquizofrenia do protagonista, colando-nos ao ecrã e ao mesmo tempo põe-nos a sofrer de angústia por não se perceber inteiramente o que se está a passar.

Passei o episódio inteiro: "eu conheço este tipo!", é Dan Stevens, o Cousin Matthew de Downton Abbey, mas o contexto completamente oposto e o sotaque americano impecável desnortearam-me. Claro que conheço o Dan Stevens! Eu fui uma das que fez luto por Matthew em Downton.

Bom, agora resta-me esperar ansiosamente pela próxima semana. Espero que o nível de qualidade se mantenha. Desde Heroes que não ficava tão entusiasmada com uma série do género, ficção-científica/super heróis, mas mesmo Heroes não me encheu tanto as medidas à partida.

Legion

04 fevereiro 2017

As Manas dos Moors

Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais) é o meu livro preferido. Quando estive em Haworth e visitei o Brontë Parsonage Museum, achei que a vida das irmãs Brontë dava um filme tão bom como qualquer dos seus livros. Eis que a BBC, para o 200º aniversário de Charlotte Brontë, produziu To Walk Invisible, que conta parte dessa história.

Primeiro gostaria de afirmar que os cenários, guarda-roupa, recriações da aldeia, etc. estão impecáveis e quem tenha visitado os mesmos dificilmente separa os locais reais da sua respectiva recriação, indispensáveis devido a alterações sofridas ao longo do tempo nos locais reais. Isto é particularmente importante no que toca aos cenários principais, a Parsonage e o cemitério ao lado, que estão bastante diferentes do que eram no tempo das Brontës, o cemitério está cheio de árvores frondosas, a casa teve um grande acrescento e actualmente inclui equipamento próprio da casa-museu que é. A grande maioria da mobilia e objectos pessoais, recolhidos pela Brontë Society, pode ser vista na casa-museu.

O filme conta o pedaço das suas vidas de adultas, entre decidirem ser publicadas até à morte de Branwell, o irmão. Logo de início é estabelecida uma atmosfera fantasmagórica, digna dos seus livros, com a primeira cena das crianças a brincar em Gondal, o mundo criado pelos quatro, ainda presente nos minúsculos livrinhos feitos à mão, no museu. Apesar de o resto da história ter pouco de sobrenatural, não é muito mais que biográfica, essa atmosfera mantém-se na fotografia, no clima húmido do Yorkshire e na banda-sonora. O secretismo a que elas se obrigaram, devido às dificuldades em serem reconhecidas pela sua obra e não pelo seu sexo, é o tema principal da história, e o grande dilema das irmãs, que escreviam compulsivamente. A decadência de Branwell serve como catalisador, primeiro para o secretismo e depois para a grande revelação ao mundo, que os autores daqueles livros escândalosos afinal eram mulheres!

Gostava que tivessem dado um pouco menos de protagonismo a Branwell, e mais aos moors [a tradução portuguesa é "charneca", mas como a nossa charneca é muito diferente dos moors, prefiro deixar no original] e a cada irmã individualmente. Quem tenha visitado a região e, naturalmente, tenha lido algum livro das Brontës, percebe facilmente de onde vem tanta paixão contida, aquela paisagem é avassaladora. Para variar, quase só dão voz a uma Charlotte mandona, Emily é caracterizada como bicho do mato e Anne como a boazinha. Duvido que qualquer uma delas pudesse ser reduzida a tão pouco. Gostei como Emily estava sempre atarefada com os afazeres da casa, apesar de não ser necessário, devido à criada que trabalhava para a família. Era o seu modo de descarregar energia. Isso e caminhadas nos moors. Ah, o cão, o cão retratado por Emily em movimento, num desenho exposto no museu.

Quem goste e admire as Brontës, com certeza apreciará este filme, quem apenas goste de dramas de época, talvez o ache um pouco singelo, não há um grande romance e a tragédia é mais caseira, mas continua a valer a pena, é mais uma prova que a BBC ainda dá cartas em produções de época.

BBC One - To Walk Invisible

03 fevereiro 2017

Debaixo dos Saiotes

Já percebi para que serviam as cenas de sexo (gratuitas) na primeira série de Outlander, era para desviar a nossa atenção de uma narrativa fraca e que se arrasta. A segunda temporada de Outlander leva-nos até Paris e Versalhes e para uma grande abstinência de sexo. Os níveis de violência gratuita também são consideravelmente mais baixos.

Para mim o problema de Outlander é que é uma série que promete ser de aventura com um toque de fantástico, na viagem no tempo, e romance mas acaba por ser intriga política pouco excitante, com uns toques de romance e pouca aventura. Na segunda série, como a narrativa se desenrola de forma menos emocionante, vêm à tona todas as falhas, que são essencialmente a nível da escrita de ficção. É no que dá deixarem este tipo de série em mãos norte-americanas.

É uma pena. Visualmente a série é muito boa, com ou sem liberdades criativas, bons e impressionantes cenários, naturais e de estúdio, um guarda-roupa bem pensado, uma fotografia bem iluminada, uma realização competente, actores convincentes, mas uma história que podia ser contada em metade dos episódios ou com reviravoltas mais excitantes. Ao 9º episódio, às vésperas da Batalha de Culloden, o suposto clímax da segunda temporada, dei por mim a ver a série por obrigação, para terminar de a ver e passar para o seguinte na lista (que é longa). Na primeira série a história também era mais estruturada, mas coesa, focada nos seus objectivos principais: Claire voltar à sua época e depois de se apaixonar, tentar evitar o massacre. Apesar de em Paris haver esse único objectivo, impedir a Batalha de Culloden, somos constantemente distraídos com subterfúgios e narrativas secundárias, inclusive no final na Escócia. Mas louvo o excelente cliffhanger com que termina, que vai com certeza levar-me a ver a terceira temporada, apesar da desilusão geral com Outlander.

Outlander

26 janeiro 2017

Debaixo dos Kilts

Quem me conhece sabe que sou parcial quanto à Escócia, que tenho um fetiche por tartan e kilts e que tenho um fraquinho pelo séc. XVIII. Portanto, mal saiu a série Outlander foi daquelas que foi logo para o topo das séries a ver. Infelizmente a vida real não me tem dado muita disponibilidade para ver grande coisa para além do habitual na TV, e como esta série não passou em nenhum canal em Portugal, só agora vi a primeira temporada. A segunda segue-se em breve, já que não são muito longas.

Até começar a vê-la, tinha muito boa impressão da série, ao contrário do meu hábito (odeio spoilers) já sabia toda a história e conhecia o lado visual principalmente através de um dos meus blogs preferidos actualmente, o Frock Flicks. Contudo as expectativas não eram exageradamente altas, portanto foi com alguma surpresa que dei por mim a não adorar a série, pois tinha quase tudo para eu adorar.

Visualmente Outlander cumpre todas as minhas expectativas, gosto do elenco, é um regalo ver as Highlands numa belíssima fotografia que não abusa dos filtros, a banda-sonora é agradável q.b. e a realização não é nada má. Gosto do compasso mais lento com que a história se desenrola, sem andar a encher chouriços, de terminar quase todos os episódios com algum tipo de cliffhanger, ou da narrativa não-linear do episódio do casamento. Mas, aqui é que vem o grande MAS, é uma 'série de gajas' e como maria-rapaz ferrenha que sou, tenho fraca tolerância a 'séries de gajas'. Não consegui gostar de Sex in the City apesar de gostar da temática, a Grey's Anatomy enjoa-me, aborreci-me com Desperate Housewives depois do entusiasmo incial e, mesmo tendo visto quase todo o E.R., nunca me encheu completamente as medidas. A primeira coisa que me enervou foi a narração ocasional, que é demasiado explicativa e que não faz falta nenhuma, principalmente nesta época de Wikipedia. Por mais que goste de sexo ou erotismo numa série de TV, goste de filmes de terror e seja pouco impressionável, acho parte do sexo na série demasiado sádico, violento e gratuito, mesmo entre a Claire e o Jamie. Principalmente gratuito e demasiado estilizado. Apesar de não ter visto (nem querer ver - acho que vou odiar) acho que essas cenas são dirigidas ao mesmo público de 50 Shades of Grey e eu definitivamente não faço parte desse público.

A decepção é mais a surpresa pela decepção que outra coisa, não estava mesmo nada à espera, achei que me estavam a impingir fan service e não gosto disso. De resto, a permissa e o modo como se desenvolve a narrativa são interessantes, deixaram-me curiosa e nem esta decepção me demove de continuar a ver e de ficar satisfeita ao saber que estão aprovadas a terceira e quarta temporadas. Mas os livros é que muito provavelmente ninguém me apanha a ler!

Outlander
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