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22 agosto 2021

Bem Bom


Continuo em Portugal dos anos 80, mas uns aninhos para trás. Tarde e a más horas, finalmente consigo escrever sobre Bem Bom, o biopic sobre as Doce, a mais épica girlsband portuguesa.
Eu, que raramente fixo letras de música, preciso das canções a tocar para me lembrar até das minhas preferidas, ao longo da vida fixei duas ou três, excepto das Doce, onde sei as letras inteiras, das canções mais populares. Está tudo dito, sempre fui fã das Doce, desde os 11, 12 anos, pelo que a escandaleira à volta delas me passou um pouco ao lado, e ainda bem. Lembro-me só de se dizer muito mal da "loira das Doce", que era uma badalhoca ou coisas piores, mas não me lembro da difamação abordada no filme em concreto, mas que terá sido o que gerou tal má língua dirigida a ela e à banda em geral.

As Doce foram uma conjugação inusitada e mágica de boas ideias, a maioria muito arrojada para o Portugal cinzento, e acabaram por ser pioneiras em muitas coisas que, um pouco depois e lá fora, tiveram o dobro ou o triplo do sucesso que elas tiveram. Foi demasiado cedo? Talvez. No país errado? Definitivamente! Mas uma coisa eu digo desde o esmorecer e depois fim da banda, elas mereciam mais, sobretudo respeito!

O filme de Patrícia Sequeira consegue mostrar-nos tudo o que nós, pré-adolescentes e adolescentes da época nos lembramos e aquilo que nos era vedado. Conta a história da banda, desde a sua construção até vencerem o Festival da Canção, de forma linear, clássica e realista. É um filme muito competente, que poderia estar ao lado de outros biopics semelhantes, mas com uma produção hollywoodesca. Assim de repente, lembro-me de uma série deles, uns melhores que os outros, mas muito poucos passados nos anos 80. Gostei muito da mise-en-scéne, gostei da montagem ágil, tem pormenores muito bonitos e bem feitos. O argumento é sólido e aborda muito bem os preconceitos e escândalos que rodearam as Doce. A única coisa que me pareceu, desde o início do filme, muito fora do contexto, foi a secretária, sempre tímida e submissa, para no fim ter um discurso motivacional um bocado forçado. Mesmo a interpretação da actriz foi, dos papéis mais recorrentes, a que menos gostei. Forçado é a única palavra que encontro para a descrever.

O elenco é quase perfeito! Quase todos os actores principais partilham grandes semelhanças físicas com as pessoas que retratam e o resto foram cabelos e maquilhagem. Nem sei como conseguiram encontrar alguém tão parecido com o Tozé Brito, que tem uma fisionomia muito invulgar. Só o Mike Sargeant era mais magro e mais bonito que o actor que o retrata. Até fiquei, "ah pois, é ruivo, tem de ser o Mike Sargeant", mas a figura dele era mais vistosa que no filme.
As interpretações, sobretudo das quatro actrizes, Bárbara Branco (Fátima Padinha), Lia Carvalho (Teresa Miguel - a "ruiva"), Carolina Carvalho (Lena Coelho) e finalmente, Ana Marta Ferreira (Laura Diogo), são impecáveis, sobretudo quando penso que a maioria tem navegado, mais ou menos anonimamente, pelas águas estagnadas das telenovelas em grande parte das suas carreiras. Reconheço as caras de todas, mas concretamente só me lembro do trabalho de Ana Marta Ferreira, que provavelmente vi pela primeira vez, miúda, na Floribella. Já não acompanho novelas portuguesas há imenso tempo, mas cheguei a ver algumas séries juvenis. O restante elenco também tem um bom desempenho, fora a já mencionada secretária. 

Em termos visuais, destaco uma direcção de fotografia muito bonita, com cores de pedras preciosas e uma luz que lembra os bares à antiga de Lisboa, como o Snob ou o Procópio.
Divido os figurinos em duas partes, os figurinos à civil e os dos espectáculos. Os dos espectáculos estão perfeitos, executados magistralmente pela Miss Suzie, com quem me cruzei no secundário. Com certeza que ela teve imenso gozo em recriá-los, e isso nota-se! Os figurinos à civil têm um pequeno desfasamento, mas creio que foi uma decisão criativa, para gerar coerência visual. O filme começa em 1979, mas Fátima Padinha já veste blusões e camisolas que só se popularizaram cerca de 1982. Mas como é uma sequência relativamente curta e introdutória, não me chateia, pois estabelece a caracterização visual de Fátima. Fora essa pequena incoerência, as peças usadas parecem todas genuínas, mesmo que não o sejam, e estão consistentes com o que raparigas de 20 anos vestiam na altura e com as próprias Doce. Os figurinos dos homens, mais conservadores, também estão consistentes com a época, mas é bem mais fácil, já que mudou relativamente pouco desde então. Depois foi engraçado ver as manobras mirabolantes que José Carlos teve de fazer para trazer tecidos de espectáculo, na candonga, para Portugal. Não foi pormenor que pudesse deixar passar, pois era mesmo assim. Nos anos 80, em Lisboa, havia 5 vezes mais lojas de tecidos que agora, os tecidos eram de boa qualidade, mas a variedade era pouca. Lembro-me bem, quando comecei a comprar tecidos, de haver muito pouca coisa com brilhos ou malhas além da lycra, era quase tudo na base dos algodões, linhos e fazendas, e coisas como boás de penas ou tecido de lantejoulas eram caras e raras. Ainda hoje é difícil encontrar alguns desses materiais mais exóticos nas lojas mais antigas que sobreviveram. E depois havia a questão da importação. A malta hoje queixa-se da alfândega, mas naquela época era pior. Numa viagem a Inglaterra em 1983, eu vi uma meloa a ser confiscada no aeroporto inglês, pois era proibido levar comida fresca para o Reino Unido. Tinha a ver com o facto de não haver raiva nas ilhas britânicas, ou assim me disseram.

Antes de ir ver o filme, estava receosa de ter aquela visão feminista moderna, de #metoos e afins (nada contra, mas não queria que um filme sobre uma girlsband se tornasse num instrumento militante), mas achei a abordagem aos problemas que as meninas tiveram de enfrentar justa e elegante. Também gostei de vir a saber melhor o que se passou com Laura Diogo, o ser humano é realmente mesquinho! Espero sinceramente que ela esteja em paz com a vida e que aquele evento nojento tenha deixado de pesar. Ninguém merece!

No geral, também foi emocionante e muito divertido fazer esta viagem ao passado tão bem feitinha e cantar as músicas sempre que surgiram no filme. O filme merece todo e mais algum destaque que tenha tido e espero que este modesto post, leve mais alguém a ver o filme.

Bem Bom (imdb)

08 agosto 2021

Duarte & C.ª

Duarte & C.ª é provavelmente a série de televisão portuguesa mais icónica de sempre. Com meios de produção reduzidíssimos, mas boas ideias e bons desempenhos dos actores, conseguiu-se um equilíbrio de dois géneros que os portugueses raramente abordam de forma satisfatória, a comédia e o policial. Temos bons actores de comédia, mas a comédia, como género televisivo, é quase sempre abordada de forma boçal e medíocre e raramente em ficção. Com o orçamento de uma carica e um cordel, mas graças ao empenho de todos os envolvidos, onde muitos elementos da equipa técnica também participavam como actores secundários, um produtor/realizador extremamente inventivo e uma escrita genial, criou-se uma série que ficou na memória e no coração de quem a viu nos anos 80 e também de quem a viu depois. Qual é a outra série portuguesa, com mais de 30 anos, que permaneceu assim no imaginário nacional?

Infelizmente, tanto a RTP, como exibidora, ou a Castello Lopes, como editora dos DVDs, nunca deram o tratamento merecido a uma série tão popular e querida do público. Restou-nos a RTP Memória, cuja programação é de louvar, que voltou a exibir a série, do primeiro ao último episódio, no início deste ano. Mesmo assim, o que custa às televisões respeitarem o formato original, 3:4, e emitirem os episódios assim? Felizmente podemos mudar o formato na maioria das televisões modernas, mas não deixa de ser uma seca. A RTP Memória não é a única, a Globo, que também transmite muitos programas ainda no formato 3:4, também raramente os emite correctamente. 

Que gozo me deu rever a série! Provavelmente foi a primeira vez que a vi inteira, aliás, lembrava-me melhor da primeira série que da segunda, que já devo ter visto com muito pouca regularidade. A quantidade de ideias brilhantes por episódio é extraordinária, a começar com os bandidos/mafiosos a fazer terapia, anos valentes antes dos Sopranos! Mas há mais, o 2CV a andar sozinho, as mulheres violentas, os bandidos adoráveis, o cientista louco...

Também foi tão bom rever excelentes actores que já nos deixaram, a começar pelo excelente António Assunção, o Tó, o Canto e Castro, o Carlos Daniel, numa participação já no final da série, o Tino Guimarães, que conheci uns anos depois e com quem trabalhei. E outros que felizmente ainda estão connosco, como a Ana Nave, ou a Helena Isabel, ainda umas bebés, ou o Carlos Alberto Moniz, que foi uma espécie de ídolo musical na minha infância. 

É de lamentar a fraca qualidade técnica, sobretudo no som e imagem, mas que acrescentam ao carisma anos 80 de Duarte & C.ª e tornam a série única. Se tivesse um som e imagem impecáveis, já não era a mesma coisa e talvez não tivesse tanta piada. Aliás, a dada altura resolveram assumir o baixo orçamento e qualidade técnica, passando a fazer parte da narrativa cómica. 

Também foi giro rever Telheiras e Alvalade, os bairros de Lisboa mais reconhecíveis na série, como eram nos anos 80. Telheiras, para onde fui viver mais ou menos nessa época,  mas que vi nascer, ainda novinho em folha, os prédios com a pintura original, as árvores novas, as ruas sem trânsito e sem ninguém; Alvalade é o meu bairro do coração e que conheço como a palma da minha mão, e que foi filmado principalmente na minha zona preferida, na Avenida do Brasil e ao pé dos Bombeiros. 

Como em qualquer outra obra que tenha algum tipo de crítica social, em Duarte & C.ª são os salários em atraso, a falta de dinheiro geral, a entrada de Portugal na CEE, é sempre desconcertante constatar como tão pouco mudou, sobretudo na mentalidade das pessoas... Portugal ainda está na mesma.

Duarte & C.ª (IMDB)

23 julho 2021

*junípero

Tenho andado a ver a série de documentários The Balmoral Hotel: An Extraordinary Year,sobre o Hotel Balmoral, em Edimburgo. É impossível ignorar o Balmoral por quem visita Edimburgo. Das duas vezes que lá estive, sonhava com uma estadia no Balmoral nas inúmeras vezes que passei em frente do hotel, passagem obrigatória para quem vai de Princes Street para a South Bridge. É à esquina. Actualmente, o Balmoral é tão importante em Edimburgo como o castelo ou a torre de Walter Scott.

A série é muito interessante, mostra com detalhe o funcionamento do Hotel e todos os rituais que lá acontecem. Infelizmente a tradução não está à altura. O/a tradutor(a) cai em quase todos os false friends, traduz imensa coisa literalmente ("experienciar")e espalha-se ao comprido no que toca às tradições britânicas ou escocesas. Um conceito que lhe é desconhecido é o de high tea e low tea. High tea foi traduzido algo como "chá de alta qualidade", já não me lembro. Uma pequena pesquisa iria explicar que a diferença entre high e low tea é simplesmente a altura da mesa. Low tea é chá servido em mesinhas baixas, estilo aquelas que se costuma ter em frente aos sofás, e high tea é servido em mesas de altura normal. Não tem nada de extraordinário e o que é servido não depende da altura da mesa.

E o "junípero"? Bom, outra asneira de quem teve demasiada preguiça para ir ao dicionário. Juniper, o ingrediente principal do gin, traduz-se zimbro. OK, no dicionário também está junípero, mas zimbro é o uso mais comum e também é o ingrediente principal da poção mágica no Astérix,  mas pelos vistos quem traduziu não leu o Astérix. Será que a poção mágica afinal é gin? Se for, estou lixada, detesto gin! 

juniper (Encyclopaedia Britannica)

zimbro

27 junho 2021

*estradas ventosas

Gordon Ramsey faz-se à estrada pelas montanhas de Maui, em Gordon Ramsey: Uncharted, e as estradas são ventosas... Até podiam ser, mas estão mais para o sinuosas, como as estradas em montanhas costumam ser.

Ramsey falava em winding roads, uma olhadela para o ecrã ou uma curta consulta ao dicionário esclareciam isso.

winding

26 maio 2021

Imortais e Artes Marciais


Para um franchise que adoro, conjuga duas das minhas paixões, a Escócia, tartan e homens e kilt, e esgrima, principalmente a esgrima japonesa, comecei com o Highlander aos tropeços. Não vi o primeiro filme no cinema, lembro-me do hype, das minhas colegas do secundário todas babadas com o filme, talvez tenha sido por isso que não o fui ver ao cinema, apesar de o Christopher Lambert ser um dos meus actores preferidos na altura. Acabei por nunca o ver numa sala de cinema.

Já o segundo filme fui ver numa das últimas vezes, se não a última, em que fui ver um filme ao Cinema Império. Já sabia que mais cedo ou mais tarde a sala acabaria por fechar, essas últimas vezes que lá fui, foram para aproveitar a sala. Sempre que havia um filme que me interessasse em cartaz, eu ia vê-lo. Todas as vezes que lá fui nessa altura, estavam 3 pessoas numa sala de 3000 lugares. Eu, o meu companheiro de cinema e um estranho, em geral na secção da sala onde não estávamos. Lembro-me bem do filme, era um bocado mais fantástico que o primeiro, não achei tão bom (entretanto já tinha visto o primeiro na TV), mas achei plausível e diverti-me a vê-lo.

Nessa época, já tinha a vontade de ver filmes de artes marciais, principalmente os do Bruce Lee, mas, como rapariga, eram filmes a que não tive muito acesso, a única coisa do género que consumi apaixonadamente foi a série The Water Margin (Li Chung, em PT) e Os Jovens Heróis de Shaolin, nos Verões no Alentejo. Portanto, actor preferido, Escócia e artes marciais, com sabre e espadas, o que mais queria eu?

Como não vi os filmes todos, e só vi um no cinema, foi com a série, já nos anos 90, que pude satisfazer parte dessa vontade. Mas, ainda na era do VHS, com horários televisivos pouco estáveis, também não consegui ver a série Highlander inteira e a eito. Agora, com a reposição na RTP Memória, finalmente vi tudo.

Vamos por partes.

Quando recomecei a ver a série, estava muito espantada por a achar muito melhor do que me lembrava. Realmente, a primeira temporada é mesmo muito boa, introduz bem o protagonista e as outras personagens, tem uma narrativa interessante, que conjuga muito bem os canons de Highlander, o quotidiano e uma narrativa romântica, e os actores, fora o Richie (que actor e personagem mais irritantes!), funcionam bem juntos. Alexandra Vandernoot, a Tessa, é bastante boa actriz e tinha uma boa empatia com Adrian Paul. Adrian Paul, para além de ser bem giro e comestível e não ser de todo mau actor (apesar das más linguas dizerem o contrário), nota-se que percebe de artes marciais. Numa série onde os duelos com espadas e a sobrevivência são o tema principal, isso é fundamental e foi onde Christopher Lambert não primou tanto. A primeira série é sucinta, variada e bem realizada. Nota-se também a mão europeia na produção, isso reflectiu-se no seu carisma.

O problema é que resolveram matar a Tessa e a tensão amorosa e o dilema principal de Duncan, de, como imortal, partilhar a vida com uma mortal, evaporou-se. As séries subsequentes variaram entre o imortal do dia e uma pseudo comédia um bocado pateta. Também começaram a ser mais recorrentes e às vezes irritantes, os flashbacks históricos. Escócia, que é bom, quase nada, infelizmente. Para compensar a ausência de drama geral, os efeitos de som e dos quickenings, foram ficando cada vez mais espampanantes. Houve uma altura, acho que na terceira temporada, em que cada vez que um imortal se aproximava, parecia que se ouvia pianos a cair de cima de prédios. Nos quickenings, o fogo de artifício é cada vez maior, e até uma casa, de madeira, que Duncan estava a restaurar, é completamente demolida. Depois entraram num misticismo exagerado, com direito a maldições milenares, quatro cavaleiros do apocalipse e sei lá que mais.

Por outro lado, as personagens recorrentes de Amanda, Fitz (Roger Daltrey, dos The Who), e Methos, em parte também a personagem Joe Dawson, apimentaram de maneira simpática a narrativa. Se bem que a narrativa dos Watchers não é tão dramática como a de Tessa, mas é mais sustentável por muitos episódios. No início achei Amanda um bocado enfiada à força, mas acho que conseguiram dar-lhe a volta e acabou por complementar bem o sorumbático Duncan. Também foi fixe ver, por ser uma co-produção francesa, actores europeus, na altura pouco conhecidos, como uma Marion Cotillard adolescente, entre outros.

O guarda-roupa histórico, surpreendentemente, não é nada mau, principalmente o dos homens. Suponho que haja mão das casas de guarda-roupa europeias nisso. Já nas mulheres, há bastante cetim de poliéster e penteados anos 80. Devem ter ido buscar os figurinos ao Amadeus! Foi pena terem-se concentrado principalmente em 2 ou 3 épocas, sécs. XVII, XVIII e XIX, e depois até à II Guerra Mundial. Anos 50 a 70, ou mesmo 80, quase nada. Também tenho pena, tendo explorado tantas aventuras imortais, não haver mais pormenores de como mudaram de identidade para poderem continuar a fingir que são mortais. Há quase sempre coisas implícitas, mas esquemas do que fizeram, fora a morte francesa de Richie e a canadiana de Duncan, ou quando Duncan vai recolher uma fortuna em juros do "bisavô", pouco mais há. O lado da aprendizagem das artes marciais também é pouco explorado, assim como a adopção de Duncan de uma katana em vez da espada escocesa que usava antes. Há dois ou três episódios que explicam isso, mas podiam ter sido arcos narrativos completos, em vez de alguns episódios muito repetitivos.

Por fim, há o "efeito Sailormoon". Eles devem guardar as espadas dentro deles de forma mágica, pois na maioria das vezes é impossível terem-nas escondidas na roupa, mesmo nas gabardinas compridas e etc... A facilidade com que transportam armas brancas entre continentes também é curiosa. A excepção é mesmo o Duncan, pois é antiquário. E para onde vão os imortais decapitados? Nos filmes a polícia investiga um serial killer, na série há duas ou três tentativas de uma intriga policial, mas na realidade, parece que ninguém repara. Na minha memória difusa da série, os corpos desintegravam-se com o quickening, o que seria uma maneira plausível de resolver a questão, mas afinal não. Os corpos ficam lá, e ninguém desconfia. É suspensão da descrença a meio gás.

A série final é a mais pobrezinha de todas, mas o episódio duplo final, mesmo com a narrativa "como seria o mundo sem mim?", é satisfatório q.b. De qualquer maneira, gostei muito de rever a série e vou ficar com saudades de lavar os olhos com um Adrian Paul sorumbático e herói romântico, antes de ir deitar. Agora seria bom rever os filmes e ver os que não vi. Tenho de fazer umas buscas na box...

Highlander Wiki

26 abril 2021

93 Oscars Art Déco

A pandemia obrigou a organização dos Oscars a grandes mudanças, se quisessem manter uma cerimónia ao vivo, e realmente foram grandes!
Stephen Soderbergh e a sua equipa consultaram especialistas, escolheram um novo e inusitado local, a Union Station, uma estação de comboios funcional, no centro de L.A., limitaram os convidados e testaram toda a gente. Os grandes átrios e pátios da estação art déco foram redecorados, e o átrio maior, que serviu de sala para o evento, com cabines e mesinhas em socalcos para os convidados, um palco baixinho com uma cortina azulão com cordões dourados, como pano de fundo. Fez lembrar os clubes nocturnos dos anos 20-30, onde se deram as primeiras cerimónias dos Oscars. Gostei muito! Gostei de se encaixar como uma luva no estilo art déco da estação, parecia que sempre foi assim, gostei da elegância e ao mesmo tempo simplicidade do décor. Porque se tratou de um décor, construído para a ocasião.

A cerimónia deu-se nos mesmos moldes "simplificados" do espaço. Com as performances musicais a decorrer num espaço e tempo à parte, No terraço do Museu de Hollywood, ainda a inaugurar. Essa foi a parte que tive mais pena, de não se assistir, aos concertos durante a cerimónia, mas posso vê-los depois, se fizer mesmo questão. 

Já volto à cerimónia,  mas quero despachar a outra grande mudança, de volta à emissão pela RTP. A RTP resolveu não seguir o exemplo e fazer uma apresentação comedida, e criar uma coisa aparatosa no Cinema São Jorge. Podem argumentar que assim estão a apoiar a cultura em Portugal, ao usar uma das salas mais usadas em Lisboa, só que não. Quem trabalha no Cinema São Jorge, trabalha para a EGAC, a empresa da Câmara que gere a área da cultura em Lisboa. Essas pessoas estão a contrato e, durante a pandemia, mesmo não havendo eventos na sala, receberam o seu ordenado, que vem do mesmo sítio que os das pessoas da RTP, o Estado. O programa da RTP teve 3 fases/núcleos: a ante-estreia do filme Minari (?), antes da cerimónia; uns caramelos a comentar o que se comenta nas redes sociais e a Catarina Furtado e o Mário Augusto, sentados no foyer superior do São Jorge, com 4 doses de convidados (aos pares), a comentar as cerimónia. O Mário Augusto continua o mesmo boçal de sempre. Que insistência idiota foi aquela do cinema clássico? Isso já não existe! A Catarina Furtado a mesma parvinha que sempre foi. Quando teve a Ana Rocha à frente, só soube perguntar-lhe porque o filme dela não foi candidato aos Oscars. Cringey! Que vergonha! Felizmente a Ana Rocha parece ser inteligente e deu uma boa resposta. E nem todos os convidados fizeram o trabalho de casa: Joana Barrios, moça com quem simpatizo bastante, confundiu o estilo de Paco Rabanne com o de Pierre Cardin. Ambos são do "space age", ambos são contemporâneos, mas tiveram estilos bem diferentes! Vindo de alguém convidada como especialista em moda, é mau. Depois Jorge Paixão da Costa quis andar na picardia com Vicente Alves do Ó, por questões parvas de gosto. Felizmente o Vicente não lhe deu corda, mas o homem não se calava! Há um fosso de diferença entre um cineasta e um cinéfilo, são poucas as pessoas que são ambos.
Felizmente, felizmente, apesar de não mostrarem rigorosamente nada do Red Carpet, a comitiva tuga não se sobrepôs quase nada à cerimónia. Mas depois o extra do After Party foi ainda pior que o Red Carpet, era só ouvir aquela malta no blá blá blá... Mas foi fixe ver lá o Artur Ribeiro, espero que o filme dele finalmente estreie em breve. 

Carey Mulligan, em Valentino

O Red Carpet. Vi sobretudo fotografias, foi simples e pequeno, pois o número de vedetas convidadas era consideravelmente inferior. Os vestidos tenderam outra vez para os dourados, e foi muito bom ver uma boa percentagem dos homens a usar um estilo menos clássico, com rosa choque e dourado entre algum veludo. Adoro veludo! Gostei particularmente bastante do de Carey Mulligan e da Zendaya.

A cerimónia começou bem, com um genérico funky anos 70, e música a condizer. A orquestra foi eliminada e tiveram um DJ, o que tornou tudo mais leve e menos chato. A música era disco, pop, funk e pontuou muito bem as apresentações e discursos. Já ninguém aguentava aquela musiquita dos Oscars! Os discursos fluíram, não foram interrompidos, foram interessantes na maioria, e com conteúdo, sem precisaremde ser provocadores. Houve alguns agradecimentos aos pais, mas cada vez menos a Deus. Ufa! Quando se via a plateia, via-se sempre os vestidos de Carey Mulligan e de Amanda Seyfried x'D E adorei o anticlímax final, deixaram o melhor actor para o fim, sim, trocaram a ordem toda à entrega dos prémios, provavelmente a achar que Chadwick Boseman iria ganhar postumamente, em que Anthony Hopkins venceu, sem estar presente na cerimónia, nem sequer aceitar em vídeo. 5h da manhã no Reino Unido, o senhor estava sossegadinho na cama! Hahaha!

Estava a pensar, quando vi o alinhamento, yay, este ano temos direito a after party, e depois a menina Catarina e Ca. não nos deixaram ver! Cada vez menos me preocupo em ver os filmes antes sa cerimónia, não é necessário. A cerimónia tem tido a função de me mostrar quais os filmes me podem interessar ver, e é assim que a vejo agora. Interessei-me por The Father e Manx. Gostei bastante desta cerimónia, gostei do formato mais simples. Via-se toda a gente e nem senti muita falta de um apresentador e piadinhas fora de prazo. Só tive pena, como já disse, de os números musicais não estarem incluídos no tempo da cerimónia, mas tivemos uma pequenina rábula mais ou menos a meio. Nos últimos anos, mesmo sem pandemia, a cerimónia tinha se tornado uma grande seca, não me lembro de quase nada da do ano passado. Mas andava cansativa, com coisas a mais, este formato é bom, seria bom se o mantivessem.

15 junho 2020

O Último Estertor da Hollywood Clássica


Este mês, a FOX Movies resolveu fazer um ciclo de filmes de Jerry Lewis e eu resolvi revê-los, pois já não via nenhum desde os anos 90, época em que também passava o The Jerry Lewis Show, o seu programa de variedades, na nossa TV.
Passaram os filmes, por ordem cronológica: Rock-a-Bye Baby, The Geisha Boy, Cinderfella, The Ladies Man, The Nutty Professor, Who's Minding the Store, The Patsy, The Disorderly Orderly, The Family Jewels, Boeing, Boeing e Ja, ja, mein General! But Which Way to the Front?. Filmes do final dos anos 50, início dos 60. The Nutty Professor passou com o título português As Noites Loucas de Dr. Jerryl, mas eu lembro-me bem de ver o filme em cartaz com o título O Professor Chanfrado. Em que ficamos?

Tal como os filmes de cordel, estes filmes têm uma fórmula básica: Jerry Lewis faz sempre de trapalhão ingénuo, que conquista a sua felicidade no final. É quase sempre uma personagem plana, mas que muda o status quo à sua volta. Costuma ter um interesse romântico, na pele de uma menina jeitosa, loirinha, um pouco mais vivida que ele, mesmo que seja mais nova. Também costumam contracenar com ele actores veteranos, como a fabulosa Agnes Moorhead, Peter Lorre ou Tony Curtis. São 90 a 100% filmados assumidamente em estúdio, mesmo a maioria dos exteriores são em estúdio, têm pelo menos um número musical ou uma big band convidada, uma equipa técnica fixa e, last but not least, os figurinos femininos são de Edith Head. Um regalo para os olhos. A única coisa que varia é o contexto, onde há um pouco de tudo, uma universidade, uns grandes armazéns, animar as tropas num país ocupado, uma terra pequena, uma pensão de raparigas. O conflito costuma ser o desajuste das personagens de Jerry, que faz com que quem o rodeia se adapte, porque é bom rapaz. Claro que nem todos têm todos estes elementos e há sempre pequenos quadros que se tornam memoráveis, como o da máquina de escrever, em Who's Minding the Store, ou os magníficos cenários de The Ladies Man ou The Patsy.

Acho uma certa piada a Jerry Lewis, as histórias dos seus filmes são simples, mas eficazes, tem ideias geniais, que têm sido copiadas inúmeras vezes, e um excelente desempenho de todos. Aliás, acho que Lewis é um bom actor, a dada altura fixou-se demasiado num registo um bocado palerma, que é muito cansativo. Quando Lewis actua a sério, mesmo em cenas de comédia, percebe-se o seu talento, o problema é que descamba sempre para o registo da idiotice, que por vezes estraga. As caretas, os trejeitos e aquela voz irritante, tornaram-se de tal forma a sua imagem de marca, que é impossível escapar. No entanto, os seus filmes são muitíssimo bem produzidos, dentro do sistema de produção clássico do Studio System. Ele era com certeza extremamente popular, pois mesmo dentro deste tipo de produção, estes filmes tinham um belo orçamento. O mais discreto destes todos é Geisha Boy, onde o orçamento da direcção artística foi gasto na produção fora de portas. Falando em Geisha Boy, para um filme dos anos 50, com um título infeliz, filmado no Japão, no meio da ocupação americana do pós guerra e da segregação, com uma temática pró-americana, o filme tem um enorme e invulgar respeito pela cultura japonesa. Todos os actores orientais, falando ou não inglês no filme, são japoneses ou seus descendentes, os cenários naturais muito bem filmados e os únicos clichés são as paisagens turísticas. Os kimonos todos genuínos e vestidos como deve ser, até um consultor japonês o filme tem! Não sei até que ponto Edith Head teve mão e opinião no guarda roupa japonês, mas se teve, também teve imenso respeito e nada parece desajustado..
Gosto muito da estética guerra fria destes filmes. Têm uma direcção artística, muito clean, com uma paleta de cores desaturadas, onde predomina o branco e as únicas cores vivas costumam ser o vermelho, o azul celeste, o verde relva, o amarelo ou o laranja. Cores muito solares. Essas cores vivas, em geral estão directamente associadas a Lewis, como se para o destacar. Esta estética também era popular em televisão de estúdio, e conjuga elementos clássicos com elementos modernistas. O melhor exemplo para descrever esta estética, é uma memória que tenho de mais tarde, do Jerry Lewis Show, onde uma varanda, tão grande como um terraço, tinha relva sintética (astro turf) e um banco baloiço, provavelmente com tecido às flores. Há uma varanda semelhante, que se vê bem no final de The Patsy.

Jerry Lewis é filho, ou neto, do Vaudeville, isso nota-se no modo como os seus filmes são concebidos em forma de quadros. No meio da transição, em termos históricos e técnicos, estes filmes parecem antigos e conservadores, face à vanguarda, que ganhava terreno a olhos vistos. Por seguirem o modelo dos musicais clássicos, como os filmes de Esther Williams ou Fred Astaire, são o que restou dos filmes de estúdio da Hollywood clássica. Mesmo assim, estava à espera de os filmes terem mais tiradas, agora politicamente incorrectas, do que na realidade têm. Apesar de comédia slapstick e dentro do sistema, Jerry Lewis consegue esquivar-se sempre a tópicos mais sensíveis, dando-lhe uma certa intemporaneidade.

É muito interessante ver estes filmes de uma assentada, analisar os elementos em comum e deleitar-me com a sua estética reconfortante, mesmo que irrealista. Não devem em nada aos filmes actuais em termos de ritmo e, apesar de serem uma representação utópica do American Dream, como são muito bem feitos e exercem bem a suspension of disbelief, ainda se vêm muito bem hoje.

06 junho 2020

(Inserir Banda Sonora Dramática)

Existe um estilo de série (e filmes também, mas vou concentrar-me nas séries), que quer que seja levada a sério, que se instalou neste século. Este estilo não é assim tão novo, apareceu com a revolução nas séries de TV, com o Twin Peaks, Wild Palms e, mais tarde X-Files, mas parece que se tornou moda com o crescimento das produtoras e canais, como a HBO, Netflix, Amazon Prime, etc.

Mas afinal do que s trata? São séries dramáticas, que envolvem alguma intriga misteriosa ou conspiração, fotografadas em tons escuros, acinzentados ou sépia, e cuja banda sonora é constituída por sons graves, dramáticos, com muitas cordas, acordes bruscos e cenas de silêncio musical total. Eu gostava deste estilo, sobretudo quando era novidade e tinha a magnífica banda sonora de génios como Angelo Badalamenti, que ajudou a estabelecer o ambiente melancólico e insólito de Twin Peaks. Enquanto era em doses moderadas, funcionava. Mas eis que nesta quarentena consumi muitas séries de seguida, na TV e não só, e quando comecei a perceber um padrão, começou a irritar-me, mesmo que o restante conteúdo não fosse mau.

Nestas séries que vi recentemente estão: Chernobyl, Star Trek: Picard (a que tem a melhor banda sonora destes exemplos) e a portuguesa A Espia. Nenhuma destas séries é má, mas também nenhuma tem na narrativa variações dramáticas suficientemente fortes para sustentar estas bandas sonoras muito monocórdicas. Isso acaba por ter um efeito contraproducente, dá-me sono ou faz com que a minha atenção seja desviada para outras coisas (como por exemplo escrever este post enquanto um episódio corre na TV).

Sobre Chernobyl já escrevi, Star Trek: Picard não é má, mas parecia mais que estava no universo de Caprica que de Star Trek. No geral gostei, mas não é de todo marcante. Tem mais um efeito nostálgico, talvez testamentário, e falta-lhe uma certa patetice, que dava cor a Star Trek. Cá está, leva-se demasiado a sério.
A Espia, protagonizada por Daniela Ruah, de quem sou fã desde os Jardins Proibidos e não decepcionou, é uma boa série portuguesa, sobre a espionagem em Portugal durante a II Guerra Mundial, um tema não abordado vezes suficientes na ficção nacional. É muitíssimo bem produzida, tem uma bela fotografia, boa realização, a história não é má, tem excelentes desempenhos dos actores (apesar de achar que os sotaques estrangeiros precisavam de mais um bocadinho assim), bom guarda-roupa e uma dessas bandas sonoras dramáticas. O problema não é a série em si, é a redundância e já haver demasiadas séries com um estilo semelhante, que faz com que A Espia se perca no meio delas, por não ter nada que a faça destacar.

De qualquer modo, fico feliz por se andarem a produzir séries como A Espia em Portugal, significa que algo está a mudar e os defeitos técnicos e de estilo que marcavam negativamente a ficção nacional, estão defiitivamente em vias de extinção.

30 abril 2020

Púrpura

Sempre achei o Prince um génio musical, mesmo que nem sempre apreciasse o estilo, mas sempre achei a sua estética visual, usando um termo muito anos 80, fatela. Dentro do revivalismo barroco anos 80, sempre fui mais Adam Ant, com os seus uniformes militares e ar de pirata.
O facto de não achar o Prince um homem bonito, também não ajuda... Isto tudo para dizer que, apesar de estar sempre enfiada em salas de cinema por volta de 1984-85, nunca tive grande vontade de ver Purple Rain em sala, até porque mesmo na época, o filme me pareceu mais um meio de promoção do músico, um videoclip alongado, que propriamente um filme com cabeça tronco e membros.
Agora que finalmente matei a curiosidade que ficou, graças à FOX Life, não podia estar mais certa, teria dado os meus escudos por desperdiçados, se tivesse ido ver o filme ao cinema.

Mas eu cresci e Purple Rain não é de todo mau, a música é claramente toda composta por Prince, mesmo a das bandas rivais ou a música de fundo, o que mostra a sua versatilidade, e Purple Rain, o álbum, tem algumas das suas melhores músicas - When Doves Cry, Purple Rain. Eu agora convivo melhor com a estética, mesmo continuando a não ser o meu estilo preferido dos anos 80, e o filme não é nada mal produzido e filmado. A narrativa e os diálogos é que são realmente fraquinhos ("don't get my seat wet" - a sério? x'D), Prince é o clássico filho em conflito geracional e cultural com o pai, para sofrimento da mãe, e está numa daquelas fases contra o mundo, e a namorada, onde até se desentende com as músicas da sua banda, as fabulosas Wendy & Lisa. Por trás ainda existem as clássicas conspiraçóes de poder e manipulação, onde Prince, como bom moço que é, não encaixa, mas tem de lidar, se quer alcançar o sucesso.

Purple Rain é um filme antológico e divertido, onde apesar da fatelice, as novas gerações podem ter uma amostra dos genuínos anos 80. Pelo menos uma parte deles.

Purple Rain

10 abril 2020

Nuclear Não, Obrigado!

Apesar de uma amiga em quem confio me ter dito que seriam 5h da minha vida perdidas, não podia deixar de ver Chernobyl, pois, ao contrário dessa minha amiga, eu já era bem crescidinha quando se deu o acidente/incidente, que foi provavelmente a catástrofe mais marcante e assustadora de toda a década de 80.
Lembro-me de ver as imagens do incêndio na TV, lembro-me de a informação ser pouca e confusa, lembro-me das chuvas ácidas na Alemanha, Bélgica, França, etc. de se falar que a radioactividade não passou abaixo dos Pirinéus e de Portugal respirar de alívio.
Nos anos 80, muito antes de Chernobyl, começaram a maioria dos movimentos ecologistas com engajamento político, o Greenpeace denunciava a caça às baleias, os Partidos Verdes surgiam em vários países, com enfoque na RFA, a PeTA começou a luta contra o uso e comércio de peles, havia manifestações ecologistas um pouco por todo o lado, cujo lema era o título deste post, sobretudo nos países da CEE (onde Portugal ainda não pertencia), de começar a aparecer papel reciclado e de se falar em separação do lixo e reciclagem em geral. Nós em Portugal vivíamos uma grande crise económica, com direito a uma visita do FMI, só podíamos viajar sem passaporte para Espanha e isso de carro, e ainda recebíamos uns trocos pelo vasilhame. Foi também nos anos 80, muito perto da época de Chernobyl, que li o livro Stalker (Piquenique à Beira da Estrada, rebaptizado assim pela Europa-América por causa do filme de Andrei Tarkovsky), de Arkadi e Boris Strugatsky. Só vi o filme uns anos depois, já nos anos 90.

Portanto Chernobyl ficou marcado na minha memória e ficou muito por esclarecer. Foi mais ou menos por essas razões que tinha de ver a série Chernobyl. Esta é uma série que vale sobretudo pelo contar com algum detalhe e, esperemos, veracidade, o que realmente aconteceu a 26 de Abril de 1986.
A série toma o formato das reencenações históricas, com a grande diferença de um bom orçamento e uma produção de luxo, que inclui actores conhecidos, como o Skarsgaard pai e a Emily Watson. A produção é mesmo muito boa, num tom cinzento sépia realista, com excelentes efeitos especiais e de caracterização. É de tal forma bem feita, que tudo isso se torna invisível, mesmo que o ritmo seja um pouco monocórdico, e concentramo-nos no factos, que são o grande valor da série. O acontecido não é romantizado, mas contado sob o ponto de vista dos cientistas e técnicos responsáveis, com alguns camaradas do partido pelo meio, dando ênfase aos sacrifícios humanos, ao mexilhão, e às aldrabices políticas que estiveram por trás. Houve alguma síntese na personagem fictícia de Emily Watson, que conjuga uma série de cientistas que assistiram o protagonista, na personagem recriada por Skarsgaard, a tentar resolver o problema gigante que tinham em mãos.

Portanto, tal como se desconfiava na época, houve imensa sonegação de informação, as medidas de segurança eram insuficientes e certas medidas só foram tomadas por pressão dos outros países. Não deixa de ser impressionante vermos pormenores dos efeitos da radioactividade, como enterraram os mortos, o que aconteceu às gravidezes e partos, como a população foi tratada como carne para canhão, como a radioactividade transforma completamente o ecossistema, mesmo que não o extermine. Como numa citação de Mikhail Gorbatchev no fim da série, foi o início da queda da União Soviética e do Bloco de Leste.

Chernobyl


09 abril 2020

Pretos Estilosos

Pam Grier em Foxy Brown

Adoro filmes de blaxploitation, têm a melhor música, os melhores figurinos, sobretudo dos homens, e as melhores perseguições de carros. Infelizmente não é o género mais popular nos canais de TV, por isso só tinha visto o Shaft, o original com Richard Roundtree, mas também vi o remake com Samuel L. Jackson, e excertos de muitos outros ou filmes inspirados, como Jackie Brown, de Quentin Tarantino, ou Black Dynamite. Eis que a FOX Movies resolveu passar 3 filmes com a Pam Grier (que Tarantino foi buscar para Jackie Brown), Coffy, Sheba, Baby e Foxy Brown e ainda pesquei outro com Isaac Hayes, Truck Turner.

Começando pelos filmes com banda sonora de Isaac Hayes, que também protagoniza Truck Turner, editada pela famosa Stax, que são do melhor funk que há! Depois, QUERO aqueles casacos assertoados, com golas gigantes e camisas coloridas! Há sempre um amigo de infância ou primo, ou irmão, normalmente é primo, que é um patife de quinta, que costuma ter o melhor guarda-roupa: fatos assertoados com golonas em padrões ou cores espampanantes, trilby à banda e afros com risco ao lado. Às vezes acessorizam com cachuchos, pulseiras douradas, alfinetes de gravata e uma bengala a condizer. E não esquecer os brogues em duas cores! A quem desconhece este vocabulário: Google is a friend.

Os protagonistas masculinos podem ser ex-polícias, mas agora são detectives ou caçadores de prémios, com um amigo na polícia e também algum ódio de estimação a quem pisaram os calos, muitas vezes corrupto. São duros, implacáveis, com poucos escrúpulos e apenas duas regras de honra: justiça e vingança. Há sempre, no passado ou no início da história, uma namorada ou melhor amigo patife, que foi assassinado ou desonrado por um cabecilha de um bando ligado a voos mais altos, como tráfico de drogas ou lavagem de dinheiro (que inclui muitas subcategorias igualmente mafiosas), que os leva a sair da rotina. Também é o maior mulherengo da cidade, trocando de mulher como troca de figurino, mas sempre fiel à memória do seu grande amor.

Com Pam Grier não é muito diferente, em geral é a filha, irmã ou namorada de alguém injustiçado ou assassinado por ser honesto e estóico ou querer redimir-se, onde Pam inicia uma busca pela justiça à margem da lei, em geral seduzindo os associados do mafioso mor, em geral um homem branco, até chegar a ele.

Os figurinos masculinos, como já disse, incluem muitos fatos assertoados e camisas coloridas, mas também muita ganga e algum cabedal e fatos de motoqueiro. Os femininos incluem lingerie de sex shop, vestidos sem costas e com decotes até à cintura, muito inspirados em Halston, nas cores mais berrantes do arco-íris (uma das meninas do mafioso de Coffy, no seu funeral, usa um macacão de luto fabulosamente sexy!). Obviamente há muitas maminhas à mostra, ou não tivesse o género a palavra "exploitation" no nome. Os brancos só são estilosos quando estão no topo da cadeia alimentar, mesmo assim, nunca tanto como os pretos. Os capangas usam fatos cinzentos azulados, como se fosse um uniforme, os patrões vestem-se à Bee Gees.

Nem sempre quem manda naquilo tudo são homens brancos, em Truck Turner é Nichelle Williams, a Uhura de Star Trek, viúva do mafioso, que quer acabar com Isaac Hayes. Os carros são quase sempre low riders que nunca mais acabam, há motas, iates, barcos de corrida, motas de água, helicópteros às vezes, aviões, poucos. Há cenas que se repetem: o tiroteio a partir dos carros, o partir a loiça toda num apartamento ou quarto de hotel todo estiloso, a perseguição de carros que inclui uma capotagem, a protagonista a cortar cordas com uma lima de unhas ou semelhante que guardava dentro da afro. Tanta coisa pode ser guardada dentro de afros: armas brancas, armas de fogo, acessórios de beleza, acessórios de cabelo que claramente não estão lá a fazer nada. Isaac Hayes é careca, mas Pam Grier muda quase tantas vezes o cabelo como muda de roupa, o que vai desde a afro ao cabelo "varrido", tipo Farrah Fawcett, anos 70, ou o clássico rabo de cavalo muito repuxado. E depois há o calão colorido do Harlem, que dá uma riqueza a estes filmes, que a maioria do cinema norte-americano não tem.

Nisto tenho de falar em Samuel L. Jackson, o mais digno herdeiro deste cinema e que o honrou razoavelmente bem em Shaft, mas melhor ainda nos filmes de Tarantino. A blaxploitation é um género de uma época especifíca, os anos 70, onde a cultura negra primeiro conseguiu sair dos estigmas da escravatura e racismo e impor-se por si própria, sem se levar demasiado a sério. Isso gerou uma série de filmes muito divertidos mesmo hoje, muito kitsch, e que inspiraram muito mais que o Tarantino o ou Samuel L. Jackson.

04 abril 2020

Apaixonei-me por um Cowboy do Espaço


Se era preciso provar que para ter uma boa série ou filme, basta uma ideia simples mas bem executada, existe The Mandalorian.

The Mandalorian não é muito original, as inspirações são óbvias: os westerns, principalmente os western spaghetti, Lone Wolf and Cub, os filmes de samurais e, obviamente, o universo de Star Wars, onde se integra. Mas o modo como todas estas inspirações/citações foram mastigadas e cuspidas é o que torna The Mandalorian uma série divertida, interessante e muito viciante.

A realização é impecável e muito fluída, os argumentos são simples e resolvem um problema de cada vez, adicionando algo e mantendo a coerência com o arco principal, a fotografia está algures entre os sépias dos westerns e os azuis escuros das space operas. Somos levados a conhecer o universo dos Mandalorians, uma tribo de guerreiros que aparece pontualmente sem grande glória nos filmes de Star Wars, e, para isso, a armadura deste Mandalorian leva vários upgrades, a começar na ausência de pintura, dando-lhe o aço polido um ar mais sofisticado que a armadura gasta e batida de Boba Fett: temos aqui um Mandalorian mais competente. O guerreiro sorumbático e de poucas palavras gera empatia, com uma história de paternalidade inesperada, uma criança sossegada que não faz birras e ainda por cima tem superpoderes, tornam este Mandalorian num potagonista fácil e que queremos conhecer. A relação dele com A Criança (vulgo Baby Yoda) é fotocopiada de Lone Wolf and Cub, mas não faz mal, funciona lindamente neste contexto que, fora a tecnologia, não é muito diferente do dos ronins ou dos cowboys. Desde que não mintam sobre a inspiração e Kosuke Fujishima não se importe (quem sabe se não terá vendido mais um livrinho ou dois à pala de The Mandalorian?), estamos bem. A Criança é completamente adorável, sobretudo porque não chateia e intervém quando é necessário.

Adoro como o TIE Fighter de Moff Gideon aterra, e aquele lightsaber negro... ooooooh! Apesar de o achar mais um vilão de western, o clássico cowboy negro a aguardar o duelo ao pôr-do-sol, que um vilão digno do Império, não deixa de ser convincente, nem que seja na sua resiliência. Opá, os Stormtroopers a fazerem tiro ao alvo e a não acertarem nem um! Pew, pew, pew, pew, pew!

Por fim... ai a banda sonora! Há muitos anos que uma banda sonora original não me enchia tanto as medidas! É herdeira directa de Ennio Morricone, mas Ludwig Göransson dá-lhe uma modernidade que faz com que por um lado suporte lindamente a narrativa e seja épica e, por outro, possa perfeitamente ser ouvida separada da série.

Gostei do final em aberto, com o vilão vivo e espaço para aventuras muito diferentes das desta primeira temporada, mas, para o tipo de série que é, que tem tudo para poder ser muito longa, 8 episódiozinhos é muito pouco! T_T

Já percebi o hype todo à volta dos nomes Jon Favreau e Taika Waikiki, eles são BONS no que fazem!

Infelizmente em  tempos de Corona, a estreia da segunda temporada pode demorar, vamos ter de comer doses duplas de paciência ao pequeno-almoço. Até lá, espero que a Disney lance mais merchandising decente e de preferência baratuxo do The Child X'D

The Mandalorian

27 março 2020

Anjos & Demónios



Cruzes canhoto que não é do pastiche do Dan Brown que vou falar! Vá de retro!

Em tempos de quarentena colocam-se as série e filmes em dia. A eleita dos últimos dias foi Good Omens, baseada no livro de Neil Gaiman e Terry Pratchett.
Dos dois, o que li primeiro, e o meu preferido, é Terry Pratchett, com o seu universo mitológico um bocado herege, onde a Morte tira férias. De Neil Gaiman só li um livro, Stardust, e pedaços das suas colaborações em BD. Gosto das histórias, mas o estilo de escrita não me aquece nem me arrefece. Não foi o suficiente para querer ler mais.

Mas vamos à série: Good Omens começa por ter um elenco cinco estrelas, encabeçado por Michael Sheen, o meu querido David Tennant, a fantástica Miranda Richardson (Queenie!) e participações de muitas caras conhecidas, entre eles Mark Gatiss e Frances McDormand a fazer de Deus.
A história é uma divertida tentativa de um anjo e um demónio de manterem o seu status quo na Terra, que mantém há 6 mil anos. Em 6 mil anos é impossivel não se terem tornado amigos e cúmplices, já que não querem muito mais que o comum mortal, ter uma vidinha agradável a fazer as coisas que gostam. Para abrilhantar a história, os diálogos são bestiais, mordazes e cheios de sarcasmo. Bons para tirar citações. "Milk Bottle, deceased."

Esteticamente a série vai atrás de uma espécie de novo barroco, onde os neutros de Aziraphael (brancos e castanhos) e Crowley (pretos com um pouco de vermelho) se destacam numa Terra de cores quase primárias e com formas cheias de detalhe campestre inglês. O genérico lembra muito o de Desperate Housewives, nas cores, na animação, na música e, obviamente, na maçã vermelha do pecado.

Good Omens é uma série muito divertida, que se vê num instantinho (é curta) e que me fez dar umas boas e sonantes gargalhadas com as suas heresias um pouco pueris. O recontar de cenas bíblicas é do melhor!

Good Omens

17 março 2020

Jack e os Cybermen!

Perdão pelo semi-spoiler no título, mas, nesta altura do campeonato, é muito provável que os Whovians que andam por aí saibam que há Captain Jack e Cybermen na temporada 12.

Em plena pandemia, estou a prever um aumento de posts nos meus blogs, mas já estava a ver a última temporada de Doctor Who antes de ficar em casa, em #autoisolamento. Só espero que a/o Doctor ande por aí a tratar do assunto.

A meu ver, Chris Chibnall teve uma abordagem sensata a Doctor Who, pós o complicadinho Steven Moffat. Já me pronunciei acerca do que penso das temporadas de Moffat, acho as reviravoltas timey-wimey super cansativas e faziam-me perder a concentração algures a meio de cada episódio. Na temporada 11, Chibnall fez uma espécie de reset e manteve as histórias muito simples, preparou o terreno. Na 12, a conversa já é outra e o terreno deu frutos. Os primeiros episódios são uma espécie de versão mais complexa da temporada 11, ainda com um pouco de politicamente correcto, mas mais bem integrado no universo de Doctor Who, por não dominar os episódios. No episódio 5 aparece o Captain Jack para agitar as águas! A série finalmente arranca e passa a fluir melhor, oferecendo-nos bons momentos de terror e de ficção científica. A história dá uma bela guinada, a Doctor e a fam engatam a 4ª e o que se segue é um deleite. Ah, e não há seres humanos "especiais", só fazem o que os heróis humanos fazem: lutar para sobreviver.

Sem spoilers, de todas as reviravoltas para nos surpreender ao longo de New Who, talvez esta, uma espécie de origin story, tenha sido uma das minhas preferidas. Continuo a adorar o arco Bad Wolf, mas este foi claramente bem pensado e estruturado e é muito empolgante. Por fim, o final genial em cliffhanger e o título do próximo episódio, que inclui a palavra Dalek, prometem uma próxima temporada mais agitada que estas duas.

Aplaudo Chris Chibnall por ter pegado num molho de lã enleada e ter conseguido refazer o novelo, respeitando os cânones, mantendo Doctor Who solidamente na ficção científica! Ao 57º aniversário e à nova temporada!

Doctor Who

08 março 2020

Múltiplas Personalidades


Não é facil escrever sobre Legion e vou já avisando que este post é capaz de não ser dos mais coesos. Mas é capaz de ficar a fazer "pandan" com a série. Ou não.

Legion é capaz de ser a melhor coisa cuspida pela Marvel, fora do formato banda desenhada, desde sempre! Nem sei como uma série como esta conseguiu ser produzida e ainda por cima ter 3 temporadas!
Legion não é fácil de digerir, Legion não é banal, Legion tem uma estética diferente, Legion é uma série confusa, sem o ser. Para uma série, cujos episódios têm de ser vistos com 200% de atenção, tem um arco principal da narrativa estranhamente fácil de seguir. Cada episódio dá imensas voltinhas e acaba sempre de forma chocante e inesperada, mas mesmo assim, talvez por ser um caos organizado, por se manter fiel e coerente no seu universo surreal, acaba por tornar-se simples.
Uma das coisas que mais gostei da narrativa de Legion, é que faz o mesmo que David Cronenberg faz em Spider, posiciona-se dentro da cabeça de um esquizofrénico. Em Spider, Cronenberg não tinha o peso de uma empresa como a Marvel em cima, pôde fazer mais ou menos o que bem lhe apeteeceu. Portanto, a narrativa é desconstrutiva e não almeja a nenhum tipo de linearidade. Torna-se um objecto cinematográfico quase abstracto, mas fascinante. Em Legion, a narrativa fugiu mais para o surrealismo, o que a ancora em referências que nos são familiares e torna o processo de assimiliação mais cerebral e menos emocional. O que quero dizer é, em Spider deixamo-nos levar pela envolvência, pelo desempenho do actor protagonista, pela banda sonora, pela imagem, pela mise-en-scène, e não nos preocupamos em montar o puzzle da narrativa. Em Legion, a história é contada de forma linear, em episodios não-lineares, com uma perspectiva distorcida, mas não fragmentada. É como se vissemos a historia através de um caleidoscópio. Aliás, a imagética do caleidoscópio repete-se ao longo das três temporadas.

Cada temporada de Legion foi construída como se de um acto se tratasse. A primeira apresenta-nos as várias personagens, introduz as suas características psicológicas e, nalguns casos, as físicas e apresenta-nos o dilema do protagonista: tratar a doença mental e lidar com os super poderes de mutante. A segunda temporada leva-nos em busca do antagonista e revela-o. A terceira inclui a origin story e como o protagonista resolve o seu dilema. Portanto, bastante simples e linear. Mas a estrutura de cada temporada e de cada episódio, fazem-nos sentir como se estivéssemos a fazer um puzzle, e se não olharmos para cada peça ao pormenor, podemos não conseguir completar o puzzle.

Para reforçar a sensação do surreal e insólito, Legion apostou numa estética retro modernista, com uma arquitectura que vai da inspiração em Corbusier, ao brutalismo (que eu adoro!) e a cenários assumidamente cenários. É quase 100% filmada em estúdio ou interiores naturais, mas de arquitectura insólita. Tem uma paleta de cores limitada, as figuras geométricas, como os hexágonos, os círculos, os ovos, os triângulos e os X, repetem-se, usa imagens e grafismos fortes e marcantes. Também distingue visualmente cada temporada, começando com uma estética um tanto pueril do final dos aos 60, quase toda em interiores, na primeira, passando a uns anos 60 mais psicadélicos e com mais paisagens exteriores exóticas, na segunda, culminando num psicadelismo esotérico anos 70 na terceira, onde o colorblocking foi substituído pelos padrões flower power. Também segue uma certa tendência vanguardista na TV, de ter escrita no ecrã, como complemento, muito videoclip MTV, anos 90. E depois há o gajo do cesto na cabeça, o sarcófago-ovo e as androides de bigode. Nem que seja por estas e outras tais, já vale a pena ver a série!
Tal como é visualmente forte, a banda sonora usa dramaticamente musicas indie ou alternativas, como, num dos últimos episódios, o Games Without Frontiers, de Peter Gabriel.

Voltando à historia: adorei a história da origem e adorei como é contada. Na terceira temporada há um ziguezaguear no tempo dos protagonistas, que nos conta a história da origem de Legion/David e vai juntando todas as pecinhas do grande puzzle das três temporadas, e com pouco recurso ao flashback, o que é um alívio. Cada personagem, a começar pelo David, passando pela Lenny e terminando em Farouk, não é nem preto nem branco, não há heróis nem vilões, mesmo que na primeira temporada as personagens nos sejam apresentadas assim. No fundo, nada é o que parece e o caleidoscópio acaba por mostrar-nos uma realidade nua e crua, imprevisível e enigmática, como a própria vida é, com óculos coloridos.

E não posso esquecer-me dos actores! Dan Stevens (David) já tinha agradado muito, como Cousin Matthew, em Downton Abbey, e conseguiu surpreender neste registo completamente oposto ao que o tornou famoso. David Haller não é um papel fácil e ele faz a personagem parecer natural. Aubrey Plaza (Lenny), insinuou-se ao mesmo tempo em várias séries no meu universo televisivo, também entra nas últimas temporadas de Criminal Minds, e é a minha louca psicopata preferida do momento. Ao contrário de Dan Stevens, Aubrey Plaza tem feito mais ou menos o mesmo tipo de papéis, de psicopata perigosa e instável, fico curiosa em vê-la num papel com outro registo, se bem que parece-me que é ela mesma que tem inclinação por este tipo de papéis. Os outros actores também são fundamentais para o conjunto, foram escolhidos meticulosamente, mas estes dois encheram-me as medidas.

Acho que, pela primeira vez, senti ao ver uma série ou filme de ficção científica, a mesma sensação de realidade hiperbólica que tenho ao ler livros de ficção científica. Daqui a algum tempo quero rever esta série, talvez em modo de semi maratona, e com muita atenção. Ainda há com certeza muito para ver e muitas camadas da cebola para tirar. Esta entrou facilmene para o meu panteão e é daquelas que gostava d ter um dia em DVD. A minha DVDteca é limitada e muito escolhida.

E afinal acho que acabei por ser mais coerente do que pensava!

Legion

01 março 2020

Sereia Russa


Há uns 5 ou 6 anos, vi um GIF animado com uma sereia que me chamou a atenção. Uma busca por imagem no google disse-me que se tratava do filme checoslovaco Malá morská víla, de 1976. Como adoro uma outra adaptação checa de um conto de fadas dos anos 70, Tri orísky pro Popelku (Três Nozes Para Cinderela), que vi na RTP noutra vida, lá procurei o filme e vi-o. Rapidamente percebi que não se tratava do mesmo filme da foto, voltei a fazer uma busca pelas internetes, e nada.

Fast-forward para há uns meses. Comecei a seguir recentemente no instagram o Lorde Velho, um blog sobre cinema fantástico, de terror e coisas exóticas, onde aparece um cartaz parecido com o GIF que tinha visto. Imediatamente perguntei o título do filme, trocámos uns comentários acerca do filme, que é Rusalochka, também de 1976, mas desta vez russo.

Entretanto vi o filme. Apesar daquela imagem que vi há uns anos não me parecer à partida familiar, tenho quase a certeza que vi este filme quando era miúda. A estética e os desvios da narrativa de Anderson, são-me muito familiares. Talvez a imagem da sereia não me tenha despertado memórias, pois com certeza vi o filme a preto e branco, e se foi na minha TV de infância, num ecrã muito pequenino, portanto, nunca poderia saber que o cabelo da sereia é um branco azulado, que se torna loiro quando ela passa a ter pernas. Aliás, apesar das caudas de sereia muito manhosas, mesmo para a época e para um país de Leste, as perucas são de uma qualidade rara, parecem cabelo genuíno. Não ficaria muito admirada se constatasse que são de cabelo verdadeiro.

Quanto mais vejo imagens do filme, mais tenho a certeza de o ter visto. É curioso como a memória funciona, a memória do acto de ver o filme varreu-se completamente, no entanto foi determinante a definir na minha cabeça a minha "estética perfeita" da Pequena Sereia. Tudo parece encaixar na perfeição. Analisando pelas datas, faz sentido. Depois do 25 de Abril, houve um boom de produtos televisivos de Leste, provavelmente por influência de Vasco Granja, comunista e sempre atento às cinematografias de Leste.

O filme é giro, menos fantasista ou teatral que o checo, mas com uma produção curiosa, uma escolha de figurinos deveras interessante e uma realização curiosa. A maquilhagem é o que denuncia o período em que o filme foi produzido, e se não o fizesse, a música trata do assunto. O filme é obviamente datado, mas eu gosto desse estilo um bocado kitsch de leste, talvez por que cresci com ele? Chamemos-lhe retro, já que se passaram mais de 40 anos. Também gosto das liberdades criativas, que o tornam único. Será que alguém mais velho que eu pode confirmar se o filme realmente passou cá na TV, ou se não é a minha memória armada em parva.

10 fevereiro 2020

Oscars Coreanos

Apetece-me escrever acerca dos Oscars? Não. Mas vou fazê-lo na mesma.

Este ano não pude prestar muita atenção à cerimónia, pois, em vez de estar a costurar um fato de cosplay, como de costume, estava a terminar um trabalho, que tinha de ser entregue esta manhã. O trabalho exigia-me mais atenção que a costura, adoro costurar durante cerimónias de prémios, são o acompanhamento perfeito, rende bem. O trabalho já não. Mas também não houve muito que me chamasse a atenção no ecrã da televisão, foi mais ruído de fundo que outra coisa. Longe vão os tempos em que os Oscars me obigavam a ficar colada ao ecrã, não fosse perder alguma coisa interessante.

Como só vi o Once upon a Time in Hollywood dos nomeados, espera, também vi o The Rise of the Skywalker, (já estou melhor que o ano passado, que não tinha visto nenhum), não fiz apostas, mas estava a torcer pelo OUTiH nas categorias de Design de Produção (GANHOU!) e Guarda Roupa. No guarda roupa não percebo porque Downton Abbey (esse também vi, mas não sei se teve alguma nomeação) não foi nomeado e menos ainda o prémio para as crinolinas. Francamente, mesmo dentro dos filmes com crinolinas, já vi BEM melhor, incluindo a adapação anterior de Little Women, de Gillian Anderson. Foi mais: "vamos dar lá um Oscar à gaja." Por outro lado, o guarda roupa de Once Upon a Time in Hollywood, cumpre todos os requisitos de um bom guarda roupa: passa despercebido, é visualmente interessante e serve maravilhosamente bem a narrativa e as personagens. Para além disso, como guarda roupa de época, muitíssimo bem feito, tanto nas escolhas, como no assentar aos actores. Nota: é muito mais difícil fazer um bom guarda roupa mais ou menos contemporâneo, onde muitas pessoas têm a memória de como as coisas que se usavam, que um guarda roupa de épocas passadas, onde muitas vezes se usa o exagero para disfarçar as falhas.
Outro que gostava que tivesse vencido foi John Williams, por TRotS. É verdade, já ganhou uma série de vezes, mas a banda sonora deste último Star Wars é brutal, uma das melhores que ele fez para a série e, sem dúvida, a melhor desta trilogia.

O final, quando já tinha terminado o trabalho e podia concentrar-me na TV, foi a parte surpreendente, no sentido que os americanos deram mais que um Oscar, nas categorias mais importantes, a um filme que os obriga a ler... legendas! Parabéns Parasite!

Gostei da simplicidade do cenário, parecia uma bolha, mais uma vez esqueceram-se de alguém no obituário: Luke Perry :'( ,Rap nos Oscars? Tão anos 90!! E a cerimónia foi basicamente aborrecida... zzzZZZZ...

As farpelas, estou neste preciso momento a ver o Red Carpet do E! (com muito pouca atenção, diga-se) e só se destacaram uns dois ou três vestidos: o exótico, mas elegante, de Janelle Monae, o pink da miúda do Once Upon a Time in Hollywood (Julia qualquer-coisa), a deusa grega Salma Hayek e o lindíssimo Chanel de Penelope Cruz! O resto ou era beige (ugh!), WTF ou vestidos para o prom.

É isto.

Oscar.com

14 janeiro 2020

Arquelogias Nacionais

Cruzei-me com Cláudio Torres no passado e, graças a esse cruzamento, conheci Mértola e fiquei a saber o tesouro que ali andava escondido. Por esses motivos quis ver a série documental acerca da vida dele, Cláudio Torres - Arqueologia de uma Vida, sobretudo sobre o período pré-25 de Abril da sua vida, e tive uma excelente surpresa.

Já tinha ouvido algumas daquelas histórias, mas nem foram as mais fortes ou rocambolescas, sabia dos tempos na Roménia, do exílio forçado, mas não do que os levou até lá. Resumindo, levava algum avanço em relação à maioria dos espectadores, mas não muito.

Cláudio Torres - Arqueologia de uma Vida, trata-se de um documentário parcialmente encenado, contado na primeira pessoa. Cláudio e a sua mulher, Manuela Torres, são contadores de histórias, como tal, conduzem-nos de modo fluído através das suas aventuras, que mais parecem tiradas de um filme de Indiana Jones - sem o chicote. Isso subiu logo a fasquia deste programa. Nesse relato vemos como a PIDE actuava, como o Português era pouco Suave e como o casal e os seus companheiros foram de uma resiliência inacreditável. O humor e a leveza como os episódios nos são contados, ajudam a narrativa a fluir de um modo pouco usual na ficção portuguesa. Oh, a importância de um bom argumento! Aliás, tenho de agradecer a Manuela Torres, pois a dada altura deu-me sugestões de como organizar um texto, sugestões que ainda uso hoje neste blog. Espero que bem.
Para além dos testemunhos de Cláudio, de Manuela, das filhas e outros notórios no seu percurso, ainda temos episódios encenados, com actores. Começo por elogiar os actores, desde a sua escolha, cuja semelhança física ajuda, ao seu desempenho impecável. Os episódios também são bem dirigidos e bem intercalados nos relatos. Aos autores e toda a equipa, os meus parabéns, pois, apesar de pequenina, esta série é um excelente exemplo que já chega de acharmos que o Nacional Não É Bom. Um bom tema, bons sujeitos, bem planeada, bem filmada, bem montada, bem produzida e uma banda-sonora interessante! Mais, gosto deste esforço da RTP, também no programa Vejam Bem, de não estar à espera que as pessoas morram para as homenagear. Há histórias que devem ser contadas na primeira pessoa, esta é uma delas.

Agora vão a Mértola, visitar uma vila lindíssima e que Cláudio Torres ajudou a colocar no mapa.

ADENDA:
Cláudio Torres acabou de receber a Medalha de Mérito Cultural, os meus parabéns!
Está na hora de publicar este post ;)

Cláudio Torres - Arqueologia de uma Vida

07 janeiro 2020

Filmes de Cordel

Há alturas em que não apetece pensar quando se vê filmes, nessas alturas os filmes de cordel, a que antes chamava telefilmes da meia-noite da TVI, caem mesmo bem. Em Novembro apetecia-me ver filmes de cordel e descobri que a FOX Life os passa quase em cadeia. E há muitos! MESMO muitos!

Os filmes de cordel obedecem a uma fórmula, independentemente de serem meros romances, policiais (sempre com uma componente romântica) ou filmes de Natal. A grande produtora/distribuidora destes filmes é a Hallmark, famosa pelos postais de festividades.

A fórmula é a seguinte: abrem com um plano aéreo de uma metrópole, em geral a norte dos Estados Unidos, Nova Iorque, Boston, Chicago, são as mais comuns, acompanhada por uma musiquinha genérica, com guizos obrigatórios se for de Natal. Uma protagonista, loira, na casa dos 30, workaholic, saída de algum tipo de relacionamento frustrado (abandono no altar, traição, término de namoro, às vezes viuvez), é arrancada do seu status quo, em geral para uma terreola pitoresca, com neve obrigatória nos filmes de cordel de Natal. Fora do seu meio, descobre o amor no novo membro da pequena comunidade, ou namorado de adolescência, ou rapaz com que implicava, tipo que lhe fez algum tipo de pequena desfeita no passado e que, em geral defende valores conservadores e puritanos de família. Enfim, o American dream. Com frequência tem uma melhor amiga ou irmã, com um casamento bem resolvido, filhos, basicamente com a vida resolvida. A nossa protagonista loira decide, no espaço de 2 a 4 semanas, dar uma volta de 180º à sua vida, aos seus sonhos, ao seu sucesso profissional, em nome do amor.
Os temas e as profissões vão variando e são sempre neutras, seguras. As profissões urbanas vão de contabilistas ou arquitectos a doceiros, padeiros ou decoradores de interiores. Profissões seguras mas que exigem "dedicação" aos protagonistas. As profissões rurais ou estão ligadas à agricultura ou aos trabalhos manuais/braçais, como carpintaria, ou agente da polícia local, ou funcionário da Câmara Municipal. Desde que mostre um galã musclado, serve, se tiver camisa de lenhador aos quadrados e calças de ganga justas, melhor.
Depois de superados os poucos obstáculos, de a relação ter passado da implicância à cumplicidade sem motivo aparente, excepto que são boas pessoas, problemas em geral sem ligação directa ao relacionamento amoroso, tudo termina selado com um beijo, muitas vezes o primeiro do casal. Sexo? No way! Nem sequer são vagamente eróticos, mesmo quando são policiais.

A percentagem de morenas é pequena, negros então, fora um único caso, são sempre os amigos, os sidekicks simpáticos. Asiáticos são figurantes especiais, por vezes promovidos a sidekicks, latinos? não me lembro. Por vezes há homens protagonistas, em geral viúvos e pais solteiros. Quando há pais/mães solteiros, a criança tem entre 5 a 12 anos é pespineta e fofinha e em geral é uma rapariga. Nada de adolescentes rebeldes. De vez e quando a nossa protagonista é mais nova ou mais velha, mas também é tão comum como as morenas. Os actores repetem-se e parece que só fazem estes filmes, às vezes voltamos a vê-los como vilões ou personagens secundárias noutras séries, como um que agora apareceu como vilão em Arrow. Por vezes os "mentores" mais velhos são actores mais ou menos conhecidos, a entrar em decadência, ou nomes para chamar público. Outras, a protagonista é uma estrela em ascenção, como a Jessica Lowdnes, ou uma saneada de Hollywood, como a Mira Sorvino (pobre Mira Sorvino, merecia melhor!). Quando há actores fora da fórmula, há uma leve tendência a melhorar a qualidade, mas na grande maioria dos casos, os actores, a começar pelos protagonistas, limitam-se a mastigar o cenário e a gama de emoções é muito pequena, sem rasgos de desgosto ou felicidade.

Ao fim de cerca de um mês, FARTEI-ME! Acho que as 50+ vezes que ouvi as cançonetas de Natal contribuíram para isso.

30 dezembro 2019

O Trio Novelesco

Eu vejo novelas da Globo, já o disse aqui. Tenho mais pendor para as chamadas "novelas da tarde", para as comédias desbragadas, ou as mais solares, com surfistas e muitos miúdos. Nestas décadas quase ininterruptas de novelas, há um trio que provavelmente eu veria em loop, mas que nunca foram repostas, até Novembro de 2019!

O meu Top 3 de novelas é, por ordem cronológica, Vereda Tropical, Brega & Chique e Quatro Por Quatro. A novela que quebrou a maldição foi a última, Quatro Por Quatro, que começou há poucas semanas a dar na Globo, num sistema de votação público pelas internetes. Mas vamos por partes, como diz o homem do talho.

Vereda Tropical
Foi uma novela alegre, onde os actores principais eram favoritos meus: Lucélia Santos, a Escrava Isaura, altamente subvalorizada por causa de ter sido rotulada muito cedo, Jonas Torres, o eterno Bacana da Armação Ilimitada, hoje com idade para ser pai de adultos, e Mário Gomes, o galã trapalhão, que nunca teve o destaque que merecia, excepto talvez em Vereda Tropical.
Começando pelo genérico, no melhor estilo gráfico tropical anos 80, com palmeiras, néons, surfistas, cocktails, é daquelas novelas essencialmente de comédia, cuja narrativa  principal é um verdadeiro drama, e os vilões parecem vilões de desenhos animados, exagerados e frustrados. Aqui as histórias individuais, da mãe do órfão que procura uma vida de paz, da mamma italiana que mantém sempre o rol de filhos sob escrutínio, do futebol, da empresa rica e megalómana a ambicionar o lucro, prejudicando os mais fracos e a clássica história do underdog que vinga, graças a muita criatividade, amizade e, claro, amor.
Não sendo propriamente uma história marcante, o que fez esta novela foi uma bela conjugação da leveza de um argumento que não se leva demasiado a sério, um elenco feliz e uma produção muito colorida e criativa.

Vereda Tropical [Wiki]

Brega & Chique
Novamente uma novela de comédia, cujo drama principal é o de um empresário poderoso, que mantinha duas famílias (uma pobre e outra rica) que finge a própria morte e deixa a herança à família não oficial, a pobre. Por coincidência telenovelesca, a famíilia rica muda-se para o bairro da família pobre e ambas as "viúvas" tornam-se amigas.
Como se não bastasse o potencial de comédia ser alto nestas circunstâncias, a presença de um elenco de luxo, encabeçado pela divina Marília Pêra, que fez demasiado poucas novelas e nenhuma personagem tão brilhante como a sua Rafaela Alvaray, levaram o humor aos píncaros. Ao longo da novela, Marília Pêra faz três monólogos, um no ínício, quando sabe que ficou pobre, um a meio, quando as coisas estão mais ou menos encarriladas, mas os segredos começam a vir à tona, e no fim, quando finalmente ela encontra a sua independência emocional e se vinga do "falecido", que valem a novela inteira!
As intrigas secundárias, as marmitas, as lentes de contacto verdes e o vison, a alfabetização do filho do marceneiro, os diversos romances entre filhos, a vida do bairro popular, enriquecem mais ainda uma novela muitíssimo divertida.

Brega & Chique [Wiki]

Quatro Por Quatro
Comédia. Quatro mulheres de idades e meios diferentes, envolvem-se num acidente de carro no dia em que se separam dos respectivos maridos, noivos, namorados. Vão presas e decidem vingar-se dos respectivos. A diversidade das quatro, Bibi, a dondoca intelectual, Auxiliadora, a dona de casa dedicada, Tatiana, a secretária ingénua e Babalu, a cabeleireira-manicure pespineta, apimenta toda a novela e dá pano para mangas às cenas de comédia.
Novamente é um elenco de luxo, muito habituado a fazer este tipo de comédia, muitíssimo bem escolhido, que faz a novela. Gostei tanto da dona de casa rica, que não sabe o caminho para a própria cozinha, Abigail Rossini, Bibi para os amigos, interpretada pela maravilhosa Bete Lago, ela e Letícia Spiller, a Babalu, revelações nesta novela, o texto maravilhoso, diálogos hilariantes, frases memoráveis e a interacção dos casais, são do melhor que a Globo alguma vez fez.
"Minha mãe era devota, queria Lourdes, meu pai era fã de uma tal que aparecia no cinema de bota prateada. Ficou Barbarella Lourdes." ~ Babalu

Este jogo com os nomes caracterizadores das protagonistas, Abigail/Bibi, Auxiliadora, Tatiana e Barbarella/Babalu, demonstra a inteligência da escrita, onde as situações exageradas e caricatas se repetem.

Quatro Por Quatro [Wiki]

Este trio de novelas tem algumas pessoas em comum: Jorge Fernando, actor e realizador, recentemente falecido, que foi responsável pela direcção grande maioria deste tipo de novela, comédias alegres, com um lado lúdico forte, tal como Vereda Tropical e Brega & Chique. Outro é Guel Arraes, um dos criadores da já mencionada Armação Ilimitada, é um nome que se repete nas novelas que em geral gosto de ver, foi o criador de Vereda Tropical.

É um prazer rever Quatro Por Quatro, a novela que deu nome à minha primeira gata, Abigail Rossini, Bibi para os amigos (mas que sempre soube bem onde era a nossa cozinha), que não envelheceu nada, apesar de me tirar de vez em quando a exclamação: "tão novinho/a!"
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